
Seleção e tradução de Júlio Marques Mota
Texto introdutório 2. Acordo ou não acordo
por Doug Nolan
Publicado por
, em 10 de maio de 2019 (texto original aqui)
O que é que correu mal? Claramente, todas as conversas positivas dos EUA e da China pintaram um quadro demasiado cor-de-rosa quanto ao progresso das negociações comerciais. Do Wall Street Journal (Lingling Wei e Bob Davis): “A nova linha dura adotada pela China nas negociações comerciais – surpreendendo a Casa Branca e ameaçando descarrilar as negociações – veio depois de Pequim ter interpretado as recentes declarações e ações do presidente Trump como um sinal de que os EUA estavam prontos a concessões, disseram pessoas familiarizadas com o pensamento do lado chinês.
“…Os EUA pensaram que a China tinha concordado em detalhar as leis que mudaria para implementar o acordo comercial em negociação. Pequim disse que não tinha intenção de fazer isso… O endurecimento das linhas em discussão foi motivado pela decisão de Pequim de tomar uma posição mais agressiva nas negociações… Eles dizem que Pequim foi encorajada pela perceção de que os EUA estavam prontos para se empenharem em alcançar um acordo. Em particular…., o interesse de Trump em… [que] o presidente [do Fed] Jerome Powell reduzisse as taxas de juros foi visto em Pequim como prova de que o presidente achava que a economia dos EUA era mais frágil do que Trump afirmava”.
No artigo mais abrangente e perspicaz sobre o assunto que li até agora, um artigo da Reuters (David Lawder, Jeff Masson, Michael Martin, Chris Prentice, Dan Burns, Jing Xu e Ben Blanchard) apresenta-se uma análise convincente:
“O telegrama diplomático de Pequim chegou a Washington no final da noite de sexta-feira, com modificações sistemáticas de um projeto de acordo comercial de quase 150 páginas que dinamitariam meses de negociações entre as duas maiores economias do mundo, de acordo com três fontes do governo dos EUA e três fontes do setor privado bem informadas sobre as negociações. O documento estava repleto de reviravoltas por parte da China que minariam as principais exigências dos EUA, disseram as fontes à Reuters. Em cada um dos sete capítulos do projeto de acordo comercial, a China havia eliminado o seu compromisso em mudar as leis para resolver as principais queixas que levaram os Estados Unidos a lançar uma guerra comercial: roubo de propriedade intelectual e segredos comerciais dos EUA; transferências forçadas de tecnologia; política de concorrência; acesso a serviços financeiros; e manipulação de moeda”.
Porque é que Pequim devolveria um esboço de 150 páginas com “modificações sistemáticas” que certamente sabiam que com isso se arriscariam a fazer explodir meses de negociações? “Liu na semana passada disse a Lighthizer e Mnuchin que precisavam de confiar na China quanto ao cumprimento das suas promessas por meio de mudanças administrativas e regulatórias… Tanto Mnuchin como Lighthizer consideraram isso inaceitável, dado o historial da China de não cumprimento de promessas de reforma.”
Os EUA exigiam que a China mudasse as leis existentes para incorporar as concessões comerciais e concordasse com “um regime de aplicação mais semelhante ao utilizado para aplicação de sanções económicas punitivas – como as impostas à Coreia do Norte ou ao Irão – do que com um típico acordo comercial”.
A China vê as exigências dos EUA para que a China mude as suas leis como sendo uma violação da soberania nacional. E posso imaginar que as autoridades chinesas tenham desdém total por um “regime de aplicação da lei” ditado pelos EUA. As conversas privadas de Xi e Putin – e a estreita relação pessoal entre eles – certamente se unem em torno de sua mútua repulsa à hegemonia dos EUA, nomeadamente o seu agressivo comando de organizações internacionais e autoridade sobre sanções económicas punitivas. Os EUA estavam a pressionar veementemente para obterem concessões que os chineses provavelmente consideravam questões que estavam já a pisar a linha vermelha. Pequim tomou a decisão calculada de recuar. As excursões militares cada vez mais contenciosas dos EUA no Estreito de Taiwan e no Mar da China Meridional terão sido um fator importante? Menos do que um exercício de força. Huawei? Quanto é que vale Maduro para os chineses? Kim Jong Un (líder da Coreia do Norte, também conhecido por “Rocketman”) com os seus velhos truques, uma mera coincidência?
