Alemanha, passado e presente – Em que situação se encontra a Alemanha depois dos acontecimentos de Chemnitz? Respostas com M. Pouydesseau

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Em que situação se encontra a Alemanha depois dos acontecimentos de Chemnitz? Respostas com M. Pouydesseau

Publicado por L’arène nue em 10 de outubro de 2018

Seleção de Júlio Mota e tradução de Francisco Tavares

 

Introdução

Eleições em Espanha, a extrema-direita entrou no parlamento da Andaluzia. A França esteve a caminho de se tornar ingovernável e a perspetivar-se uma subida em flecha de Marine Le Pen sem que se saiba bem contra quem será então opositora. Um governo de direita dura na Bélgica, Grande parte do centro esquerda trabalhista a querer destituir Corbyn e para isso não são de excluir alianças explícitas ou implícitas com os conservadores. Grande parte dos países de Leste com governos populistas de direita. Com a Europa ainda não recuperada dos efeitos da profunda recessão de que ainda nem sequer saiu, com Bruxelas a exigir mais austeridade aqui, em Portugal, e na Itália, no fundo com a fascização em crescendo da Europa, vale a pena olhar para dentro do país que comanda esta Europa nessa trajetória, ou seja, para a Alemanha. E nesse sentido aqui vos deixo nas mãos ou sob os olhos um texto de qualidade sobre a questão, intitulado “Alemanha, passado e presente – Em que situação se encontra a Alemanha depois dos acontecimentos de Chemnitz?”.

Reafirmo aqui as palavras do filósofo francês, Dennis Collin quando diz:

“Nós expulsamos as fobias. Mas há uma que se está a portar bem, que nos resiste, é a demofobia, o medo do povo, o medo da palavra que vem de baixo e que todas os políticos se recusam a ouvir. É hora de destapar os ouvidos e ouvir o clamor das populações que se sentem cada vez mais precarizadas.”

Júlio Marques Mota

Coimbra, em 5 de dezembro de 2018

 

merkel

Mathieu Pouydesseau vive e trabalha na Alemanha desde há 18 anos e espera obter proximamente a nacionalidade alemã. É diplomado em História pelo IEP de Bordéus, e trabalha em informática. Há muito federalista europeu, houve um período que esteve no Conselho nacional do Partido socialista francês, e atualmente está envolvido no SPD alemão. Ele exprime-se aqui enquanto observador da Alemanha que ao mesmo tempo conhece o tecido económico e as estruturas políticas do país.

***

Na Alemanha, em Chemnitz e depois na pequena cidade de Köthen, produziram-se uma série de manifestações de extrema-direita no seguimento do assassinato de um homem jovem imputado a migrantes. O que se passa para lá do Reno? Pode a situação ficar fora de controlo?

É necessário relembrar que quando se devolveu a soberania à Alemanha depois da guerra, isso foi feito com muitas precauções. Tanto na RFA como na RDA ficou estabelecido na Constituição a obrigatoriedade de combater as ideologias da extrema-direita. Sempre que a extrema-direita dava sinais de ressurgimento as chancelarias reagiam. Em meados dos anos 1980, os «Republicanos» (Die Republikaner), liderados por um antigo Waffen SS, ganharam assentos em parlamentos regionais do lado ocidental. Os outros países lançaram olhares fulminantes, ameaçando a Alemanha de que não seriam complacentes com algumas das suas reivindicações na Europa se ela não controlasse o problema. Durante o processo de reunificação, foram mostrados igualmente olhares de reprovação quando distúrbios resultaram na morte de migrantes na ex-RDA, em Rostock por exemplo.

Mas depois da criação do mercado comum, e a seguir do mercado único e da moeda comum, foi progressivamente feita a opção de deixar de vigiar a Alemanha. Na Alemanha, o trabalho sobre a memória não impediu, segundo o fascinante trabalho de Harald Welzer, que se ilibasse «o papá que não era nazi». Em França, entre 2000 e 2015, qualquer menção do ressurgimento da extrema-direita alemã era rejeitada como sendo « germanofobia » ou então relativizada por comparação com os resultados da extrema-direita francesa. Nos nossos dois países, houve um processo de dissociação da Alemanha da guerra da Alemanha atual.

Contudo, eram visíveis os sinais de um tsunami em formação. Na década 2002-2012, o NPD teve êxitos eleitorais sendo abertamente simpatizante do neonazismo. Um processo de interdição fracassou devido a imbricação dos serviços secretos alemães na direção era tal que era impossível determinar se os atos ilegais imputados vinham do NPD, ou eram provocados pelos agentes infiltrados dos serviços secretos, colocados ao nível da direção nacional do NPD.

