CARTA DE BRAGA -“de escrúpulos e contextos” por António Oliveira

 

Este ano parece marcar um novo ponto de partida para esta inquieta e conturbada Europa, ou um outro semelhante mas para a chegada a uma quase irrecusável e dramática paralisação.

O maior desafio talvez seja o de encontrar a harmonia necessária para poder enfrentar unida, a série de problemas que tem em volta, a começar com Putin e a Ucrânia, o mal-estar latente nos Balcãs, o conflito na Líbia e um outro bem possível na Argélia, só para citar os mais próximos.

Além destes problemas bem bicudos, também não se pode esquecer o ‘sai que não sai’ britânico, o ‘outro’ dos Populares europeus com o irrefreável Orban (o extremista húngaro que mete medo até aos seus), mais o Salvini a voar para patrão dos ultras todos da UE mas – e até por isso definitivamente importantes – estão aí as eleições da segunda quinzena de Maio.

Vão abeirar-se todos os púlpitos e altares de imagem e som, arrebanharem figuras e engendrar novos fixadores e vaporizadores, apregoar slogans acabadinhos de sair, aumentar o tamanho dos paus das bandeiras e oferecer brindes mixurucas em troca de mais votos e mais cedências; e vão procurar-se ‘pormaiores’ aos baús e arcas das vergonhas, ensaiar novos speakers e alugar autocarros, cantadeiros e cantadeiras, só para a festa sair à rua!

Não passa, mais uma vez, da pindérica cerimónia das campanhas eleitorais renovadas a espaços regulares, mas a ameaçar tornar as eleições o ponto mais fraco das democracias que temos.

Não será por o acto eleitoral deixar de ser absolutamente necessário, mas apenas por só e ainda aparentar ser o único momento em que o cidadão vulgar, o indefeso pagador de bancos e outras mordomias de quem já tem muito, poderá ter e até dar opinião na validação de outros cidadãos já escolhidos e apurados pelo marketingpartidário e político.

Um panorama que e aparentemente, é exigido pela igualdade política perante a lei, aquilo a que os politólogos e outros entendidos chamam ‘isonomia’ que em princípio, até seria verdadeira se descontássemos os ‘netos’ e ‘mouras’ por aí à solta, até neste campo.

Mas também parece andar e estar já um pouco arredada a ideia da ‘isegoria’, aquela pré-condição de se ser e estar informado com a devida antecedência, sobre (e das) decisões a ser tomadas.

Mas ele, cidadão, também já devia saber muito bem o que são promessas e, muito mais ainda, o valor delas quando feitas em períodos eleitorais.

Não tenho qualquer presunção de saber latim, mas lembro-me de um dia, um simpático e bondoso professor nos ter contado de onde vinha o termo ‘escrúpulo’

Tratava-se, disse ele, da mais pequenina das medidas de peso, mas também se podia dizer de uma pedrinha, de um seixo minúsculo ou de uma cunha pequena que se pudesse colocar para voltar a pôr direito um desequilibrado.

E, talvez pela risada que tal conclusão nos provocou, o bondoso e paciente professor logo adiantou ‘assim vocês todos perceberam a importância de se terem escrúpulos, os mesmos que os deuses também usam para nos equipar’, acrescentou ainda e a sorrir também.

Tudo isto a propósito de mais um comentário sobre a eleição do bolsonaro, citando o professor Gilbert Rist, autor de ‘A tragédia do desenvolvimento’, onde se afirma ‘quando o termo democracia está vazio de conteúdo por limitado a uma eleição de quatro em quatro anos, então a cidadania pode chegar a encará-la frivolamente, como qualquer concurso para eleger o vencedor de um reality show’, mesmo desequilibrado ou também não, acrescento eu

Mas creio que talvez seja bom começar a arranjar cunhazitas, pedrinhas e seixos pequenos para equilibrar tudo porque, numa democracia assim tão tremebunda (que treme ou faz tremer!), os adros e pátios europeus podem e devem estar preparados para acolherem alguns candidatos que, do tal termo ‘democracia’, têm apenas uma leve e fugidia ideia.

Os exemplos abundam no mundo e na Europa e convém não esquecer que os contextos também mudaram muito, pois hoje parece que já ninguém considera importante a opinião de cada um.

Ao capataz, ao chefe, ao dirigente ou a alguma autoridade, mesmo minorca, que se apanhe pela frente, a opinião de uma pessoa só tem importância se for contrária à deles e, muito mais, se for proferida em público. Qualquer ‘não’ dito assim, publicamente, transforma um qualquer cidadão num ‘radical’, a quem irão ser assacadas as culpas de tudo o que vier a acontecer!

Mas também é conveniente lembrar uma curta mas apropiada frase do poeta e escritor uruguaio Mario Benedetti, ‘De dos peligros debe cuidarse el hombre nuevo, de la derecha cuando es diestra, de la izquierda cuando es siniestra’.

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

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