Venezuela a ser atacada: 7 notas sobre o apagão eléctrico. Por Misión Verdad

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Obrigado a Misión Verdad

Publicado por Mision Verdad, em 10 de março em 2019

Venezuela 20 7 notas

 

Entre a tarde de 8 de março e a madrugada de 10 de março, a Venezuela foi vítima de um novo ataque de sabotagem, o maior da história republicana do país, contra a central hidrelétrica Guri, que deixou pelo menos 80% da população sem eletricidade, com o objetivo de minar qualquer tentativa do governo venezuelano de estabilizar a economia e conter o quadro insurrecional que os Estados Unidos e os seus delfins como Juan Guaidó tentam culminar com sucesso no país.

 

1. A preparação do apagão. Previamente à sabotagem que abalou todo o Sistema Elétrico Nacional, deixando grande parte do país sem luz durante os últimos dois dias, vários movimentos e pronunciamentos indicavam com antecedência que recorreriam a uma ação de força bruta.

O regresso falsamente épico de Guaidó durou menos do que o esperado no cartaz. Com a chegada do “presidente interino” não houve deserções críticas na Fuerza Armada Nacional Bolivariana que misturadas com uma revolta social generalizada o instalaria em Miraflores para exercer o poder. Essa ronda de recuperação (a sua gloriosa chegada ao aeroporto internacional Maiquetía em Caracas), depois da derrota de 23 de fevereiro, o dia em que ele tomou como certa a entrada da “ajuda humanitária”, não teve nenhum efeito além do frenesi temporário dos meios de comunicação. Consequentemente, Guaidó voltou ao desconfortável ponto de partida de dois meses atrás. Desgastado pela derrota de 23 de fevereiro e sem ações concretas de comando presidencial que o catapultassem internamente, a orquestração das seguintes operações correria inteiramente por conta dos Estados Unidos.

Um excitado, como de costume, Marco Rubio, anunciou horas antes do apagão que “os venezuelanos experimentarão a mais grave escassez de alimentos e gasolina”, deixando transparecer que ele sabia que algum tipo de choque ocorreria nas próximas horas. Por sua vez, o governo russo emitiu uma declaração alertando que “os Estados Unidos estão a desenvolver um plano de apoio que tenta introduzir grupos armados ilegais treinados na Venezuela para realizar sabotagens e atividades subversivas”. A guerra suja em curso foi alertada por ambos os lados do conflito geopolítico sobre a Venezuela.

A profecia auto-cumprida de Rubio concretizou-se num apagão generalizado que teve um impacto ampliado na rede bancária, de telecomunicações e de serviços públicos vitais do país (hospitais, abastecimento de água, transporte, etc.), dificultando por muito tempo o seu funcionamento e paralisando as atividades rotineiras da população. Em suma, um ataque encoberto ao centro gravitacional do sistema elétrico venezuelano, planeado para agravar a agitação social e económica, reatar a narrativa da “crise humanitária” e “estado falido”, com a qual eles esperam reativar a desorientada liderança de Guaidó.

Mas esta tendência de recorrer a opções de guerra antipolíticas e não convencionais quando os recursos políticos não produzem resultados não é nova nem recente (basta lembrar os contínuos ataques elétricos quando as revoluções coloridas de 2014 e 2017 entraram em declínio). À sua maneira, Bloomberg sugeriu isto na sua última reportagem. O desgaste de Guaidó, a sua incapacidade de liderar um processo de transição mais ou menos sério, abre caminho para que ataques como o de Guri, a violência armada, irregular, a guerra de sabotagem ao estilo Contra na Nicarágua, se convertam em alternativas “legítimas” e “urgentes” para enfrentar o Chavismo. O delegado de Trump para a Venezuela, Elliott Abrams, pai da guerra mercenária contra a Nicarágua na década de 1980, tem amplo conhecimento dessas formas de guerra.

2. Embargo e sanções: as armas de destruição massiva. Às vulnerabilidades históricas de um sistema elétrico dependente da receita do petróleo, somou-se uma feroz política de sanções financeiras que tem reduzido a capacidade de investimento público em setores estratégicos do Estado. Estima-se em US$ 30 mil milhões o dinheiro venezuelano embargado pelos Estados Unidos, que, usando o “governo paralelo” de Guaidó como ferramenta, deixou o país sem recursos líquidos para atender às dificuldades estimuladas pelas sanções. Enquanto isso, Guaidó usa o dinheiro embargado, segundo ele, para cancelar opacamente alguns juros da dívida externa.

