CARTA DE BRAGA – “da espera, da tragédia e do bife”- por António Oliveira

A vida não passa de uma sucessão de ‘esperas’!

Não de esperança, mas só de espera, a que se pratica nas filas da Segurança Social, das Finanças, da Loja do Cidadão, da chegada do autocarro, do supermercado mais as filas invisíveis da espera do fim do mês, do fim-de-semana, do Agosto das férias, do fim da dor de dentes e, paradoxalmente, até a de não ter de trabalhar mais por obrigação, quando isso só será possível lá para os setenta (agora, que a continuar este mercantilismo, provável talvez só depois da partida!)

Mas também um paradoxo porque, a toda a hora e em qualquer canto, nos tentam convencer que ‘o tempo é ouro’ quando, se calhar por mais calejado, o preferir trocar por ‘o tempo é do ouro’.

Creio poder explicar esta pequena questão semântica entre signos, através dos entraves que os circuitos kafkianos das inumeráveis burocracias impõem para nos poupar tempo, quando o que conseguem é meterem-nos na cabeça uma listagem enorme de tempos para aproveitar o mais depressa possível.

 Ainda sou do tempo que para as filas se levava um cigarro, um livro, um amigo ou a namorada do ‘queres vir comigo?’, mas os donos de ‘o tempo é do ouro’, também são os donos dos telemóveis, das notificações e de todas as apps criadas e por eles incitadas, para trocarem as nossas esperas pelas receitas deles, a razão mor das suas apropriações.

O sistema fomentado pelas redes, as fakes, a subalternização da verdade e da justiça, os manhas de todas as manhãs, os julgamentos públicos e mediáticos, o triunfo de trumps à discrição, parecem demonstrar um aforismo do escritor e jornalista Isaac Rosa, ‘estamos na fase da demolição em todos os campos da vida e da sociedade. Desgraçadamente não encontrámos a maneira de lhe arranjar uma alternativa, nem de lhe achar um suplemento. Hoje, talvez só haja a incerteza a marcar todas as gestões, as nossas e as de quem governa

Também vemos como se procura substituir a realidade pela subjectividade das preferências, onde a espera é um conceito que ocupa demasiado tempo e mesmo a própria palavra, não goza de grande prestígio até no campo ecológico.

A realidade agora é uma tragédia!’ dizia-me há dias, um bom amigo, mas logo lhe retruquei com o inefável Woody Allen, por garantir que ‘a tragédia não passa de comédia mais o tempo

O tempo das esperas, as do fim do mês, as dos dentistas, as dos passes e da Segurança Social, as do futuro e daquelas onde não há trocas de apps por receitas – as da sueca nos jardins, as das pombas à espera das velhotas dos miolos de pão e as dos arrumadores, as dos silêncios e as da chegada das andorinhas.

Estás a ser cínico!’ acusou ele, mas voltei a atirar-lhe com Allen, ‘também odeio a realidade mas acho que ainda é o único lugar onde se pode comer um bom bife!

Cinismo ou pragmatismo? E, mesmo nisto e aqui, onde está a diferença?

António M. Oliveira

 Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

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