A responsabilidade da esquerda na trajetória de ascensão do neoliberalismo – algumas grelhas de leitura – 2. A leitura de Peter Dorman: “É a Economia Política, estúpido!” e “O neoliberalismo como estrutura e ideologia”

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Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

2. A leitura de Peter Dorman: “É a Economia Política, estúpido!” e “O neoliberalismo como estrutura e ideologia”.

A – É a Economia Política, estúpido!

Peter Dorman econospeak Por Peter Dorman

Publicado por econospeak, em 11 de agosto de 2011

Às vezes, viver no mundo das ideias dificulta a compreensão do mundo real. Se o leitor é um economista, e o tempo é agora, isso é inteiramente verdade. Veja Paul Krugman, por exemplo. Depois de lamentar as terríveis escolhas políticas dos últimos dois anos, ele escreve: “Ainda estou a tentar compreender esse fracasso intelectual global“. É como se o problema central tenha sido o dos dirigentes políticos não terem aprendido suficientemente a macroeconomia adequada à situação atual.

Mas Keynes estava errado sobre o poder dos “escrevinhadores académicos”. Os idealistas (Idea-smiths) fornecem linguagem, narrativas e ferramentas para aqueles que estão no controle, mas os amplos contornos da política dependem de quem são os controladores. Não estamos a viver uma época de fracasso intelectual, mas sim uma época em que não há nenhum mecanismo disponível para expulsar uma elite político-económica cujos interesses se tornaram incompatíveis com os nossos.

Isto não é um desenvolvimento repentino, muito menos um golpe de Estado, como por vezes se afirma. Não, o aumento do poder pelos rentistas tem sido sistemático, estrutural e o resultado de um processo de décadas. Este poder está profundamente enraizado nas economias capitalistas modernas devido à transformação das empresas em carteiras de ativos negociáveis e recombináveis, à crescente concentração e aos rendimentos de propriedade, assim como ao fracasso da regulação em acompanhar o ritmo da tecnologia e da escala das transações. Aqueles que se sentam no pináculo da riqueza, na sua maioria, já não pensam mais na produção, nem se preocupam muito com quem serão os consumidores finais; eles tomam posições financeiras e exigem políticas que garantam que essas posições sejam lucrativas.

A rápida e robusta recuperação global dos lucros após 2008 não foi um acidente. Os fundos públicos foram utilizados para salvar os credores expostos ao risco e reforçar o valor dos seus ativos, enquanto a crise foi utilizada para suprimir salários e adiar uma reforma regulamentar significativa. Com efeito, posso prever, com alguma confiança, que muitos dos lucros, particularmente no sector financeiro, que foram apresentados em documentos oficiais e abençoados pelas empresas de contabilidade verificar-se-á mais tarde que eram ilusórios – mas nunca antes de aqueles que têm créditos sobre as receitas terem obtido as suas vantagens pessoais. As instituições serão dizimadas, mas aqueles que as possuem, as emprestaram ou apostaram nelas terão ficado ricos. Isto não é um fracasso, pelo menos não para eles.

O leitor poderia argumentar que, coletivamente, os interesses dos financeiramente dotados, em última análise, requerem um resgate da economia global real e não financeira. Certamente, quando fazemos o nosso doloroso mergulho na segunda quebra da Grande Recessão, a sua riqueza estará em risco. Mas a capacidade de vê-la a nível do sistema pressupõe uma organização da classe ao mesmo nível ou a existência de interesses individuais que sejam sistémicos de forma transparente. Nem parece ser o caso hoje em dia. Do que nós (o leitor e eu) podemos ver a partir do nosso superior ponto de observação, é que as exigências dominantes são as de garantir que os títulos deem resultados, que os meus contrapartes financeiros paguem o que devem, que os mercados em que invisto permaneçam líquidos e que sejam cortadas as despesas públicas com o bem-estar social (ou seja, com os falhados e com os burlões que vivem à conta do estado).

