PITIÉ-SALPÊTRIÈRE: O MINISTRO CHRISTOPHE CASTANER NÃO GOSTA DA VERDADE – UM MINISTRO DIGNO DO SEU PRESIDENTE – por RÉGIS DE CASTELNAU

Régis de Castelnau (Original aqui) – 4 maio 2019- Publicação autorizada

Selecção, introdução  e tradução de Júlio Marques Mota

 

Meus caros

Será Macron diferente de Orban e de outros populistas  de direita pregando uma coisa e fazendo outra, pondo de uma ou de outra maneira as liberdades fundamentais em perigo? Há quem diga que não. Mais ainda há quem contraponha o extremista de uma extrema esquerda ou de uma extrema direita ao extremista de um  extremo centro.

Como exemplo disto mesmo diz-nos Roland Hureaux, num artigo intitulado

O extremo centro, o populismo das elites:

“O extremo centro, uma ideologia como as outras

Uma abordagem ideológica pode ser identificada por várias características: ideias demasiado simples, como a supressão da propriedade privada ou o comércio livre universal, muitas vezes com efeitos secundários desastrosos: opressão totalitária ou regressão económica no caso do liberalismo europeu. No final, a rejeição dos povos: ontem, terão sido os dissidentes, hoje são os Coletes Amarelos.

Mas há um caráter da ideologia que, mais do que outros, não engana, é a intolerância, a recusa de conferir qualquer respeitabilidade a posições opostas. Pois toda ideologia é um projeto messiânico: a ambição de transformar radicalmente a condição humana, pela supressão deste ou daquele fundamental antropológico: a propriedade, a nação, ou o estabelecimento da democracia liberal. A oposição às ideologias não é apenas uma opinião entre outras; é considerada pelos seus apoiantes como um obstáculo a uma magnífica ambição. Os inimigos do comunismo eram “víboras lascivas”. Os inimigos do liberalismo, correta ou incorretamente assimilado às construções supranacionais em que assenta o Ocidente: a NATO, a União Europeia, etc., são relegadas para a escuridão externa onde vivem as pessoas não frequentáveis. Poucas vezes é permitido qualquer debate com eles. Dez laureados com o Prémio Nobel da Economia contestaram a relevância do euro; no entanto, não é permitido debatê-lo; no que respeita ao euro, a intimidação dos opositores é tal que o Partido Comunista e a nova Frente Nacional (Rassemblement national) já não se atrevem a questioná-lo. (…)

Em intervalos regulares, a ideologia ocidental dominante designa um bode expiatório considerado inimigo da humanidade e faz-lhe guerra; precisa produzir monstros para se justificar: de Bashar el Assad a Vladimir Putin, para citar apenas exemplos recentes. Aqueles que nos Estados Unidos e na Europa Ocidental são os mais agressivos para com a Rússia são, no plano interno, centristas.

O preço das guerras dos últimos vinte anos é devastador: mataram centenas de milhares de pessoas. No entanto, nenhuma destas guerras foi declarada por extremistas, quase todas por ideólogos mainstream., ditos centristas.  Em todo o caso, pelo menos na Europa, receberam o apoio das correntes centristas e o repúdio dos acusados de extremismo.

Diremos que o filho de Bush e a sua alma danada, Dick Cheney, responsável pela guerra do Iraque (2003), eram extremistas e talvez assim seja, mas os Clintons, Obama e seus emuladores europeus que apoiaram as suas missões de guerra: Blair, Holland, Macron, Merkel, Juncker foram considerados moderados em diferentes graus.

Os menos democráticos de todos?

Por outro lado, os presidentes americanos que passaram por homens de direita dura, Nixon, Reagan e até agora Trump, ao contrário dos anteriores, não iniciaram nenhuma guerra, mas, pelo contrário, terminaram várias guerras.

