A GALIZA COMO TAREFA – discordâncias – Ernesto V. Souza

Quintas, toca-me, normalmente, levar os cativos à Escola Municipal de Música. Flauta uma, saxofone outro e mais banda, ambos. Com algum tempo de espera entre aulas, isto quer dizer que tiro toda a tarde, por perto, entre passeios no parque, leituras, cafés ou cervejas, introspectivas habitualmente, ou com conversa se a minha mulher me acompanhar.

Quando só, há também as opções de uma loja de ferragens-quinquilharia, um par de supermercados e uma biblioteca municipal. Espaços nos que, de quando em quando, procuro qualquer necessidade ou dou uma volta a matar tempo, a observar as classificações e agrupações, as prateleiras de produtos, géneros e matérias, as distribuições, a circulação e efetividade entre corredores e os balcões. Nas bibliotecas sempre há alguma cousa de interesse: boto um olho, leio um pouco, apanho livros. Por vezes até rascunho alguma cousa num caderno ou papéis soltos.

Na semana passada topei, num cantinho discreto, uma seção na que nunca reparara: “Otras lenguas”. Um armário escasso de livros em inglês; um par de prateleiras em francês; um feixe de livros em italiano, seis livrinhos em galego, três em romeno, um em euskera; em catalão uma dúzia.

Os livros em inglês e francês apresentam a lógica aparência dos claramente frequentados e até muito usados. O mesmo que os romenos e algum dos italianos. Os de euskera, galego e catalão, todos agasalho institucional, ensaio, conto e poesia, impecáveis, sem qualquer risco de uso.

Entre os em catalão topei um volumezinho de artigos de Joan Fuster: Més discordances (Alzira: Bromera, 2011), abri, ri um pouco e apanhei. No balcão (nesta biblioteca ainda não há RFID e máquina de auto-empréstimo), a bibliotecária olhou para o livro desconfiada, levantou os olhos para mim inquisitiva e procurou o cartão de controlo no livro. Colocou um novo, já que não tinha, carimbou com a data de devolução, desmagnetizou e entregou-mo reticente, com essa certa precaução com que se empresta os livros raros e despistados na catalogação, os novos, e todos esses que saem por primeira vez à rua com desconhecidos.

Joan Fuster é um dos mestres. Não sei se já repararam ou eu já comentei nalgum outro momento. Colunista, articulista, ensaísta. Não tem desperdiço. Ler o de Sueca: referencias, estilo, perplexidades, hesitações, perguntas, reconcilia-me comigo e com o meu tempo. Talvez não percebem o divertido que é para este autor/leitor topar, neste preciso contexto declarativo e momento, estes artigos. E mais quando estes textos são, em tanto aspecto, tão precursores, por muito que se escrevessem em 1981-84 e vigentes, mesmo que se publicassem nas margens de Jano, uma Revista de Medicina y Humanidades.

É-che-me singularmente saudável e nutritivo este Fuster ligeiro, colunista, de breves estocadas precisas, de sarcasmos medidos, críticos e auto-referenciados. O Fuster seródio, tão fresco de modernidade cultural, análise e erudição, com as suas teimas geniais, associações e diálogo crítico com o “nacionalismo masoquista” de Miguel de Unamuno (y los demás), ou com o “hortera”, “madrileno” e “cursi” de Ortega y Gasstet, e com aquela querência crítica e debilidade pelo Xenius.

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(Foto: Pepa Garcia, Última entrevista, na sua casa de Sueca, (La Vanguardia) )

Em construção permanente de uma sociedade civil, sempre reflexivo entre “els uns i els altres”, mergulhando na identidade nacional, atento às mudanças, às dores físicas, sociais, psicológicas, divertido, amargo, cosmopolita, moderno. Como de habitual, percorrem as suas páginas, a partir da anedota mais convencional – um passeio, uma leitura, um artigo na imprensa, uma tarde no cinema, o suicidio de Marilyn Monroe, um centenário de Goethe, uma observação a pé da rua, num restaurante, as modas – a análise de elementos culturais em mudança, de hábitos sociais e usos, de convenções morais, da educação como comformação uniforme de cidadãos, das relações humanas entre as gentes, com a história e com o Estado.

Confrontação constante, em situação e contexto, com os imperialismos, os colonialismos, o supremacismo castelhanista com epicentro na Geração do 98 – e no seu antes e depois permanente -, a crítica à aceitação aos tópicos e as desigualdades, impostas: língua, fascismo, sadismo social, espanholismo, seitas, cultura, cinema, as novas tecnologias (o video), a guerra e a indústria do armamento, a passagem do tempo, da história, as pulgas da pelica de Viriato dos nacionalismos. Reflexões didáticas, com tendência ao sarcasmo, do intelectual convertido em cronista documental do quotidiano:

Durant la dictadura del general Primo, Unamuno i Blasco Ibáñez, exiliats, coincidien en una tertúlia de París. Don Miguel era conegut pels seus embrulls teològics en l’àrea hispànica, però a penes l’havien traduït. Don Vicent, amb les seues novel·les, ja era ric: ric en dòlars, i famós als Estats Units, precisament. I conten que Blasco aconsellava Unamuno: “Vostè hauria d’anar-se’n allà. Amb les seues idees, crear una església, i a guanyar diners…” Blasco Ibañez no va tenir mai una noció gaire clara d’això de les religions: per a ell començaven i acabaven en els rosaris de l’aurora, en els capellans carlins, en els bisbes de la Restauració. Per a ell, el context ianqui era un altre: un terreny on “ganyar diners”. I, a la seua manera, l’encertava. La religió com a negoci ha tingut a l’Amèrica del Nord un camp adobat, i des de sempre. Pot ser que l’actual boom de les sectes siga veritablement un boom. Però menys. Allí no hi hagué mai gaires frens legals per interceptar iniciatives d’aquesta mena. Tot al contrari: l’important, per aquella gent, és que tot ciutadà crega em Deu, en qualsevol déu, és igual quin. (“Secta més, secta menys”, (Jano 22-5-1981, nº 472), p.41)

É útil voltar, de quando em quando a Fuster, e mais nos tempos que correm. O caso do valenciano e do galego, os reintegracionismos anulados, a evolução social e involução política das suas sociedades nas últimas décadas, a definição identitária incompleta e a perplexa relação com o estado através do nacionalismo espanhol e a língua castelhana, apresentam notáveis e escuros paralelos.

1 Comment

  1. Caro: Joan Fuster é uma das minhas mais gostosas leituras, com ele muito tenho apreendido. Galiza é uma Valência onde o blaverismo é rei e senhor, fora dele há periferia, e a RAG e o ILG aos serviço da Junta e seu blaverismo brutal, são a Academia de Cultura Valenciana. Mas na Galiza desconhece-se isso a sério.
    Joan Fuster devia ser de leitura obrigada para todos os galegos e galegas, se lerem e enderem essa obra mestra de Nossaltres els Valencians, entenderiam muito melhor o que se passa na Catalunha, e porque o processo de independência não tem paragem e cada dia é um bocado mais afastado esse território do resto.
    Qualquer cousa de Fuster é encantadora, pode ser um Wenceslao F, Flores -De donde da La Vuelta el aire-, ou um Machado de Assis de -Contos Avulsos-, ou um dirigente esclarecedor de realidades, como teriam, sonhado ser Outeiro ou Risco etc
    Vou deixar em PDF um Livro de Fuster para que os teus leitores leiam
    http://barcelona.indymedia.org/usermedia/application/13/Fuster,_Joan_-_Nosaltres,_els_valencians_%281962%29.pdf

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