Estes êxitos do NPD coincidem com dois outros acontecimentos. Em 2006, é o Mundial de futebol na Alemanha, onde os alemães das gerações sem ligação direta à época 1933-1945, descobrem a alegria de festejar a sua equipa nacional, a sua bandeira, o seu orgulho inocente de serem alemães. Nesse mesmo ano, a imprensa interroga-se sobre uma misteriosa « enfermeira fantasma » assassina pertencente à mafia turca, que teria assassinado uma meia dúzia de pequenos comerciantes de origem turca e grega, e colocado uma bomba num bairro de imigração de Colónia, provocando 200 feridos. Não é senão em novembro de 2011 que se descobre que estes assassinatos não estavam de modo nenhum ligados à « mafia turca », construção racista que apenas existia na mente dos inspetores alemães, mas sim a um grupo terrorista neonazi, a NSU, que filmava as suas ações e difundia esses videos de propaganda nas redes clandestinas da ’extrema direita alemã. Deste modo, foram assassinados nove migrantes e uma polícia. Desde a descoberta, fortuita, desta célula terrorista, os serviços secretos alemães começaram imediatamente … a destruição completa dos seus arquivos respeitantes aos membros deste grupo…

O ano de 2011 marca também um corte no registo dos atos de violência da extrema-direita na Alemanha. A partir dessa data, o número de atos de violência provocados pela extrema-direita irá dobrar todos os anos sob a indiferença geral, até chegar a mais de 2000 ações, ou seja, 10 vezes mais que a extrema-esquerda e 25 vezes mais que os islamistas, cada ano. No entanto, a mediatização é moderada. A atenção tanto dos políticos como dos serviços secretos incide sobre o islamismo e sobre a extrema-esquerda após as manifestações contra as reuniões do G8 em 2007 na região do Mecklembourg, e do G20 em 2017 em Hamburgo. Ao mesmo tempo, a atração eleitoral pela extrema-direita cresce segundo um modelo muito simples: inicialmente, o eleitor perde a confiança nas instituições democráticas e passa por uma fase apática de abstenção. Depois, em determinadas regiões, um partido alibi serve para romper as resistências profundas no comportamento eleitoral. É deste modo que o ovni político de um partido pirata se torna o receptáculo de um impulso populista não cristalizado, obtendo resultados entre 6 e 15% dos votos e entrando em 9 parlamentos regionais. Por todo o lado onde os Piratas são fortes – e isso é observável até ao nível dos locais de voto – o NPD é fraco. Mas os Piratas foram um sucesso passageiro e existiram apenas entre 2011 e 2013.

A partir de 2013, um novo partido na Alemanha está pronto para recolher as brasas destes agregados familiares, o AfD, que, de partido elitista anti-euro, se transforma pouco a pouco numa síntese alemã do UKIP britânico, da FN e da Liga italiana. Hoje, as sondagens dão o AfD em igualdade com o SPD em 17%, e dirigentes da direita parlamentar falam de alianças com o AfD.

Os tumultos de Chemnitz não aparecem, pois, do nada, como um relâmpago em céu limpo. Eles instrumentalizam a questão dos refugiados, que se tornou crítica na opinião pública alemã depois de setembro de 2015, mas a génese é antiga. Além disso, o quadro téorico e ideológico de um partido islamofóbico como o Pegida, foi formulado desde 2008 por … um antigo dirigente do SPD, Thilo Sarrazin, antigo responsável das finanças da cidade de Berlim, e depois membro da direção do Bundesbank, desde a publicação do seu livro «A Alemanha autodissolve-se », seguido por um livro cada 18 meses.

Os tumultos de Chemnitz foram extremamente bem preparados. Já em 2017, o mundo fascista da Saxónia tinha posto a correr rumores de agressões a mulheres alemãs por migrantes à margem das festas populares da cidade mas a campanha não pegou. Na preparação das festas de Chemnitz de 2018, as associações de luta contra o racismo previam uma nova ação das redes clandestinas da extrema-direita, sem que, no entanto, pudessem prever o incidente dramático que esteve na sua origem – numa rixa às 3h da madrugada um refugiado mata com uma facada um germano-cubano – nem a sua exploração política. Posteriormente, o procurador federal da Alemanha anunciou, no final de setembro, o desmantelamento de uma célula terrorista neonazi que planificava o assassinato de refugiados e de eleitos de esquerda. Este grupo utilizou as manifestações de Chemnitz para testar o seu modo de operar visando eliminar e assassinar refugiados. Foi desmantelado quando procurava armas para passar aos assassinatos.