Quando a Secretária de Estado dos EUA, Madeleine Albright, disse em 1996 que o derrube de Saddam Hussein merecia que lhe fosse sacrificada  a vida de mais de 500.000 crianças iraquianas, ela expressou a opinião de uma centrista.”

Pois bem é da prática política deste extremo centro que nos fala o artigo que aqui vos deixo com a assinatura de Regis Castelnau intitulado: Pitié-Salpêtrière: O ministro Christophe Castaner não gosta da verdade -Um ministro digno do seu Presidente.

Boa leitura

Júlio Mota

***

 

Christophe Castaner. Auteurs : Yann Bohac/SIPA. Numéro de reportage: 00904975_000019

 

Ao inventar um ataque dos black blocs contra o hospital de La Pitié-Salpêtrière, à margem do dia 1 de maio, o ministro do Interior revelou o truque da lei anti-falsificação de notícias. Deverá isto ser visto como mais um desvio de um regime que gostaria de ver os meios de comunicação social à sua ordem?

O que acaba de acontecer durante as manifestações parisienses de 1 de Maio com a mentira sobre o ataque ao hospital de La Pitié-Salpêtrière é algo absolutamente extraordinário.

Uma enorme lição política

É extraordinário ter visto um poder estatal ser desencaminhado a um nível raramente atingido pela República. O espectáculo de uma imprensa nacional disponível sob as ordens deste poder é extraordinário. É  extraordinária  esta mobilização de uma classe intelectual e mediática que embarca numa  corrida  de disponibilidade para divulgar uma mentira de Estado cuja evidência poderia ter sido óbvia utilizando um mínimo de pensamento crítico.

Mas, finalmente, que lição política nos ensinou o dia 2 de Maio e que lição reveladora sobre a crise que está a abalar a sociedade francesa?

Todos sabem agora o que aconteceu na tarde de 1 de maio no Boulevard de l’Hôpital e dentro das paredes do Hospital La Pitié-Salpêtrière. A  marcha  da manifestação foi dividida em três partes pelas forças policiais, sendo cada parte objeto de cargas policiais e utilização de canhões de água. Esta estratégia deliberadamente perigosa bloqueia os manifestantes em armadilhas das quais procuraram escapar por medo de uma possível violência policial.

Foi o que aconteceu com a intrusão de grupos pacíficos alguns momentos antes, num parque de estacionamento dependente do hospital. Pessoas, esperando que a polícia simplesmente dispersasse a manifestação na avenida, assistiram horrorizadas quando a polícia entrou no estacionamento e lançou as suas cargas policiais contra estas pessoas embora aí não ocorresse nenhum incidente. Os manifestantes espalharam-se pelo complexo do estabelecimento, que é uma verdadeira cidade com os seus edifícios e ruas. A polícia continuou a sua estratégia louca de caça ao homem neste entrelaçamento, causando o pânico.

Zero black bloc

Um grupo de pessoas sem a presença de nenhum black bloc ou vândalo refugiou-se numa passarela e, para se abrigar, tentou entrar nas instalações do que acabou por se saber ser a unidade de cuidados intensivos do hospital. Com o profissionalismo e a serenidade que caracterizam a equipa de enfermagem em geral e os serviços de terapia intensiva em particular, aqueles que estavam de plantão no dia 1º de maio opuseram-se calmamente à intrusão. E com o passar do tempo, as coisas acalmaram. Para medir a realidade desta apresentação, é ideal ver os vídeos dos eventos e ouvir o testemunho dos cuidadores clínicos envolvidos. Esta realidade foi deturpada pelo Ministro do Interior, completamente desonrado por esta ocasião. Não há duas versões do que aconteceu, como afirmam aqueles que se comprometeram imprudentemente, dispostos a multiplicar as distorções ao que se passou. Só há uma verdade, a verdade dos factos.

