Sri Lanka no Grande Jogo dos Estados Unidos e da Índia contra a China. Por Nazanín Armanian

Sri Lanka no grande jogo EUA Índia contra a China

Obrigado a Nazanín Armanian e ao Público.es

Publicado por publico es es em 30 de abril de 2019 (texto original aqui)

 

A acusação do presidente do Sri Lanka, Maithripala Sirisena, de que os serviços de segurança do país tinham conhecimento prévio dos oito atentados “jihadistas” de 22 de abril, que deixaram centenas de vítimas, e o ocultaram, mostra uma grande e grave fratura no poder do país apelidado de “Índia organizada”.

A República Socialista Democrática do Sri Lanka é um pequeno Estado de 21 milhões de pessoas, composto pelos cingaleses e por uma minoria tamil (cerca de 13%), e de religião predominantemente budista, seguida por grupos de fé hindu, islamo-sunita e cristã. A nação estava a recuperar-se não apenas de uma longa guerra civil de 26 anos (1983-2009) entre a milícia independentista Tigres Tamiles e o exército, que deixou dezenas de milhares de mortos, mas também do devastador tsunami no Oceano Índico em 2004, que arrebatou a vida de 35.000 pessoas.

O antigo Ceilão, um país insular localizado no Oceano Índico e a sudeste do Mar Arábico, que vive do turismo, das exportações de têxteis e de chá (em cujas plantações trabalham principalmente mulheres), e é também o maior produtor mundial de canela, alcançou um crescimento económico de 4,6% em 2017, e reduziu a pobreza de forma considerável. Durante a Guerra Fria, a ilha foi um dos países “Não Alinhados”, próximo da China e da União Soviética, e tem a honra de ser o primeiro país do mundo a ter uma primeira-ministra feminina, Sirimavo Bandaranaike, em 1960.

Com o fim da ordem mundial unipolar, marcada pelo protagonismo da China, Rússia e Índia, o Sri Lanka é hoje objeto de disputa entre as potências. A geopolítica marítima e a militarização das águas do planeta, por vezes sob pretextos ridículos como a luta contra os “piratas somalis”, estão a arrastar este país para uma grave crise política.

A importância geopolítica do Sri Lanka

  • É o único estado insular do sul da Ásia.
  • Está situado no centro do Oceano Índico, elo de ligação entre a Ásia ocidental e o sudeste asiático que conecta o comércio marítimo este-oeste. Pelas águas deste oceano, que cobrem cerca de 20% da superfície do planeta, passa 70% do comércio mundial de petróleo, com a Índia e a China à cabeça dos consumidores de energia fóssil.
  • O Sri Lanka é dono de portos estratégicos como Colombo ou Trincomalee.
  • Dentro da política dos Estados Unidos para dominar o Sul da Ásia, é candidato para substituir o Paquistão, país que está a entrar na órbita chinesa.
  • É o espaço onde se desenrola a batalha entre China-Japão, Índia-China e EUA-China pelo controle das rotas marítimas do Índico.

Um antes e um depois de 2015

Desde que Barack Obama concentrou a sua doutrina na contenção da China, uma política continuada por Donald Trump, o Sri Lanka é uma das obsessões dos Estados Unidos. Em dezembro de 2009, a Comissão de Relações Exteriores do Senado advertiu que “a deriva estratégica do Sri Lanka“, durante a administração do presidente Mahendra Rajapaksa, para a China “teria consequências para os interesses dos EUA na região“. E como não podia acusar o governo budista de Colombo de “patrocinar o terrorismo islâmico”, os EUA recorreram ao segundo dos seus argumentos favoritos: “espezinhar os direitos humanos”. Assim, através dos “especialistas” da ONU, levantaram a suspeita de que o governo Rajapaksa poderia ser responsável por crimes de guerra durante e depois da guerra civil por ter matado cerca de 40.000 civis.

