CARTA DE BRAGA – “de rendas e Brecht” por António Oliveira

 

Não só aumenta o fosso que separa ricos e pobres, mas também o que separa os ricos dos muito ricos

Era um dos títulos de um jornal europeu, saído três dias depois deste outro, num jornal nacional, título a roçar a obscenidade, num país como o nosso, ‘António Mexia, CEO da EDP, ganhou 6.000 euros por dia em 2018

Não tenho nada contra o senhor, de quem só lhe conheço a cara pelas fotografias, mas tenho muito a favor de quem não consegue sacar da vida mais de 600 € mensais, o valor do salário mínimo conseguido para 2019, a situação real de centenas de milhares que se levantam às 5 ou 6 da manhã para ir trabalhar! E mesmo sem nomear outras misérias, sinto uma enorme dificuldade em compreender ou aceitar essa abissal diferença, esquecendo ou omitindo tal obscenidade.

Recordo ainda Boaventura Sousa Santos em Novembro último, no Primeiro Fórum Mundial do Pensamento Crítico em Buenos Aires, ao responder ao desafio de tentar ‘explicar a igualdade aos 1% mais ricos do mundo

Ao responder, perante as oito mil pessoas presentes, BVS começou por lembrar o que já tem dito sobre o tema, até por se assinalarem 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, ‘Temos o direito a ser iguais quando a diferença nos inferioriza e o direito a ser diferentes, quando a igualdade nos descaracteriza

E perguntou-se depois ‘Não faria mais sentido, ou não seria mais útil, explicar a igualdade aos 99% mais pobres? Explicar a igualdade aos 1% é como explicar ao Diabo que Deus é bom. Se eu o tentar fazer, talvez não me entendam; e se me entenderem, talvez me expulsem ou proíbam de escrever sobre o tema

As questões decorrentes da distribuição da riqueza, vindas já do final do século XIX, têm origem na concentração de rendas e da riqueza no topo da pirâmide social, a estatuída pelas normas do capitalismo que teve o se apogeu naquele tempo.

Por outro lado, a crise social, cultural e moral gerada por uma globalização potenciadora dessas mesmas normas, criou situações paradoxais, agora verificadas com a saída de centenas de milhares da situação de pobreza extrema, ao mesmo tempo que outras centenas de milhares correm o risco de a ela voltarem, sendo ou não de (e em) países emergentes.

Não tenho soluções por não ser padeiro dessa padaria, mas recorro a Tolstoi, já aqui citado uma vez, ‘Um governo que inclui em si os capitalistas e a imprensa, não é mais do que uma organização em que a maior parte das pessoas fica sob o poder de uma pequena parte

E recorro também a Ai Weiwei, um dos mais importantes nomes do panorama artístico chinês e mundial ‘Desfizemo-nos da humanidade como qualidade do humano. Os direitos individuais são os que encaixam na sociedade que criámos e pelos quais lutamos agora. Acreditamos que isso é a liberdade e não podemos estar mais equivocados. Pode ajudar à eficiência na empresa, mas não a sermos mais felizes

Tudo decorre da incerteza instalada em tudo o que se refira ao futuro, mas também é verdade que estamos habituados a ver apenas a instalação de ‘pensos rápidos’ ou ‘remendos’ em qualquer sítio, desde as feridas aos buracos nas estradas, a cargo de ‘paus-mandados’ que só pensam e agem cabalmente em situações de curto prazo.

E decorre também de esta sociedade ser apenas e cada vez mais, um aglomerado de indivíduos que só ‘praticam’ os mesmos lugares, reais ou virtuais. Um aglomerado onde é cada vez mais complicado colocarmo-nos no lugar do ‘outro’, até por isso já ser proporcionado pela tecnologia e pelo individualismo.

Talvez seja tempo de aqui também, recordar Bertolt Brecht, ‘Quando a verdade for demasiado débil para se defender, terá de passar ao ataque

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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