O facto de tantas coisas estarem a vir-nos à cabeça não é coincidência. Bolha global histórica de última fase.
O aumento da insegurança, do populismo nos EUA, do presidente Trump e dos chineses como alvo político popular (não podem perder). A ascensão do poder económico chinês, poder financeiro, grande proeza tecnológica, influência global e rápida expansão das suas capacidades militares. A bolha global multi-década causou uma desigualdade de riqueza sem precedentes, incerteza e fragilidade – dentro e entre nações. E uma classe média americana cada vez mais desencantada manifestou-se num país profundamente dividido económica, social e politicamente – mais desconfiada das suas instituições e à procura de bodes expiatórios.
Na China, um segmento significativo da sociedade alcançou um nível de riqueza além do que era imaginável anteriormente. Uma bolha histórica inflacionou a sua produção económica, a perceção de riqueza e as expectativas. Com a sua bolha a vacilar, o Partido Comunista apertou o punho. Pequim pode utilizar a longa história de interferência externa para desviar a culpa pela sua má gestão das finanças chinesas e pelo profundo desajustamento estrutural financeiro e económico resultante.
As probabilidades de uma explosão nas negociações comerciais aumentaram obviamente. No entanto, ambos os lados são vistos como necessitando quase desesperadamente de um acordo. As ramificações de um colapso na relação comercial China/EUA são tão terríveis que os mercados estão convencidos de que isso não pode acontecer. Além disso, há a tríade de “vendas” (puts) do Mercado – Trump, o Fed e Xi. O apoio do mercado é considerado mais confiável do que nunca após a inversão de marcha de Powell no mês de janeiro, do corte desta semana nas exigências de reservas bancárias para os bancos chineses, e de uma eleição nos EUA que se aproxima a cada dia que passa.
Com a fragilidade da Bolha Chinesa tão aguda, poucos acreditam que Pequim irá arriscar uma explosão. Para o governo dos EUA, um acordo comercial favorável com a China será uma coroação nas eleições de 2020. Para tornar a América novamente grande, certamente não faz mal politicamente parecer ter vencido os chineses até à sua submissão.
Assumindo que um acordo comercial é eventualmente consumado, não vejo os EUA e a China a saírem das negociações como parceiros comerciais cordiais (ou seja, NAFTA, Coreia do Sul e Japão). Em vez disso, estes dois adversários terão ainda menos confiança, juntamente com uma apreciação mais clara da intensidade da sua rivalidade competitiva atual, das diferenças irreconciliáveis e de prováveis conflitos futuros. É razoável ver as negociações comerciais como a primeira salva de confrontos entre as superpotências globais.
No final dos anos oitenta, quando os japoneses “tomaram conta do mundo”, foi no contexto das suas capacidades de produção superiores e do seu poder financeiro em rápida expansão. Não houve acumulação militar concorrente ou ambições globais fora da expansão do comércio e do investimento. Às vezes, talvez concorrentes, mas os japoneses permaneceram muito no bolso de trás dos EUA. Que a Toyota e a Honda estavam a oferecer aos consumidores americanos produtos de maior qualidade era um grande problema para Detroit. Mas não havia medo de que os japoneses se tornassem um adversário geopolítico ameaçador. Sem Corrida às Armas.
A explosão da bolha japonesa teve apenas ramificações geopolíticas secundárias. Diante de uma bolha cada vez mais desestabilizadora, os formuladores de políticas estavam focados principalmente no bem-estar da sociedade japonesa e na solidez das finanças domésticas, dos mercados de ativos e da estrutura económica geral. O potencial para diminuir a influência global e aumentar o risco geopolítico não era um problema. Embora eles tivessem alguma justificação, não havia propensão a culpar os “hegemonistas” ou “estrangeiros” dos EUA de forma mais geral. A insatisfação pós-bolha foi, repetidamente, descarregada nas urnas.