Em 2013, a ONU aprova uma resolução apelando a investigações “independentes” sobre o assunto. A cereja do bolo é posta pelo então primeiro-ministro britânico, David Cameron (cujo governo, além de estar envolvido em crimes de guerra no Afeganistão e no Iraque, aumentou as vendas de armas ao governo do Sri Lanka, prolongando a guerra civil), que deu um ultimato a Rajapaksa exigindo uma investigação credível sobre o assassinato dos Tamil. Meses depois, e ante a proibição de Colombo de que a equipa da ONU entrasse nas antigas zonas de conflito, os EUA advertem: “a paciência da comunidade internacional começa a esgotar-se“.

A esta pressão sobre Rajapaksa junta-se o governo de extrema-direita da Índia que considera o Sri Lanka o seu quintal, não só porque Rajapaksa retirou o seu país da influência de Nova Deli, entregando mega projetos de infra-estruturas à China, mas também por autorizar a atracagem de submarinos chineses no porto de Colombo.

A partir de 2014, a entrada plena do Sri Lanka no projeto chinês da Nova Rota da Seda selou o seu destino. Pequim, que já cooperou com este país para reconstruir as áreas devastadas pelo tsunami de 2004, assinou um acordo para investir 13 mil milhões de dólares no porto de Colombo e transformá-lo em Colombo International Financial City, à imagem do Dubai no Golfo Pérsico, e de caminho reconstruir o porto de Hambantota por mais 5 mil milhões. Estes projetos fazem parte da estratégia “Colar de pérolas” da China, que consiste no aluguer de portos, inicialmente para fins comerciais, e se estende das águas chinesas ao Oceano Índico e ao Golfo Pérsico: Kyauk Phru (Birmânia), Gwadar (Paquistão) ou Chittagong (Bangladesh), e Bandar Abbas (Irão), são apenas alguns.

Em 2015, ocorre uma mudança radical dos acontecimentos: Rajapaksa acusa o Ocidente e os serviços de inteligência indianos, The Research and Analysis Wing (RAW), de conspirarem para expulsá-lo do poder enquanto o primeiro-ministro Maithripala Sirisena pratica transfuguismo, adere ao Partido de Unidade Nacional (PUN) da oposição, pró-Índia-EUA, e concorre à presidência. Na véspera, o ex-secretário de Estado norte-americano John Kerry telefona para Rajapaksa (intervém em eleições de outros países!) para insistir que estas devem ser “livres e justas”, e ele deve entregar o poder “pacificamente” a Sirisena se ele as ganhar. Finalmente, para assegurar os resultados, ele envia o Subsecretário para a Ásia do Sul e Central, Nisha Biswal, para visitar o Sri Lanka.

Sirisena, que centrou a sua campanha na Chinofobia, vence as eleições com o apoio de grupos tamil e muçulmanos, provocando euforia em Washington. Nova Deli será o destino da sua primeira visita oficial ao estrangeiro.

O novo presidente nomeia o líder do PNUD, Ranil Wickramasinghe, como primeiro-ministro. Os EUA deixam de falar sobre os “crimes de guerra” do Sri Lanka e recusam a deixar que um tribunal internacional independente os investigue.

No entanto, a China seguirá a estratégia da “acupunctura” (versus “ataques cirúrgicos” dos EUA) e, discretamente, cortejará Sirisena: constrói um hospital no seu círculo eleitoral local e continua a oferecer investimentos vantajosos. Em 2017, o Sri Lanka – preso na chamada “armadilha da dívida” – arrenda 70% do porto marítimo de Hambantota à China por um período de 99 anos e em troca de 1,1 mil milhões de dólares, para pagar parte da sua enorme dívida com Pequim, e no processo compra-lhe aviões militares de transporte.

A festa no Ocidente foi de curta duração: Ranil é demitido por Sirisena em 26 de outubro de 2018, depois de aquele o criticar por congelar os projetos económicos da Índia, favorecendo a China; dissolve o Parlamento; e nomeia o ex-presidente Rajapaksa como chefe de gabinete. Sirisena, por sua vez, afirma que Nova Deli tinha conspirado para o assassinar. A raiva da América é monumental, enquanto Pequim felicita Rajapaksa.