O sistema elétrico nacional tem sido atacado por uma mistura explosiva entre desinvestimento, promovido pelo bloqueio financeiro, perda de pessoal técnico especializado devido à depreciação salarial, e operações sistemáticas de sabotagem, as últimas sempre efetivadas quando a ofensiva política é recuperada pelo Chavismo. Chris Floyd, autor do livro The Empire Burlesque, tinha razão em designar as sanções financeiras como um “holocausto”: o uso dessa arma de destruição em massa em países como Iraque, Irão e Síria, mostra que o dano à infra-estrutura crítica é semelhante a uma intensa campanha de bombardeamentos com mísseis de cruzeiro.

Nesse sentido, o apagão é uma extensão do embargo contra a Venezuela, da política norte-americana de restringir importações, bloquear contas e obstruir o acesso a dinheiro líquido no mercado financeiro internacional e no seu próprio mercado de petróleo, proibindo o pagamento de exportações à Venezuela. O apagão é também uma metáfora do estado de sítio em que o país se mantém e como o bloqueio financeiro, que impede o uso do dinheiro para recuperar um sistema elétrico nacional já enfraquecido que sustenta a atividade económica e petrolífera do país, é um substituto das armas militares.

3. A modalidade do golpe cibernético e crime de lesa humanidade. Num primeiro momento, e assim Guaidó o faria saber com o seu apelo a uma “greve nacional” na terça-feira passada diante de alguns sindicatos da administração pública, uma ação de força precipitaria a paralisia anunciada. A modalidade de fabricação de uma situação de colapso, como quando a plataforma de pagamento Credicard, em 2016, anulou o seu sistema para interromper todas as atividades comerciais e económicas do país, desta vez foi executado ampliando o seu raio de afetação.

E é que a carga de stress e descontentamento que se procura induzir na população, como combustível para estimular uma situação de anarquia generalizada que poderia de alguma forma ser canalizada em protestos violentos em favor de Guaidó, indica que a estratégia do caos (através da sabotagem cibernética e artesanal focada em infra-estruturas crítica que fazem o país funcionar) é usada como uma ferramenta de choque massivo com o objetivo de desgastar a população. A operação não é apenas de guerra elétrica, pois suas consequências atingem todas as atividades rotineiras da sociedade venezuelana, à qual se obstaculiza o acesso à alimentação, ao serviço hospitalar e às comunicações básicas. Os surtos violentos que procuraram incendiar rapidamente se extinguiram em um clima de exaustão coletiva que aguardava a chegada da eletricidade.

Um crime de lesa humanidade, visto à luz do Estatuto de Roma e do direito internacional, ao mesmo tempo que procura a destruição física de um grupo populacional utilizando como armas de guerra os elementos básicos da sua subsistência.

Marco Rubio e Mike Pompeo reagiram brincando com o apagão, imprimindo-lhe uma carga de humilhação e sadismo que reflete com exatidão as motivações e a estratégia subjacente ao golpe contra a Venezuela: à medida que o “plano Guaidó” falha os seus objetivos de alcançar a fratura da FANB para depor Maduro, a população civil (sem discriminação ideológica) torna-se a primeira vítima das contínuas agressões militares encobertas lideradas pelos Estados Unidos.

Este golpe cibernético contra o sistema elétrico nacional implica uma agressão militar de facto, uma extensão da que ocorreu na fronteira colombiano-venezuelana em 23 de fevereiro.

4. Não é um fim em si mesmo: condições para uma guerra irregular. Desde a chegada de Guaidó, a sua projeção mediática tornou-se marginal. Esta redução premeditada na sua visibilidade contrasta com o crescente peso do Comando Sul [dos EUA], John Bolton, Marco Rubio e Mike Pompeo em termos da orientação da mudança de regime. Nesse sentido, os efeitos nocivos do apagão encaixam-se perfeitamente na narrativa da “crise humanitária”, sob a qual o Comando Sul e a ultra-direita venezuelana, desde 2016, mobilizam a “urgência” de ativar um dispositivo de “intervenção humanitária” que neutralize a proibição do Congresso dos EUA, do Conselho de Segurança da ONU e do consenso pragmático para a não-intervenção que se vem gerando na América Latina.

