CARTA DE BRAGA – “da linguagem e do fazer”- por António Oliveira

Gadamer um dos grandes filósofos europeus do século XX, afirmava frequentemente que ‘tudo o que se pode compreender é linguagem

Linguagem como consequência da introdução do homem na língua, através de um conjunto de rituais mais além da semântica que, por isso mesmo e de todos as maneiras, contribuem para a formação do ‘modo de ser e estar’ de cada um, quando integrado numa comunidade.

Comunidade que particularizando, indicando e identificando, lhe permite o relacionamento e, acima de tudo, a ‘(en)formação’ como sujeito singular que, à semelhança dos outros, o leva a estabelecer analogias consigo próprio, com os seus semelhantes e com o mundo em volta.

Só assim se pode entender a ‘(en)formação’ do indivíduo porque, ao assumir-se como ‘eu’, está a partilhar com o ‘tu’ e com o grupo, a rede de significantes e significados comuns, donde se pode concluir que a fala não é só de um, mas de todos os que a dizem (a comunidade), por ser património cultural comum.

Vem isto a propósito de um trabalho de investigação do psicólogo e professor Pärnamet para a New York Unicersity, onde se demonstra como as preocupações colectivas – identidade do grupo, valores morais e crenças políticas – alteram a nossa percepção e avaliação do que acontece no mundo onde vivemos.

E o que parecia ser só mais um daqueles trabalhos de investigação de alcance reduzido, ganha uma importância maior ao provar que as visões ideológicas do mundo estão a retroceder frente às morais, mesmo em casos polémicos e com interesse universal, como o controlo das armas ou a gravíssima alteração climática.

Mais salienta o estudo, que a bolha do algoritmo, pelo inerente efeito eco normalizador, acentua o protagonismo dos argumentos morais e emocionais perante os ideológicos e racionais e até já levou alguém a afirmar ‘os cruzados estão a ganhar terreno aos activistas

As consequências desta nova realidade parecem justificar uma afirmação antiga de Marcel Proust, ‘os factos não penetram no mundo em que vivem as nossas crenças e, como não as fizeram nascer, também não as destroem; podem desmenti-las constantemente sem as debilitar e nem um aluvião de desgraças ou doenças, sucedendo-se ininterruptamente numa família, a fará duvidar da generosidade de seu Deus ou do talento de seu médico

Proust é um fulano que escreveu o imortal “Em busca do tempo perdido”, mas nunca jogou futebol nem protagonizou qualquer telenovela.

Esta adenda talvez seja útil nestes tempos, por ser visível a cada vez maior dificuldade dos jovens em entender o mundo e se entenderem a si próprios, bem patente na dificuldade em conseguirem expor pensamentos mais extensos que os títulos que possam encaixar nos tamanhos dos ecrãs usados em permanência.

E a importância das conclusões daquele estudo até pode ser assustadora, se lembrarmos que as coisas fisicamente inatingíveis como nacionalismos, crenças e moralidades, são as que estão na origem das guerras e ódios mais bárbaros e sangrentos.

As mesmas coisas que fazem as headlines dos jornais principais em todo o mundo!

É também confrangedor constatar como quase se esquece a educação linguística, pelo destaque atribuído a inovações que não apresentam qualquer explicação fundamentada do ser humano, por muita contestação que esta afirmação possa provocar.

O destaque e o relevo vai todo para ‘o teclar do fazer’, dispensando ou omitindo ‘o porquê do fazer’!

E por não querer dispensar nem omitir, aqui vão os votos sinceros de Festas Felizes a quem tem a bondade de editar e de ler estas Cartas!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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