Não nos iludamos: a rejeição do islão pelo Pegida serve de cobertura para o ressurgimento de ideologias muito alemãs. Em Chemnitz, um restaurante kosher de nome hebraico foi devastado por uma multidão gritando « Judensau raus » – (porcos judeus, fora). Em Dortmund, em dois desfiles neonazis, um dos slogans era « quem ama a Alemanha é anti-semita ». Como se vê, não há ambiguidade nem rodeios com uma retórica anti-Israel. É antisemitismo puro, reciclando as próprias palavras do nazismo.

Um último grupo do infelizmente muito importante mundo fascista alemão merece ser mencionado: são os « Reichsbürger » ou « Cidadãos do Império ». Eles recusam qualquer legitimidade institucional à República federal, considerando que o Império não foi dissolvido de maneira legal em 1918. Eles fabricam a sua própria moeda, ostentam a sua bandeira, recusam pagar impostos ou reconhecer a autoridade legítima da polícia. Isto poderá parecer folclórico mas eles estão armados e assassinaram diversos polícias nestes últimos anos, e a última estimativa publicada quanto ao seu número era de … 50 000.

A Europa decidiu conscientemente fechar os olhos e confiar na Alemanha para sufocar estes velhos demónios. Ela está errada: a Alemanha deve ser vigiada e relembrada quanto aos seus particulares deveres. Infelizmente, a ideologia da « Europa, fonte de paz », infundada, está construída sobre a ideia de uma Alemanha enfim democrática e apaziguada no coração da Europa. Quando se denuncia a sua extrema-direita é-se suspeito de «germanofobia». Isso está errado. É isto que explica o efeito de surpresa e de sideração em França. Mas o fenómeno da ascensão destas novas extrema-direitas era visível e previsível. Aliás, ao meu humilde nível, anunciei-o e denunciei-o já há dez anos.

Agora, esses movimentos são suscetíveis de derrubar a ordem constitucional alemã? Não. Ainda não. Mas a Alemanha não conseguirá escapar disso sozinha, e deve compreender que é importante para os seus parceiros que por fim faça algo.

Köthen situa-se no Land da Alta Saxónia e Chemnitz na Saxónia. A Saxónia é também a região onde nasceu o movimento Pegida, e a ex Alemanha de Leste é o local onde o partido parti AfD obtém os seus melhores resultados eleitorais. A Reunificação alemã estará ela inacabada, como diz o sociólogo italiano Vladimiro Giacche?

Quando cheguei à Alemanha, o primeiro livro autografado que me foi oferecido era uma coletânea de artigos e discursos de Wolfgang Thierse, antigo fundador do SPD de Este, depois presidente do Bundestag entre 1998 e 2005. Este livro intitula-se « Ter a sua própria voz » e descreve o processo extremamente violento e traumatizante de uma reunificação vivida como se fosse uma colonização da parte do lado ocidental. Alguns falam mesmo hoje de uma « anexação », e se a palavra parece exagerada de jure, ela descreve, no entanto, o ressentimento de numerosos alemães de Leste. Além disso, esta dor permanece um tema de atualidade, que, por ocasião da festa da Reunificação deste ano, encontrou mesmo caminho nos discursos dos políticos conservadores do Oeste.

Nos meses que precederam a Reunificação, Helmut Kohl pronunciou uma frase fundamental: ele prometeu à RDA, que realizava as suas primeiras eleições livres, « paisagens florescentes » e uma prosperidade sem igual. Vinte oito anos depois, a realidade é bem diferente. Cerca de três milhões de alemães de Leste emigraram para o lado ocidental, esvaziando os campos e as cidades médias. As regiões mais pobres da Alemanha, as que têm salários mais baixos encontram-se a Este. O número de agregados familiares dependentes do mínimo social chamado « Harz 4 » é duas vezes maior que na Baviera. O centro de cidades dinâmicas do Leste – Dresden, Leipzig, Iena – vêem chegar numerosos quadros do Oeste que compram bens imobiliários a bom preço e trabalham durante a semana em Berlim, Nuremberga ou Munique.