No entanto, o apagão como tal não é um fim em si mesmo. No plano operacional, parece antes, sobretudo pelo apagão gerado pela interrupção do sistema elétrico, que se trata de uma manobra para agudizar as vulnerabilidades do país e medir a capacidade de resposta militar dos sistemas defensivos da República diante da ação militar irregular e mercenária, que aproveitaria o bloqueio de informações para encobrir incursões armadas, seu mapa operacional e os responsáveis diretos no terreno.

Portanto, no âmbito do teatro de operações da guerra contra a Venezuela, o apagão traduz-se na geração de um panorama difuso e confuso que favoreceria a execução de operações de bandeira falsa, incursões paramilitares e outras ações violentas que precipitem um estado de comoção generalizada, que poderia ser apresentado como o evento desencadeante de uma intervenção militar preventiva, seja para “estabilizar o país devido à crise humanitária” ou para “salvar os venezuelanos de uma situação de estado falido” em “crise humanitária”. Neste marco narrativo, Julio Borges, Antonio Ledezma, Juan Guaidó e o gabinete da guerra contra a Venezuela em Washington, apertam as mãos e trabalham juntos sob a doutrina do caos controlado, de fatura norte-americana.

Com o apagão, procuram dar concretização física à “crise humanitária”, já não apenas a nível propagandístico, mas também aproveitando as baixas humanas e as complicações de diversa ordem geradas pela operação de sabotagem.

5. Características da agressão. Desta vez não houve ataque a subestações ou linhas de transmissão de energia, como já havia sido tentado em diversas ocasiões, segundo os manuais de sabotagem da CIA, já desclassificados, contra a Nicarágua sandinista dos anos 80.

Note-se que o software utilizado (denominado Scada) no Sistema de Controle Automatizado (SCA) que operacionaliza o funcionamento dos motores é o criado pela empresa ABB, que não trabalha no país há anos. Esta empresa da ABB, que na Venezuela trabalhou como Consórcio Trilateral ABB (ABB Venezuela, ABB Canadá, ABB Suíça), desenhou um projeto de modernização de Guri no final da última década, durante o governo de Hugo Chávez, no qual descreve em profundidade tanto o sistema atacado como a organização básica de Guri.

O analista geopolítico Vladimir Adrianza Salas, em entrevista à TeleSur, relaciona o ataque com o consórcio. Ele explicou que o reservatório Guri “requer um sistema de controle tecnicamente chamado ‘sistema scada’, que nada mais é do que um sistema de supervisão, controle e requisição de dados que permite, do ponto de vista informático, controlar todos os elementos da geração de energia. Se sabotares isto, sabotas a operação. Mas para sabotar isso você precisa de duas coisas: ou você deve ter acesso desde fora ou você deve ter cumplicidade interna para modificar os processos”.

Precedentes deste tipo encontram-se em países diretamente atacados ou pressionados pelos Estados Unidos, como o Iraque e o Líbano, onde os apagões foram sistemáticos e consecutivos, um após o outro durante dezenas de horas. As “réplicas” na interrupção do fornecimento de energia responderiam a estas sequências de ofensivas que já foram experimentadas em outros contextos de guerra assimétrica e irregular.

A criação de exércitos de hackers e materiais de guerra cibernética pela CIA e pela NSA tem sido documentada ao longo dos anos. Em Missão Verdade, mostrámos um documentário em que se explicava a origem do vírus Stuxnet, que deveria apontar para os corredores dessas agências de inteligência dos EUA. Esse instrumento de ataque cibernético visava tanto sabotar instalações de pesquisa nuclear no Irão como instalar um quadro circunstancial que poderia levar a um ataque à rede elétrica nacional automatizada do Irão (análoga ao sistema Guri) no caso de uma guerra declarada entre Washington e a República Islâmica.

O presidente Nicolás Maduro, nas horas da noite de 9 de março, assegurou que este foi o maior ataque contra a Venezuela nos últimos 200 anos republicanos, depois de o ataque ao sistema elétrico nacional se ter estendido intermitentemente às 60 horas.

6. Travar a tendência de recuperação. O apagão ocorre no meio de tendências de recuperação em diferentes escalas: no plano económico, a queda dos preços de alimentos sensíveis reduziu a tensão do início do ano, enquanto no plano financeiro a reestruturação do mercado de divisas conseguiu conter uma das variáveis da inflação induzida: o aumento do preço das moedas no mercado negro. Essas tendências favoreceram a estabilidade política do país, no meio de agressões não convencionais e ameaças de intervenção militar, tirando a Guaidó não só o poder de convocação, mas também a capacidade de manobra para capitalizar o mal-estar generalizado causado pelas sanções.

