CARTA DE BRAGA – “de memórias, das boas e das menos boas”- António Oliveira

Começo este texto com o excelente julgamento do escritor catalão Luis Racionero, antigo director da Biblioteca Nacional de Espanha, enunciando raízes e memórias da Europa e de uma cultura de nunca devermos nem podermos esquecer.

A cultura europeia resulta da tradição greco-latina do Mediterrânio, da ética do cristianismo, da oriental e da celta, do individualismo empreendedor dos invasores bárbaros e das ciências reelaboradas por semitas árabes e judeus

Racionero afirma ainda que tudo isso confluiu na península ibérica e levou também a península itálica a elaborar a síntese do Renascimento, donde sairá toda a ciência ocidental e a tecnologia, posteriormente desenvolvida nos e pelos países nórdicos.

Não demorará vinte segundos a ler bem este resumidíssimo resumo (passe o pleonasmo!) do que será a cultura europeia, mas também deve ser a melhor explicação que algum dia li para o espírito inquieto do europeu, que lhe motivou e proporcionou a sede do mar e das viagens, as descobertas, o estabelecer-se no lado de lá do mar, a mudança e subsequentes transformações e miscigenações.

Independentemente dos seus inevitáveis e enormes ‘pecados’, esta ‘revolução’ veio depois a alterar-se e a consolidar-se como símbolo do europeu e da cultura europeia que, cuido mesmo, é hoje o alvo principal do actual confronto entre os ‘Maquiavéis’ cultos e humanistas, versus os ‘Savonarolas’ puritanos e fanáticos queimadores de versos, de livros e de telas.

Dois símbolos dos primórdios renascentistas que se repetem através dos séculos e sabemos outra vez à espreita nesta Europa, muito mais preocupada e ocupada em arredar de vez as humanidades das escolas. Uma situação que, na actual conjuntura internacional, não pode deixar de desassossegar.

Acontece que a cultura não é propriedade de ninguém, de nenhuma ideologia, de nenhum partido, de nenhum dos lados do charco ou da rua, não é exclusiva e também não deveria ser excludente.

O poeta T. S. Elliot afirmou mesmo e mais de uma vez, ‘cultura pode até ser descrita simplesmente como aquilo que torna a vida digna de ser vivida

Por outro lado e para Zygmunt Bauman, as actuais mudanças e orientações nos paradigmas sociais, são apenas as consequências de ser ter descentrado o trabalho do ‘mundo da vida individual’, para o substituir pela liberdade de consumo como eixo em volta do qual gira o ‘mundo da vida geral’, penalizando sobretudo o simbolismo próprio de cada sociedade.

A situação atinge tais proporções que um dos mais ferozes críticos da austeridade, o professor Mark Blyth da Universidade de Brown, classificou o Fórum Económico Mundial de Davos de Janeiro último, como ‘o lugar onde gente muito importante se junta para discutir como não fazer coisa nenhuma com a desigualdade

Veja-se aliás a situação dos mais poderosos, também a maioria dos presentes naquela cidade suíça: a riqueza dos multimilionários aumentou 900.000 milhões de dólares em 2018, qualquer coisa como 2.500 milhões em cada dia, enquanto a riqueza da metade mais pobre da população – equivalente a 3.800 milhões de pessoas – se reduziu em 11%.

E mais um dado ainda: apenas 26 pessoas têm a mesma riqueza que esses 3.800 milhões, quando um ano antes, em 2017, ainda eram 43.

Também o fundador do Fórum de Davos, Klaus Schwab, não se eximiu de advertir que a contínua desintegração do tecido social, consequência de todas as disfunções verificadas até hoje, poderia ‘em última instância, provocar o colapso da democracia!

Mas continuamos a ler e a ‘ouver’ todos os dias, como o aumento sensível do pessimismo acerca do futuro, está a ajudar a crescer o apoio a grupos e dirigentes de características nacionalistas e autoritárias e, até por isso mesmo, é muito complicado alertar para a ameaça dos ‘Savonarolas’ queimadores de versos e de telas, já com um pé a empurrar-nos a porta de casa.

Além da preocupação que todas estas coisas me causam, até me sinto mais incomodado do que a jornalista que afirmou há alguns dias ‘o pior desta nova direita de reconquista, é que ainda me vai obrigar a ter saudades da brilhantina!

Entenda-se como se quiser!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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