O primeiro princípio da economia política é que o alcance da democracia depende da variedade de pontos de vista e de interesses (tipicamente estreitamente ligados) da classe dos detentores e controladores da riqueza. O debate público genuíno e a tomada de decisões estendem-se apenas àquelas questões sobre as quais as elites estão divididas. Em que país existe hoje uma divisão significativa entre as elites político-económicas sobre as questões económicas centrais? Como seria diferente a nossa situação se Obama, Cameron, Merkel, Sarkozy e outros estivessem do lado dos perdedores aquando das suas eleições?

Assim, a atual confusão não é o resultado de um fracasso dos intelectuais – embora um pensamento mais claro e menos ideologicamente orientado pelos economistas seria certamente uma coisa boa e poderia fazer uma pequena mossa, mesmo que marginal. Enquanto houver mesmo que uns poucos economistas que proclamem as virtudes da austeridade e da desregulamentação, os seus pontos de vista serão dominantes. Eles não ganharam uma batalha de ideias; eles são simplesmente aqueles que receberam o microfone.

O verdadeiro problema é político, e é profundo. A não ser que possamos destituir a classe que vê o mundo apenas através das suas carteiras de títulos, eles podem muito bem levar-nos até ao fundo. Infelizmente, ninguém parece ter a menor ideia de como é que uma tal revolução possa ser engendrada numa economia moderna, complexa e transnacional.

It’s the Political Economy, Stupid! https://econospeak.blogspot.com/2011/08/its-political-economy-stupid.html

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B – O neoliberalismo como estrutura e ideologia

Peter Dorman econospeak Por Peter Dorman

Publicado por econospeak em 16/12/2018 e por naked capitalism Yves smith de Yves Smith, em 29/12/2018

Aqui Yves, de Naked Capitalism. Embora Dorman nos ofereça uma teoria interessante sobre como o neoliberalismo ganhou força, penso que ela não explica tanto quanto ele próprio pensa que explica. A sua análise não reconhece que estava a ser feito um esforço bem estruturado e financiado para virar o país à direita bem antes da grave recessão de meados da década de 1970. Os principais atores eram extremistas da extrema-direita, muitos deles membros da Sociedade John Birch, como Adolph Coors e os Kochs. Eles queriam reverter o New Deal e estavam alarmados pelo que viam estar a acontecer, como a diabolização do comércio na década de 1960 e o estabelecimento de mais programas sociais na Guerra de Johnson contra a Pobreza. O seu documento chave, o Powell Memo, que expõe a visão e a estratégia para uma campanha de duração indeterminada, sustentada pelas empresas, para tornar os valores do país mais amigáveis para com os negócios, foi publicado em 1971, antes da crise da década de 1970.

O texto que se segue tem como autor Peter Dorman, economista e professor no Evergreen State College, cujos textos e prática de militante se centram sobre a política de carbono, o trabalho infantil e a crise financeira global. Publicado originalmente em EconoSpeak.

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Como alguém que tem olhado para o mundo através de um prisma económico e político durante décadas, estou inquieto com a “viragem cultural”. Era uma vez, diz-se, os maus e velhos vulgarizadores da esquerda que acreditavam que a estrutura económica – a propriedade do capital, as regras sob as quais as economias operam e os incentivos que essas coisas geram – era tudo e que as instituições representativas, ou seja, a cultura e a consciência não eram nada. Por vezes, defendia-se mesmo que a cultura e a consciência eram derivadas da forma.

Então tivemos uma viragem cultural. Agora parece que é tudo sobre consciência e ideologia, das quais as estruturas económicas são um simples e pálido reflexo. Diz-se que a ideologia neoliberal se infiltrou na cabeça dos intelectuais, jornalistas e políticos – talvez até do público em geral – e isso explicaria coisas como a desregulamentação, as privatizações e a omnipresença da terceirização e externalização (incluindo deslocalização de indústrias de bens e serviços) e das cadeias de valor globais. É até possível ter tratados de 500 páginas sobre os fracassos do capitalismo que não fazem qualquer referência à estrutura empírica da economia, apenas aos modos de pensamento, como assinalo aqui neste texto.