Essa é a primeira lição. Em benefício de seus pequenos interesses políticos, durante um período eleitoral, o responsável pela ordem pública não hesitou em aproveitar os excessos das forças policiais sob seu comando e proferiu uma série de mentiras surpreendentes para desqualificar aqueles que exercem o seu direito constitucional de manifestação. Depois de os qualificar de leprosos, preguiçosos, analfabetos, multidões odiosas, anti-semitas, facciosos, eles são chamados de monstros sanguinários que atacam o santuário absoluto da unidade de terapia intensiva de um hospital. Toda a gente sabe que Christophe Castaner nunca deveria ter sido nomeado para este cargo, esta última iniciativa é apenas mais uma ilustração impressionantemente aterradora disso mesmo.

Quando o Libération salva a honra da imprensa

A segunda lição diz respeito a todo o grupo daqueles que se apressaram a apoiar o insustentável. No entanto, a inverosimilhança da apresentação e das acusações era óbvia. Apesar disso, a pressa e a abdicação de qualquer espírito crítico e os sintomas de lealdade ao poder dominante levaram a maioria dos meios de comunicação social, com a feliz exceção do Libération, a enveredar pelo caminho da desonra profissional. Acompanhados por uma coleção de personalidades lançadas numa guerra bastante obscena de disponibilização ao serviço do governo, bombardeando o Twitter e outras redes com mensagens de ira solene condenando atrocidades. Não vamos enumerar aqueles que agora vêem os boomerangs voltarem, ocupados com contorções ridículas para se justificarem e tentarem apagar as mensagens que teriam passado através da captura de imagens. Vamos simplesmente citar Martin Hirsch, diretor da APHP, (Assistance Publique-Hospitaux de Paris) que não hesitou em mencionar a possibilidade de uma vontade mortal contra os doentes no “ataque” da unidade de cuidados intensivos.

E este conselheiro do Eliseu, autor de um estatuto vingativo e a vilipendiar  no Facebook os terroristas amarelos e negros, que desapareceu curiosamente nessa tarde. E talvez também Raphael Enthoven, duplamente imprudente, primeiro pelo revezamento apressado da mentira do próprio ministro Castaneda, depois por um compromisso aventureiro de comer o seu chapéu se se verificasse que ele estava errado.

Teremos que fazer isso, Sr. Enthoven, a sua dignidade tem esse preço, e saiba que as plumas representam a única maneira de ter sucesso nos seus fracassos. Reservaremos uma proibição para Eric Naulleau que só disse disparates e depois largou tudo.

O facto de as redes estarem cheias desses vídeos, de capturas de ecrãs televisivos, de  explicações embaraçadas, vendo uns e outros a vaguearem embaraçados e confundidos, até mesmo com um cinismo silencioso, é uma verdadeira iguaria. E que dizer do espectáculo da caricatura da crise gerada por Emmanuel Macron: a França dos que estão em cima contra a França dos que estão em baixo.

Repressão por todo o lado, justiça em parte nenhuma

É precisamente aqui que se desenrola a terceira lição. Desde que chegou ao poder, Emmanuel Macron aumentou os ataques às liberdades civis. Como única resposta à crise política que provocou, utilizou então a polícia para realizar uma repressão violenta, cujas brutalidade e ilegalidades se multiplicam sob o olhar das câmaras que todos os cidadãos têm agora à sua disposição, de tal forma que há hoje muitos vídeos terríveis nas redes sociais. Sob o olhar estupefacto da imprensa e das instituições internacionais, vemos por toda a França, membros das forças de segurança a comportarem-se demasiadas vezes como brutamontes a soldo de outros.

Emmanuel Macron, beneficiando da complacência angustiante da magistratura, instrumentalizou a justiça e instaurou uma repressão judicial de uma brutalidade desconhecida desde a guerra de Argel. Não se enganem, o pânico dos manifestantes na ponte em frente à unidade de reanimação Salpêtrière deriva desse medo justificado pela violência policial e brutalidade judicial, que multiplica a custódia policial ilegal e as sentenças de prisão delirantes.