Assim, o apagão procura travar essas tendências de recuperação social, política e económica, agravando através de um boicote generalizado aos meios de pagamento, o acesso a alimentos e hospitais e o desenvolvimento normal da sociedade venezuelana. Do mesmo modo, a agressividade do ataque visa enfraquecer a produção petrolífera e industrial do país.

7. A consciência do país (lembre-se 2002-2003) e o pulso da intervenção. Assim como em 2002, a população venezuelana experimentou um teste generalizado de fogo. Uma operação de sabotagem destinada a precipitar um caos generalizado, que põe em risco a saúde e a nutrição das pessoas, a atividade económica do país, as suas telecomunicações e as nossas rotinas mais básicas, remete-nos ao cenário de sabotagem do petróleo dos anos 2002-2003, onde a oposição daquele momento, os mesmos que administram uma intervenção juntamente com os Estados Unidos e a Colômbia, executaram um estado de sítio paralisando a indústria petrolífera.

A reação da população, atacada psicologicamente durante os últimos anos para estimulá-la a uma guerra civil que torne possível uma intervenção, tem sido adversa ao cálculo da sabotagem. Impôs-se a calma, o uso de fogareiros em edifícios e bairros para cozinhar, a mobilização dos recursos físicos do país para lidar com as emergências mais urgentes, mas sobretudo a vocação generalizada do país de não cair em uma provocação que procura levar a um confronto civil e armado. A violência foi derrotada, como em 2002-2003. Essa paisagem que marca a nossa história contemporânea de hoje oferece a lição de que, após um teste de fogo superado, onde a brutalidade do golpe é de grande impacto, a coesão do povo é reafirmada.

No momento de fecho desta publicação, Juan Guaidó tenta canalizar o impacto do apagão para “declarar uma emergência extraordinária” na Assembleia Nacional, porque segundo ele “chegou a hora de dar o passo”, flertando com a ideia de utilizar a Constituição para legitimar uma intervenção. Precisamente nesta orientação como forma de fechar o ciclo de sabotagem, pode-se ver que o fim do apagão tenta fabricar as condições de anarquia, caos e ausência de serviços vitais, para pressionar uma “intervenção humanitária” em solo venezuelano, com a aprovação da Assembleia Nacional e da “coligação de países latino-americanos”, prontas para uma ação de força, que John Bolton está a construir.

Essa pressão, porém, é específica e escalonada. Ante a chegada da missão técnica do Alto Comissariado para os Direitos Humanos, o apagão procurará ser canalizado para engordar a questão da “crise humanitária” na Venezuela que, se bem administrado e promovido nos meios de comunicação, poderia resultar numa mudança de posição ao nível da região, da própria ONU, do Congresso dos EUA, sobre a “urgência” de uma ação de “ajuda humanitária” solicitada pelo “governo paralelo”.

Uma manobra que baixa o pano para Guaidó que, prisioneiro de um plano mal concebido e dependente da cadeia de comando do gabinete de guerra venezuelano em Washington, deve ser sacrificado para abri-lo à guerra. Uma imagem suficientemente convincente do sacrifício é que um político use uma alavanca do poder estatal, neste caso a Assembleia Nacional, para legitimar uma intervenção militar estrangeira. Um suicídio acompanhado por setores ultras de Caracas, filhos diretos dos primeiros colonizadores espanhóis, que clamam que se ative a Responsabilidade de Proteger (R2P) que destruiu a Líbia, Kosovo, Iraque e outras regiões que os Estados Unidos saquearam para manter o seu estatuto de potência.

Mas o apagão deve ser outra lição, e deve obrigar-nos a olhar para os códigos sociais e os hábitos coletivos e solidários de 2002-2003, as nossas armas como comunidade histórica e espiritual à nossa disposição para manter o fio da vida da história da nossa pátria.

 

Texto disponível em http://misionverdad.com/La-Guerra-en-Venezuela/venezuela-bajo-ataque e em

https://www.elviejotopo.com/topoexpress/venezuela-bajo-ataque-7-apuntes-sobre-el-shock-electrico/

 

Misión Verdad: um grupo de jornalistas e investigadores independentes dedicados a estudar e narrar o processo de guerra contra a Venezuela e as suas implicações globais. Misión Verdad pretende fazer uma contribuição rigorosa, genuína e confiável para que se conheça a outra versão da história, aquela que as grandes cadeias de informação e seus proprietários não contam.

 

 

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