Segundo esta visão, as várias falhas da nossa sociedade, desde a incapacidade de agir sobre a mudança climática até ao encarceramento em massa e a imposição da lógica de mercado na educação superior, convergem como consequências da hegemonia neoliberal.  Mas o que é o neoliberalismo? Este é geralmente descrito como uma filosofia, nascida em algum momento entre a queda dos Habsburgos (Slobodian) e o encontro organizado pela Sociedade Mont Pèlerin no pós-guerra (Mirowski et al.), e certamente há verdade nesses relatos bem documentados. Mas será que devemos entender as últimas quatro décadas desta forma apenas, como sendo primordialmente o produto de uma mudança radical de pensamento, o resultado final dessas correntes precursoras?

A posição que gostaria de tomar vai para além da oposição entre estrutura e representação, entre a economia empírica e as conceções que as pessoas têm dela.  Não há dúvida de que as regras e incentivos que regem a vida económica são o produto da escolha e, por conseguinte, da consciência, tal como a consciência é fortemente influenciada pelos problemas que as nossas circunstâncias económicas nos colocam e pelas possíveis soluções que elas nos permitem encontrar.  Não deveria haver um processo coevolucionário algures, subjacente a tudo isto, que englobe os dois planos?

Identificar tais processos é tarefa dos historiadores e, como sabemos, compreender o presente como história sem o benefício da retrospetiva é um enorme desafio.  No meu mundo preferido, este seria o projeto de economistas políticos, de exércitos gigantescos deles, adequadamente encorajados e financiados. Veríamos um fluxo constante de livros e artigos sobre o assunto, com pontos de debate. O mundo real é muito diferente, infelizmente.

Aqui está uma ideia que pretende provocar a investigação nesta área. Como é que entendemos o momento da viragem neoliberal? No mundo anglo-saxónico, esta viragem verificou-se alguns anos antes ou depois de 1980, um pouco mais tarde noutros lugares. O que é que aconteceu para a explicar?

Uma narrativa padrão é que a ordem keynesiana do pós-guerra se quebrou por causa da crise da inflação em meados da década de 1970. Uma alternativa conservadora que confiava mais nos mercados e menos no governo foi então justificada pelos acontecimentos e estabeleceu a partir daí o seu domínio intelectual. Depois de um intervalo de alguns anos, a política conservadora seguiu em frente e foi implementada. Pode-se criticar isso em detalhes: o crescimento económico permaneceu mais forte durante os anos 70 do que seria depois disso, os antikeynesianos não tinham uma compreensão superior sobre o desenvolvimento económico, e nenhuma revolução intelectual estava completa no espaço de apenas alguns anos. Mas o problema mais profundo, parece-me, é que se atribui uma função institucional amplamente exagerada a grupos de intelectuais. Será que realmente pensamos que as eleições de Reagan e Thatcher, por exemplo, são atribuíveis a uma mudança nos programas de estudo de mestrados e doutoramentos em economia e áreas afins?

Proponho uma hipótese alternativa. Desde o fim da Segunda Guerra Mundial até ao colapso do sistema monetário de Bretton Woods, grande parte do capital era ilíquido, o seu valor estava estreitamente ligado à sua utilização material no processo de produção e comercialização de bens e serviços. Os ricos buscavam diversificar as suas carteiras, é claro, mas havia limites. As transações na bolsa de valores faziam-se acompanhar de grandes custos de informação, e a participação dos acionistas tendia a ser mais estável e concentrada. As fortunas estavam enraizadas em empresas e indústrias específicas. Numa tal situação, havia divisões significativas dentro da classe capitalista que atenuavam a sua influência política geral. As indústrias estavam divididas de acordo com as preferências políticas e os partidos políticos, que eram essencialmente coligações de grupos de interesses, e atraíram diferentes segmentos desta classe. (Nos EUA, os republicanos eram tanto uma coligação de grupos de interesses quanto o eram os democratas, tratando-se apenas de interesses diferentes, como pequenos negócios de retalho, pequena exploração mineira, indústria manufatureira não sindicalizada, etc.). A política pública nesta distribuição, qualquer que fosse a sua aparente justificação, refletia a divisão da influência setorial.