Tenho tendência a olhar para a bolha chinesa, com os seus 1,4 mil milhões de cidadãos e um controlo governamental sem precedentes sobre as finanças, a economia e a sociedade, como o clímax de uma bolha global de várias décadas que, em aspetos importantes, ganhou um impulso crítico inicial no Japão. A China, no entanto, utilizou a Bolha para expandir incrivelmente as suas ambições económicas, financeiras, tecnológicas e militares a nível global. Nunca é demais insistir sobre as ramificações globais de uma bolha chinesa vacilante. Há um aspeto multidimensional na corrida aos armamentos – poder económico, financeiro, tecnológico, militar e geopolítico.
Apesar da subida de 3,1% apoiado pela “equipa nacional” de sexta-feira, o Índice Compósito de Xangai caiu 4,5% esta semana. O índice CSI 500 da China caiu 7,8% nas primeiras quatro sessões da semana, o CSI 300 Financials 8,6%, o CSI Small Caps 7,8% e o índice de crescimento/tecnologia ChiNext 9,5%. O Hang Seng China Financials Index de Hong Kong caiu 7,8% esta semana. O Renminbi chinês caiu 1,3% (mínimo de 4 meses), com o Renminbi Offshore a cair 1,6%. Esta semana mostrou que os E.U.A. e a China não estão nada perto de chegarem a um acordo, como se tinha abertamente acreditado que se iria alcançar. Tudo isto mostra uma importante confirmação da Tese de Fragilidade da China – mercados e moeda
Como vai a China, assim vão os mercados emergentes. As ações asiáticas estavam sob pressão. Os principais índices caíram 4,0% na Coreia do Sul, 3,9% na Índia e 3,5% em Taiwan. Na “Periferia da Periferia”, as ações turcas caíram 5,8%. Os índices desceram 4,7% na Polónia, 3,2% na República Checa e 2,6% na Rússia. As moedas dos países emergentes sob modesta pressão durante a semana, com cerca de 1% de queda para o peso chileno, o peso colombiano, a rupia indiana e o peso mexicano. O aumento de 3,5% de sexta-feira na lira turca quase apagou totalmente as perdas do início da semana.
As ações europeias foram fracas, o que arrastou consigo as instituições financeiras também à baixa. O DAX da Alemanha caiu 2,8%, o CAC40 da França 4,0% e o MIB da Itália 4,1%. O índice de bancos STOXX 600 da Europa caiu 5,9%, com os bancos italianos a atingirem uma queda de 7,6%. O índice do Banco TOPIX do Japão caiu 4,4%, abaixo da queda de 4,1% do Nikkei. A vulnerável “periferia” europeia viu os spreads soberanos de 10 anos (face aos bunds alemães, os títulos da dívida pública a dez anos) aumentarem 19 pontos de base na Itália e 24 pontos de base na Grécia.
Porque os mercados de risco dos EUA estão sob o olhar dos observadores: resilientes ou complacentes. O S&P500 caiu 2,1%, com o Nasdaq100 a ter caído 3,3%. Os CDS sobre títulos empresariais de grau de investimento aumentaram apenas modestamente, enquanto os spreads de títulos de lixo aumentaram para o seu valor mais alto em um mês. Os ganhos nos CDS sobre os bancos foram basicamente pequenos. Os rendimentos dos títulos do Tesouro a dez anos caíram seis pontos base (para 2,47%) – com um leilão a ter atraído uma procura mais fraca (bid-to-cover) em uma década. As variações mais salientes verificaram-se no VIX. Depois de terminar na semana passada em 12,87, o VIX negociou até 18,80 na manhã de segunda-feira antes de fechar a sessão em 15,44. O VIX a seguir subiu tão alto que atingiu 23,38 nas transações de quinta-feira à tarde antes de fechar a semana em 16,04. Subscrever/vender opções de venda tem sido “dinheiro” gratuito desde a inversão de taxas de Powell. Transações em massa.
Acordo ou não acordo, esta semana levou-me a meditar sobre a próxima crise. Será, afinal, a primeira crise do mercado internacional em uma era de potências globais concorrentes. Será que os rivais se sentam à mesa das negociações à procura de obterem benefícios mútuos ou para obterem vantagens à custa do outro? Senti um certo desagrado há alguns meses, quando o presidente Trump começou a utilizar a sua conta no Twitter para atacar os mercados e a economia chinesa em dificuldades. E nesta era de chefe de Estado forte, em que situação ficarão os banqueiros centrais quando as coisas se tornarem arriscadas? Será que a era de se colocar um grupo seleto de banqueiros centrais globais partilhando a mesma visão do mundo numa sala e fornecer-lhes meios para orquestrar uma estratégia para ajudar o mundo a revitalizar-se está a seguir o seu caminho?