Em 16 de Dezembro, sob forte pressão de Washington e também do próprio Parlamento do Sri Lanka, que o acusou de “tentativa de golpe de Estado” e o incitou a “respeitar a Constituição” – que proíbe o presidente de demitir o primeiro-ministro -, Sirisena recuou e devolveu o cargo a Wickremesinghe, confessando: “Continuo a pensar que não devia tê-lo nomeado primeiro-ministro“. Os Estados Unidos e a Índia ganham, de momento.

Uma ardente Guerra Fria nos mares

No passado dia 13 de Março, dois Boeing B-52H Stratofortress dos EUA descolaram da base aérea de Andersen em Guam para sobrevoar as ilhas controladas por Pequim no Mar do Sul da China; em 11 de Fevereiro, dois contratorpedeiros lança-mísseis norte americanos, o USS Spruance e o USS Preble, navegaram a poucas milhas das ilhas Spratly sob o pretexto da “liberdade de navegação e sobrevoo apoiados pela Convenção do Direito do Mar”. O objetivo de Trump-Bolton nestas provocações não é a persuasão, eles sabem que a China não se vai retirar. Conseguem imaginar os caças chineses ou o seu único porta-aviões a passarem pelo céu e pelas águas do Golfo do México?

De momento, a guerra entre as duas superpotências é comercial, política, diplomática e cibernética. Obviamente, medidas como a imposição de tarifas de até US$ 200 mil milhões sobre as importações chinesas não são para proteger a economia dos EUA, mas para destruir a economia da China. Também, com o mesmo objetivo, sacrificaram o Paquistão – um dos pilares do domínio de Washington na Ásia Oriental – para cortejarem a Índia e transformá-la num aliado militar (Obama foi o único presidente dos EUA a viajar duas vezes para Nova Deli); ocuparam o Afeganistão; aumentaram o ritmo das chamadas Operações de Liberdade de Navegação (FRONOP), nas quais não descartam o uso da força militar; e fortaleceram as suas bases militares na vizinhança da China, e privaram o Irão do petróleo. Esta é uma guerra de desgaste multidimensional como a que organizaram contra a União Soviética.

Os recentes atentados são uma oportunidade para que os Estados Unidos (como o foi o “sequestro das meninas nigerianas”) ofereçam ao Sri Lanka a sua “ajuda” na luta contra o terrorismo, o envio de assessores e, talvez, a instalação de uma base militar. Milhares de “jihadistas”, depois de cumprirem a sua missão de demolir o Estado sírio, foram transferidos pela CIA para o Arco da Crise na Ásia Central e Oriental para continuarem a desempenhar o papel dos paramilitares e dos “aplaina-caminhos” da NATO em países estratégicos.

Em 18 de abril de 2019, a Sétima Frota da Marinha dos EUA parou em Hambantota. Foi para realizar o exercício CARAT (Cooperation Afloat Readiness and Training) juntamente com outros estados aliados no porto de Hamantota, o mais antigo exercício da Marinha dos EUA (desde 1995) e que tem lugar no sul e sudeste da Ásia, para exibir músculo para os chineses e “garantir a segurança marítima em todo o Indo-Pacífico”. No dia dos atentados as manobras foram suspensas.

Se os serviços de inteligência da Índia, que cooperam estreitamente com o seu homólogo americano, conhecia o plano dos atentados, é possível que a NSA não os conhecesse também?

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A autora: Nazanín_Armanián Nazanín Armanian (1961-), é uma escritora e politóloga iraniana exilada em Espanha desde 1983. Licenciou-se em Ciências Políticas pela Universidade Nacional de Educação à Distância (UNED), onde lecionou de 2009 a 2013. De 2007 a 2012 foi também professora de questões islâmicas de cursos complementares da Universidade de Barcelona. Em 2015 ministra a cadeira de Relações Internacionais na UNED. É tradutora oficial de persa/farsi para espanhol. A sua área de investigação é o mundo islâmico, o islão político, a geopolítica do Médio Oriente e Norte de África e os direitos das mulheres. Colabora em diversos meios de comunicação espanhóis e mantém uma coluna semanal no blog Punto y Seguido do diário Público.

 

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