No entanto, se o AfD obtém 22% na Saxónia, consegue também este resultado em determinados locais do Oeste, por exemplo na Renânia, em determinadas cidades outrora bastião do SPD. Se os tumultos na Saxónia alimentaram as manchetes, dois cortejos de néonazis gritando « quem ama a Alemanha é antisemita » puderam desfilar no mesmo dia em Dortmund com uma polícia superada e incapaz de pôr fim a esta alteração da ordem pública. Está em parte ligado à crise social, que atinge também o Oeste. Há muitas contradições numa sociedade que se gaba do seu crescimento, do seu equilíbrio orçamental, do seu pleno emprego, dos seus excedentes comerciais, mas que não consegue explicar a 40% da sua população por que razão o seu poder de compra é inferior ao que era em 1996, por que razão 17% dos alemães vivem abaixo do limiar da pobreza, por que razão as desigualdades de património se encontram ao nível de … 1910.

Estas fraturas, com 40% das pessoas que sofrem, 30% que beneficiam e 30% que receiam vir a sofrer ao mesmo tempo que sonham com beneficiar, explicam aliás o voto das legislativas de setembro de 2017, que foi, como demonstram todas as análises por categoria profissional ou por nível de rendimento, um voto de classes. Os 40% que sofrem votaram maioritariamente no Die Linke ou na AfD, os 30% que estão bem votaram Liberais e Verdes, e os 30% de inquietos, dos quais muitos são reformados, CDU e SPD.

Aquilo que é verdadeiramente inquietante, é a perda de confiança na ordem democrática como ordem que garante a prosperidade da maioria, e o malogro tanto da economia social de mercado dos conservadores, como da social-democracia de mercado do SPD.

 

Parece que a situação escapa pouco a pouco a uma Angela Merkel cada vez mais fragilizada. Será possível que a chanceler não termine o seu mandato? O que poderá vir depois?

Apostei em fevereiro de 2018 que Merkel deixaria de ser chanceler em finais de outubro, após as eleições regionais da Baviera. Está mais perto disso, e ela já quase caiu por duas vezes, em junho e em setembro, depois de ter tido necessidade de seis meses para formar governo após as eleições de setembro de 2017.

É aqui que o conceito de « Weimarização » da vida política europeia que venho a desenvolver desde há cinco anos encontra a sua confirmação. A « Grande coligação » não representa mais do que 56% dos eleitores. Ela representava 70% há onze anos atrás. Nas recentes sondagens, não atingiria mesmo uma maioria parlamentar, situando-se em 44%. Se o SPD ter atingido um limite mínimo de 16%, a direita – constituida por dois partidos, a CDU de Merkel e a CSU na Baviera – regista novo colapso e regista o seu pior resultado numa sondagem desde … 1949 : 27% das intenções de voto.

Merkel vê igualmente a sua popularidade afundar-se. Os observadores constatam, além disso, a sua impotência crescente no próprio seio do seu gabinete, da sua própria maioria. Na semana passada, o grupo parlamentar CDU-CSU devia eleger o presidente do seu grupo. O homem de confiança de Merkel, que ocupava a função desde há treze anos, foi vencido por um deputado quase desconhecido e que não tinha nenhum apoio importante na hierarquia dos dois partidos. A candidatura « de testemunho » de Brinkhaus juntou mais de trinta deputados mais que a do homem de Merkel. Ela não tem sequer maioria no seio do seu grupo. Paradoxalmente, atualmente, o grupo parlamentar mais preocupado em fazer durar a chanceler é … o SPD !

Tudo isto acontece após duas crises iniciadas pelo ministro do Interior, Horst Seehofer, que é também o presidente da CSU da Baviera. As duas crises tiveram por pano de fundo a política migratória, nomeadamente a gestão da abertura irresponsável das fronteiras, porque completamente improvisada, em setembro de 2015. Desde esta data, Seehofer está continuamente em oposição à chanceler. Em março de 2018, ela aceitou que ele faça parte do gabinete da nova Grande coligação, esperando assim controlá-lo. Foi o inverso aquilo que aconteceu: ele mina tanto quanto pode a autoridade da chanceler.

Em 14 de outubro terão lugar as eleições regionais na Baviera. A CSU poderá perder a sua maioria absoluta, tendo de se aliar a um inimigo – ideológico e de classe-, os ecologistas, que se situam em 18% [1]. A CSU já deixou entender aquilo a que ela imputará o motivo de um eventual desastre: a política nacional. Merkel tentará sem dúvida fazer saltar o fusível Seehofer, mas é provável que a ala conservadora da CDU, liderada pelo ministro da Saúde Jens Spahn, lance uma ofensiva com a CSU contra a chanceler.