10 de maio – Bloomberg (Shawn Donnan, Saleha Mohsin e Ye Xie): “A administração do presidente Donald Trump disse à China que tem um mês para assinar um acordo comercial ou enfrentar tarifas em todas as suas exportações para os EUA, mesmo quando ambos os lados procuraram evitar uma rutura pública nas negociações, apesar de se estar a desenvolver uma situação de impasse. A ameaça foi feita durante as conversações em Washington na sexta-feira, horas depois de Trump ter elevado a parada, impondo uma segunda ronda de taxas punitivas em US$ 200 mil milhões a aplicar sobre os bens chineses. As negociações estão sob escrutínio minucioso em todos os mercados financeiros globais, e as ações americanas tiveram uma evolução positiva depois dos negociadores de ambos os lados terem dito que a sessão tinha corrido bastante bem. Numa série de tweets que animaram ainda mais os mercados, Trump…. declarou que as negociações com a China foram “francas e construtivas”. “A minha relação com o presidente Xi continua muito forte, e as negociações continuarão no futuro”, acrescentou Trump. Mais conversas são possíveis, mas não há plano imediato para a próxima ronda, de acordo com uma pessoa familiarizada com as negociações”.
Deve ser um mês interessante. Os chineses parecem satisfeitos por agora por caminharem suavemente enquanto carregam um grande bastão. O que é esse bastão?
8 de maio – Reuters (Yawen Chen e Kevin Yao): “Os bancos chineses reduziram os novos empréstimos em abril, após um primeiro trimestre recorde que provocou receios de mais empréstimos de má qualidade … Os bancos chineses concederam 1,02 milhão de milhões de yuans ($150.16 mil milhões de dólares) em novos empréstimos líquidos em abril…, bem abaixo das expectativas dos analistas de 1,2 milhão de milhões de yuans segundo um inquérito feito pela Reuters e dos empréstimos concedidos de 1,69 milhão de milhões de yuans em março, um valor surpreendentemente forte… Os empréstimos de yuans em circulação cresceram 13,5% em relação ao ano anterior, ligeiramente abaixo das expectativas e de 13,7% de março. O crescimento do financiamento social total (TSF), uma medida ampla de crédito e liquidez na economia, desacelerou para 10,4% em relação ao ano anterior, de 10,7% em março… O TSF total caiu muito mais do que o esperado, de 2,86 milhões de milhões de yuans em março para 1,36 milhões de milhões de yuans em abril”.
O financiamento agregado da China aumentou US$ 199 mil milhões (1,36 milhão de milhões de yuans) em abril, cerca de 18% abaixo das estimativas e 23% abaixo das estimativas de abril de 18. Além dos empréstimos bancários mais fracos do que o esperado, houve uma fraqueza contínua em vários componentes de “empréstimos sombra”, juntamente com títulos especiais do governo local. O financiamento agregado expandiu US$ 721 mil milhões nos primeiros quatro meses de 2019, cerca de 8% acima do crescimento comparável de 2018.
E enquanto abril ficou abaixo das expectativas, o crescimento dos empréstimos concedidos pela banca em variação anual foi de $1,0 milhão de milhões, ou seja 13% superior ao crescimento de 2018. Os créditos bancários cresceram $2.482 milhões de milhões, ou seja 19,0% relativamente ao ano passado. A expansão dos empréstimos ao consumidor desacelerou acentuadamente de US$ 133 mil milhões em março para US$ 79 mil milhões em abril. O crescimento do crédito ao consumo em variação anual foi de $ 349 mil milhões ou seja de cerca de 2% de crescimento relativamente a 2018. Os empréstimos ao consumidor expandiram 17,3% no ano passado, de 40% em dois anos, de 75% em três anos e de 138% em cinco anos.
A desaceleração do crédito em abril é provavelmente um reflexo da decisão de Pequim de restringir um pouco as condições de empréstimos. Será interessante ver se os formuladores de políticas voltam agora a aplicar condições mais fáceis.
