A GALIZA COMO TAREFA – mecânica clássica – Ernesto V. Souza

Ir vivendo anos, a tratar de ter os olhos um mínimo de abertos em todas as direções e o cérebro alerta, dá para se ir decatando da copiosa e imparável mudança que acontece arredor.

Talvez no momento que as cousas estão a acontecer, ou pouco depois, apenas reparemos, de esguelho, na noção indeterminada de que alguma cousa mudou de ordem, de lugar, de volume, mas só a tempo passado, quando já é evidente, é que somos capazes – e muitas vezes com ajuda – de perceber com claridade a dimensão ou o sentido das alterações.

A começos do século XXI encontramo-nos num momento agitado, de aceleração, de novidades, de imprevistos, num momento em que as mudanças são perceptíveis e são muitas, acontecendo ao mesmo tempo.

Quem contava… Parece, de socato, que alguma cousa, e outra e mais outra e assim tantas, não encaixam nos marcos, nas previsões, nos esquemas e discursos, na circulação de ideias autorizadas, categorias e léxico controlado.

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Imagem John Leech, from: The Comic History of Rome by Gilbert Abbott A Beckett. Bradbury, Evans & Co, London, 1850s Cicero throws up his Brief, like a Gentleman (Wikiedia)

 

E, como sempre, o tempora o mores, a reação que inunda as colunas de opinião, as sisudas teorias dos opinadores televisivos, as consultas os académicos autorizados é a de estuporamento. Como aconteceu? como é possível? como se chegou a isto?

Porém, tal como lhe li nalgum momento a Edward W. Said, todas as ideias, os grandes esquemas, as análises, as linhas de pensamento, as escolas, as crenças, troppos e metáforas têm uma origem, e por tanto, um tempo e um momento. As ideias têm na origem uma função, obedecem a uma lógica prática, a uma ideologia, a uma formulação explicativa do poder. A um impulso criador, a uma força crítica, a uma reação.

Por muito que estejam consagradas (nomeadamente as que estão consagradas) as ideias fundamentais são susceptíveis de ser analisadas, revisitadas e reubicadas numa época, num contexto, numa corrente de pensamento ou de poder concreto. Talvez, simplesmente é que podemos começar a enxergar ou entender que as sequências de mudanças foram se acumulando por baixo dos tapetes e por fora da vista do olho.

Os modelos de pensamento acadêmicos e divulgadores vigentes, os mais dos agentes intelectuais em ativo, bebem diretamente do pensamento de fins dos 80 e primeiros 90, desenvolvido nas duas décadas a seguir. Bebem e fazem parte da reação neo-liberal, da celebração da queda do Muro de Berlim e da vitória do Capitalismo. Em conjunto diríamos que parecem aferrados naquela teoria engraçada do Fim da História, divulgada, casualmente, nesse contexto, pelo Francis Fukuyama.

Mas mesmo para quem não tem memórias, ou as alterou, é só ver filmes, seriados, e fotografias desses anos e comparar com o hoje. A roupa, os sapatos, a música, a mobília, os telefones, os materiais, passando pelos processos industriais, educativos e comerciais. Até o ritmo mudou.

Mas como são úteis aqueles velhos clássicos notários das mudanças imparáveis. As cousas vão acontecendo e não deixam de acontecer, parafuso sem fim, mudam tempos e vontades, mas mudam aos poucos: da acumulação atafegante do plástico, até o sucesso dos partidos de ultradireita, passando pelo declive do Império britânico ou a crise econômica da América Latina e hoje da Europa. E já diz bem o ditado popular: quem não corre à pingueira, chora a casa inteira.

 

One comment

  1. Abanhos

    Estamos num momento de mudança brutal, em que perdemos o chão aos poucos…no caminho imoarável para o neufeudalismo

    Gostar

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