Em 28 de outubro, a região do Hesse, um bastião da CDU, terá a sua votação. O presidente cessante, o muito conservador Bouffier, gere com … os Verdes. Em caso de derrota (também aqui as sondagens não são favoráveis [2]) ele poderia, dada a sua idade, servir de chanceler de substituição e transição. Isso deixaria o espaço de tempo para escolher o momento de voltar a eleições e com que líder de direita de longo prazo. Com efeito, uma eventual queda de Merkel não significa forçosamente novas eleições pois existem outras opções institucionais. Em 1982, quando Helmut Schmidt perdeu um voto de confiança no seguimento da passagem à oposição do seu parceiro de coligação, Helmut Kohl tornou-se, por exemplo, chanceler sem eleições. Wolfgang Schauble, hoje presidente do Bundestag, invocou também a possibilidade de um governo minoritário no caso de o SPD deixar a coligação. De qualquer modo, Merkel compreendeu que a batalha de sucessão ocupa toda a gente do seu campo. Ela espera ainda poder ela própria a sucessão. Ela entronizou, nomeadamente, uma possível defim (Annette Kramp-Karrenbauer, conhecida como AKK, antiga presidente da região do Sarre e secretária geral da CDU), e quer apresentar-se em dezembro à presidência da CDU sem dúvida para controlar o ritmo do seu próprio afastamento. No entanto, a ala direita do seu partido já lhe pediu que não se apresente….

Uma das consequências de tudo isto, é que desde setembro de 2017, a Alemanha está ocupada com o seu próprio umbigo. Qualquer iniciativa francesa para relançar «o motor franco-alemão» na Europa é assim como querer andar de bicicleta em tandem com um inválido. A posição francesa testemunha, além disso, um profundo desconhecimento da Alemanha, que não está em condições nem deseja ir mais longe na via da integração europeia.

 

A imprensa francesa aplica-se a descrever a fundação de uma nova esquerda que qualifica de «anti-migrantes». O seu chefe-de-fila seria a deputada Sahra Wagenknecht, que acaba de fundar « Aufstehen » . Que vous parece ?

É propaganda pura e simples, que visa limitar a paisagem política europeia a unicamente duas forças antagonistas: de um lado um populismo nacionalista e xenófobo ligando a crítica social a um discurso de bode expiatório, e de outro lado um neoliberalismo descomplexado exprimindo os interesses de classes superiores desejosas de assumir sem entraves a sua dominação económica, cultural e social, em detrimento dos outros grupos sociais e económicos em nome da sua superioridade moral. Pretende-se eliminar a existência de uma terceira opção: uma esquerda radical renovando a sua crítica do capitalismo financeiro e dos excessos do neoliberalismo europeu à luz dos desenvolvimentos das duas últimas décadas.

A biografia de Sahra Wagenknecht torna pouco credível que ela seja « anti-migrantes », uma vez que ela é binacional (alemã e iraniana). Para além disso, o texto do seu movimento quase que não fala de migração. E quando o faz, eis palavra a palavra o que é proposto: « Ajuda às pessoas em necessidade: garantir o direito de asilo às pessoas perseguidas, parar as exportações de armas para as zonas de tensão e acabar com as práticas comerciais desleais, ajudar os refugiados de guerra e climáticos, lutar no terreno contra a pobreza, a fome e a miséria e criar perspetivas nos países de origem ». O que o movimento Aufstehen põe bem em causa, em contrapartida, são os mecanismos de concorrência salarial no seio da União Europeia, em que um dos instrumentos é a livre circulação de pessoas num espaço de sub-investimento dramático e de desemprego massivo.

Aufstehen é um perigo evidente para as outras formações políticas. Com efeito, 35% dos alemães estão interessados neste movimento segundo uma sondagem da revista Focus de agosto de 2018. Além disso, o movimento reivindica que já tem mais de 150 000 inscritos na sua plataforma em apenas um mês de existência. O nível de calúnias irá, por conseguinte, aumentar à medida que o movimento aumente a sua força.

 

 Notas

[1] N.T. Efetivamente, a CSU, com 37,2%, perdeu a maioria absoluta na Baviera, descendo mais de 12%. A extrema-direita AfD obteve 10,2% e os Eleitores Livres da direita liberal 11% Os Verdes (17,5%) beneficiaram da queda do SPD passando a segundo maior partido.

[2] N.T. A CDU de Merkel ganhou as eleições (28% dos votos; em 2013 tinha obtido 38,3%), mas com o pior resultado em mais de 50 anos. O SPD desceu de 30,7% para 20%. A AfD obteve 12%, entrando pela primeira vez na assembleia regional.

 

 

 

 

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