Enfim, Emmanuel Macron instrumentalizou uma Assembleia Nacional servil, composta por parlamentares Godilot, parlamentares ao serviço e a soldo de alguém, que aceitam sem hesitação votar em textos gravemente liberticidas, sem que o Conselho Constitucional de Alain Juppé veja qualquer desvantagem nisso.

Monopólio da verdade

E foi assim que conseguimos a famosa lei anti-falsificação de notícias. A adoção desta lei foi preparada através de uma campanha de propaganda pontuada por sondagens tendenciosas, pela diabolização sistemática das redes sociais e pela denúncia do ódio que alegadamente transmitem. A Assembleia deu as ferramentas legais de poder para  se assumir uma forma de monopólio estatal da verdade. Recorde-se que este texto repressivo permite atacar a liberdade de expressão em proporções mais do que alarmantes. Foi atribuída competência ao juiz que aprecia o pedido de medidas provisórias, de decidir no prazo de 48 horas, para dizer qual é a verdade objetiva, com o poder de proibir qualquer outra narrativa e de impor pesadas sanções aos hospedeiros de sítios eletrónicos  e às plataformas eletrónicas. O Ministro da Tecnologia Digital anunciou uma nova lei que reprime a liberdade de expressão para assim : “combater o ódio nas redes“. O alvo óbvio é a Internet, com o objetivo de silenciar quaisquer palavras que não venham do governo e daqueles que o apoiam – a maior parte da imprensa está nas mãos de grandes interesses financeiros. Trata-se de uma situação surpreendente que leva os principais produtores de notícias falsas, ou seja, as autoridades estatais, a inverter a acusação para assim violar a liberdade de expressão. Karl Rove, que foi conselheiro de George Bush no momento da onda de mentiras estatais para justificar a guerra de agressão contra o Iraque, teorizou esta estratégia:

“Os jornalistas referem-se à realidade e acreditam que as soluções emergem do estudo de uma realidade discernível… Mas já não é assim que o mundo funciona… Agora somos um império, e quando agimos, criamos a nossa própria realidade. »

Christophe Castaner e aqueles que são as suas correias de transmissão também queriam criar a sua própria realidade. No entanto, acaba de ocorrer um acontecimento de grande alcance em que a Internet e as redes tornaram possível pôr fim àquilo que não passava de uma falsa notícia de Estado e repor a verdade na cara de toda a gente. O Ministro do Interior proferiu oficialmente uma mentira destinada a desqualificar aqueles que se opõem ao poder que ele encarna, uma mentira transmitida por uma imprensa complacente e conivente. Foi a informação irrefutável e compartilhada que circulava nas redes sociais que forçou os mentirosos a fazerem uma  marcha atrás patética. A realidade e a verdade foram restauradas graças aos cidadãos que recolheram os vídeos, os publicaram e testemunharam através da Internet.

Quem é um conspirador?

Na manhã do dia 2 de maio, os franceses ao ouvirem Christophe Castaner, ao abrirem o seu jornal, ao ligarem a sua televisão e rádio, souberam que uma quadrilha de black blocs tinha invadido a unidade de terapia intensiva de um grande hospital para cometer violências e colocar em perigo a vida dos pacientes. 12 horas depois, sob o efeito da tomada da palavra pelos cidadãos mobilizados, a mentira desabou. O poder e os seus epígonos foram forçados a recuar em desordem. Sabemos agora quem é produtor de notícias falsas, quem mente, quem é conspirador e quem é violento.

E sabemos também porque é que estas pessoas, que têm medo da verdade, querem bloquear os instrumentos da nossa liberdade de expressão.

 

Fonte: Régis de Castelnau, Revista Causeur – Pitié-Salpêtrière: Christophe Castaner n’aime pas la vérité- Un ministre digne de son président. Publicado a 4 de Maio de 2019. Texto disponível em: https://www.causeur.fr/pitie-salpetriere-castaner-macron-fake-161149

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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