Os Estados-Unidos contribuíram para afundar a Venezuela no caos – e a política de mudança de regime de Trump garantirá a persistência desta situação. Por Mark Weisbrot

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Texto publicado originalmente por The Intercept, em 2 de fevereiro de 2019 (ver aqui)

O presente texto foi traduzido a partir da versão francesa publicada por Les Crises em 22 de abril de 2019 (ver aqui)

 

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O presidente da Assembleia nacional da Venezuela, Juan Guaido, dirige-se aos muitos apoiantes da oposição num encontro público em Caracas em 16 de janeiro de 2019. Foto: Federico Parra/AFP/Getty Images

 

Washington tenta derrubar o governo da Venezuela desde há pelo menos 17 anos, mas a administração Trump mostra-se claramente mais agressiva que as anteriores administrações. Na semana passada, os responsáveis da administração aumentaram a velocidade ao darem o seu aval àquele que eles escolheram para suceder ao presidente venezuelano Nicolas Maduros Moros mesmo antes de qualquer golpe de Estado. Juan Guaidó, 35 anos, membro do congresso venezuelano proclamou-se presidente, e a administração Trump, como os governos aliados, reconheceram-no imediatamente como tal – segundo um plano pré-estabelecido.

É evidente que o Presidente Trump visa uma mudança de regime ; a sua administração nem sequer o esconde. E os seus aliados, como o vice presidente Mike Pence e o senador Marco Rubio, republicano do estado da Flórida, disseram-no claramente.

Seria lamentável continuar por este caminho. As políticas de Trump não só agravaram o sofrimento dos venezuelanos como também, além disso, tornaram quase impossível para o país sair da depressão económica e da hiperinflação.

 

É necessária uma resolução negociada do conflito político na Venezuela, mas a implicação da administração de Trump no derrube ilegal do atual regime exclui esta opção

É necessária uma resolução negociada do conflito político na Venezuela, mas a implicação da administração de Trump no derrube ilegal do atual regime exclui esta opção. Pior ainda, a estratégia manifesta de Trump é acentuar o sofrimento através das sanções – a maioria das quais só foram anunciadas – até que uma parte do exército inicie um golpe de força para instaurar um novo regime pro-Washington.

A regularidade das eleições presidenciais de 2018, boicotadas pela oposição, permanece por discutir, mas os principais problemas da estratégia de derrube do regime resultam de outras considerações. A Venezuela é um país dividido e derrubar o governo, mesmo que sem o envolvimento de Washington, não faria senão aumentar esta polarização e os riscos de violência ou mesmo de guerra civil.

Tomemos o exemplo da Nicarágua, onde em 1990 os Sandinistas de esquerda e os seus opositores apoiados pelos EUA aceitaram resolver as suas divergências através de uma eleição. Os partidos tiveram de aceitar determinadas condições para que os perdedores não fossem perseguidos: os Sandinistas mantiveram o exército sob controle depois do seu fracasso nas eleições, e a paz foi preservada.

Este tipo de compromisso seria impossível com a estratégia de mudança de regime praticada pela administração Trump.

A Venezuela está politicamente polarizada e está assim desde que Hugo Chavez foi eleito presidente em 1998 e lançou a sua Revolução bolivariana. A tentativa de golpe de estado militar pela oposição contra Chavez em 2002, apoiada e encorajada por responsáveis da administração Bush, bem como a vacilante vontade da oposição em aceitar os resultados de eleições democráticas nos anos seguintes prepararam o terreno para longos anos de desconfiança.

A polarização política da Venezuela interage com um cisma profundo que se encontra em praticamente todas as sociedades da América latina : uma divisão segundo as classes e as raças. Em quase todo o lado nas Américas, as duas estão correlacionadas. Nesta última década, foi fácil adivinhar, nas manifestações, olhando simplesmente para a roupa e para as nuances da tez dos participantes, se estes eram apoiantes ou opositores do governo. As multidões da oposição são visivelmente mais brancas e mais abastadas que as dos que apoiam o governo venezuelano. Durante as últimas manifestações, os pobres e os trabalhadores de Caracas intervieram mais que antigamente, mas não o suficiente para apagar a divisão de classe e de raça entre os Chavistas e a oposição.

Um outro vetor de polarização da Venezuela é a fé na soberania e na autodeterminação. Para os Chavistas, a independência vis-à-vis os EUA é uma questão central e o governo, quando tinha meios, aplicava políticas no seu hemisfério tendentes a mais independência para toda a região. A oposição e os inimigos dos Chavistas, pelo contrário, colaboraram estreitamente com os governos estado-unidenses durante as duas últimas décadas, como se pôde observar durante a última tentativa de golpe de estado. A intervenção de Washington agrava a polarização sobre a questão da soberania e torna a oposição suspeita de colaboração com um poder estrangeiro, um poder que teve historicamente um papel desastroso em toda a região. Para se poder fazer uma ideia da animosidade que isso criaria, basta pensar no que sucedeu nos EUA com a interferência russa nas eleições de 2016 e multiplicar isso várias vezes.

 

O impacto polarizador da operação de mudança de regime de Trump é o que a torna tão perigosa

O impacto polarizador da operação de mudança de regime de Trump é o que a torna tão perigosa. A inflação anual é provavelmente superior a um milhão por cento e a economia diminuiu provavelmente 50% nos cinco últimos anos. Milhões de pessoas deixaram o país para encontrarem trabalho. A oposição teria quase certamente ganho as últimas eleições presidenciais se nelas tivesse participado. (Note-se que os EUA terão ameaçado um candidato da oposição, Henri Falcon, com sanções financeiras pessoais se ele persistisse em apresentar a sua candidatura à presidência.)

Há que admitir que as políticas económicas governamentais desempenharam um papel nos males da Venezuela mas as sanções de Trump agravaram consideravelmente as coisas desde agosto de 2017 destruindo a indústria petrolífera e agravando a penúria de medicamentos, o que provocou a morte de muitos venezuelanos. Estas sanções tornaram o governo chavista praticamente incapaz de tomar medidas para sair da hiperinflação e da depressão.

Embora os meios de comunicação americanos mantenham o silêncio sobre esta questão, é importante sublinhar que as sanções de Trump são, simultaneamente, violentamente imorais – elas matam – e ilegais. Elas são uma violação da Carta da ’Organização dos Estados Americanos, da das Nações Unidas e de outras convenções internationais de que os EUA fazem parte. Estas sanções violam igualmente as leis dos Estados-Unidos pois, para poder impôr tais medidas, o presidente dos EUA deve afirmar, o que é um absurdo, que a Venezuela representa « uma ameaça inabitual e extraordinária para a segurança nacional » dos Estados-Unidos.

A Venezuela não poderá sair desta crise política com um dos lados esmagando o outro, como o assumem os promotores de uma mudança de regime. O Vaticano que desempenhou um papel de mediador em 2016, o Uruguai e o México, que se mantiveram neutrais no conflito político, ofereceram, esta semana, a sua mediação. A equipa de Trump, que tem uma enorme influência sobre a oposição, não mostrou até ao momento nenhum interesse numa solução pacífica.

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O autor: Mark Weisbrot (1954-), economista, doutorado pela Universidade de Michigan, é co-fundador e co-director do Center for Economic and Policy Research em Washington, D.C. e presidente de  Just Foreign Policy. Entre outros trabalhos é autor de Failed: What the “Experts” Got Wrong About the Global Economy (2015, Oxford University Press).

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