CARTA DE BRAGA – “e transmite-se!” por António Oliveira

 

Bastaram duas notícias dos primeiros dias de Abril, para ficar bem mais consciente dos ingentes perigos das botas cardadas já dentro de portas nesta Europa tremebunda.

Logo no dia 1, o diário digital ‘Publico.es’ salienta em título na primeira página, “Un grupo de sacerdotes católicos polacos quema libros de Harry Potter por ser contrarios al *respeto a Dios*”. No corpo da notícia dá-se conta de uma autodenominada fundação ‘SMS do céu’, afirmar ser dessa maneira que se combatem a magia e os falsos deuses.

E entre as chamas puderam ver-se livros vários como os de Harry Potter e o ‘Fahrenheit 451’, talismãs, uma máscara de madeira africana, um bonequito do elefante da sorte e até um guarda-chuva cor-de-rosa da Hello Kitty.

Uma fogueira ‘em obediência a Deus’ explicou a tal fundação das mensagens, citando algumas frases da Bíblia para poder justificar tão heterogénea queima.

E há dias, disse-me uma pessoa amiga, quando as crianças iam a caminho das aulas da manhã num instituto em Lisboa, receberam minibíblias que alguém andava a distribuir. Algumas das mais pequenas levaram-nas mesmo para casa mas, nas turmas dos mais velhos, os professores recolheram e queimaram as minibíblias!

Apesar da distância, as duas fogueiras até poderiam evocar a sinistra ‘A noite dos cristais’, o advento de uma época trágica na Europa e no mundo, e consumada no Holocausto.

Foram assaltados milhares de comércios ligados aos judeus, queimando pertences e bibliotecas e os vidros partidos espalhados pelo chão a brilhar ao luar, foram a triste origem daquele nome

Em contracorrente e paradoxalmente, de acordo com uma notícia saída no ‘DN’ no dia 3, ‘Bolsonaro diz não ter dúvida de que o nazismo era de esquerda’.

Tudo deverá fazer parte de uma estratégia que vai do trumpismo ao brexit, passando por outros apeadeiros, aparentemente secundários, principalmente na Europa.

É onde actuam os extremistas italianos, húngaros, polacos, lepenistas da França e os casados e abascais, as cópias desses ultras em Espanha, porque ao falsificarem o passado, podem fazer crescer e potenciar o ódio todo que alimenta nacionalismos e populismos.

Não há nada de novo nesta estratégia! A História mostra bem o que aconteceu nos anos trinta do século passado.

Mas porquê agora, outra vez?

Nicolas Sartorios, político, jornalista e conhecido antifranquista, salientou esta preocupação numa entrevista recente pois ‘se fracassa a União Europeia, tudo estará em risco, a democracia, a prosperidade e o bem-estar que hoje tantos garantem estarem assegurados

Mas os factos com que se iniciou Abril e deram origem a esta Carta, levaram-me ainda e sem consolo, a recordar Aristófanes, um dos muitos que garantiram e deram valia à nossa cultura.

Escreveu o poeta e dramaturgo grego, já em 400 anos A.C. ‘A juventude envelhece, a imaturidade é superada, a ignorância pode ser educada e a embriaguez passa, mas a estupidez dura para sempre

E transmite-se!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

3 Comments

  1. O ascenso do ideário nazi fascista só é possível devido à permissividade dos regimes ditos democráticos que tudo permitem, mesmo sabendo que no período pós II Guerra Mundial foi acordado pelos aliados o impedimento do regresso das ideias e comportamentos ligados às hordas nazis.

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