Desde o início dos anos 70 que a propriedade do capital se tornou substancialmente mais fungível em todos os seus aspetos. Os fundos de ações de vários tipos estabeleceram-se como atores institucionais, permitindo que os capitalistas individuais se diversifiquem através do investimento nesses fundos. As restrições regulamentares aos movimentos de capitais foram desmanteladas ou contornadas. As novas tecnologias de informação reduziram drasticamente (mas não eliminaram!) a névoa que paira sobre todos os mercados financeiros. E as empresas tornaram-se elas próprias pacotes de ativos separáveis, uma vez que as novas tecnologias e os novos métodos de negócios permitiram uma produção mais integrada em todas as linhas de propriedade do capital. O resultado combinado é uma classe capitalista com interesses mais uniformes – o interesse numa maior participação dos lucros na repartição do rendimento criado e numa maior liberdade para o capital em todos os aspetos. A crise nas taxas de rentabilidade real do capital durante a década de 1970, o verdadeiro instigador económico, galvanizou essa reorganização da economia política. (Nos EUA, o S&P atingiu o pico em 1972 e depois perdeu quase metade do seu valor ajustado à inflação no final da década.  Isto não é um artefacto de tempo do ciclo de negócios.)

Naturalmente, toda a compreensão do mundo é mediada pela forma como pensamos sobre ele. Os ricos não disseram a si mesmos: “Caramba, os meus ativos estão a ser atacados e então é necessário que o governo mude de rumo”. Eles voltaram-se para pensadores dissidentes e conservadores que explicaram as “falhas” dos anos 70 como resultado de muito pouca preocupação com o motor do crescimento, que (é claro) foi entendido como sendo gerado pelo investimento privado.  Uma política favorável ao mercado, dizia-se, revigoraria o investimento e estimularia o crescimento económico.  O keynesianismo era então visto como um fracasso porque tomava os investidores como garantidos, tributando-os, regulando-os e competindo com eles nos mercados financeiros; os políticos precisavam de mostrar respeito pelos mercados.  É compreensível que os capitalistas interpretassem os seus problemas dessa forma.

O outro lado da moeda era a influência política sobre as ideias. Os intelectuais que avançaram com as posições que agora chamamos de neoliberais foram recompensados com financiamento para investigação, empregos e influência sobre as políticas governamentais. Quando o Banco Mundial e o FMI foram refeitos na esteira da crise da dívida de 1982, essa influência foi estendida internacionalmente. A condicionalidade dos empréstimos reproduziu nos países em desenvolvimento os mesmos incentivos que haviam mudado o ambiente intelectual no mundo capitalista central.

Esta hipótese – e é importante que fique claro que é isso – também nos dá uma explicação para a razão pela qual a crise de 2008, embora tenha provocado muita reconsideração pelos intelectuais – não tenha resultado em mudança institucional ou política significativa: os fatores políticos e económicos subjacentes mantiveram-se inalterados.  E isso implica que mais trabalho intelectual, por muito necessário que seja, não será suficiente para nos libertar dos grilhões das restrições políticas neoliberais. Para isso, precisamos de contestar o poder que as sustenta.

 

Texto disponível em http://econospeak.blogspot.com/2018/12/neoliberalism-as-structure-and-ideology.html

e disponível igualmente em https://www.nakedcapitalism.com/2018/12/neoliberalism-structure-ideology.html

 

O autor: Peter Dorman, doutorado em Economia pela Universidade de Massachusetts, é professor de Economia no Evergreen State College, em Olympia, estado de Washington, EUA. Campos de investigação e publicação: saúde pública, economia ecológica, análise custo-benefício, desenvolvimento, economia do trabalho, economia política internacional sistemas económicos comparados, concepção da investigação. Escreve regularmente em EconoSpeak. Livros de economia: Microeconomics: A Fresh Start e Macroeconomics: A Fresh Start, (Springer).

 

 

 

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