HUMANIDADES. Uma inutilidade mais do que necessária. Por Onésimo Teotónio Almeida

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Muito obrigado ao Professor Onésimo Teotónio Almeida por autorizar a publicação deste texto

Palestra proferida por ocasião do 42º aniversário do Instituto de letras e Ciências Humanas da Universidade do Minho, 2017 (texto original aqui)

 

Humanidades – uma inutilidade mais do que necessária

Onésimo Teotónio Almeida (Brown University)

The graduate with a science degree asks, ‘Why does it work?’

The graduate with an engineering degree asks, ‘How does it work?’

The graduate with an accounting degree asks, ‘How much will it cost?’

The graduate with a liberal arts degree asks, ‘Do you want fries with that?’

 

Deveria considerar um facto triste ter de vir a público defender as Humanidades. Não o considero, apenas porque afinal isso me oferece a oportunidade de vir aqui falar delas, ou seja, de uma temática que me toca profundamente e em que vivo mergulhado há décadas, profissional e pessoalmente.

Triste é ter de fazê-lo num país e, pior ainda, num Continente que, durante séculos, se ufanou de ter criado uma tradição universitária em que as Humanidades desempenhavam um papel vital, roçando o domínio das essências. Durante a segunda metade do século XX, testemunhei de perto o orgulho europeu e mesmo a sobranceria com que as suas universidades. demarcando-se das norte-americanas, que ascendiam a olhos vistos mas, do ponto de vista europeu, se limitavam a um crescimento nos domínios da ciência e da tecnologia. Nos campos das ciências sociais e sobretudo das Humanidades, o bastão continuava em mãos europeias e de modo tão sólido que não se vislumbrava a mínima hipótese de assim não continuar a ser em perpetuidade. Filha da Grécia, a Europa gerara no seu seio os filhos das Luzes que, por sua vez, deram à luz a modernidade.

Infelizmente, tal como acontece com o futuro, já não é o que era. Mahatma Ghandi, quando lhe perguntaram o que pensava da civilização europeia, respondeu: Seria uma boa ideia. Todavia não irei tão longe. A Europa foi e ainda é uma grande civilização. Tem-se, porém, entregado a uma cópia apressada de um filho, os EUA, acabando em parte por assimilar o pior sem reparar que algo importante se instalou no outro lado do Atlântico. Entre esse algo, está o cuidado em preservar o melhor das Humanidades. E se as universidades estaduais estão de algum modo a seguir o mau caminho europeu, a estrutura tradicional do college americano continua a incluir disciplinas obrigatórias de humanidades para quem se concentra nos cursos de ciências.

Não é, contudo, minha intenção vir aqui tecer um panegírico da universidade norte-americana. Pareceu-me, todavia, ser uma oportunidade, a não deixar passar, esta de fazer um reparo crítico aos danos que a velha Europa está a infligir a algo que é e deveria continuar a ser parte integrante da sua herança cultural, da sua identidade.

As últimas décadas na Europa têm sido difíceis para as Humanidades, que estão hoje quase encostadas à parede com a ameaça de acabarem num canto, se não encontrarem uma forte justificação para a sua existência. Se não forem assassinadas, pelo menos estarão moribundas, ou reduzidas a objeto de museu.

Tentativas de defendê-las têm surgido de diversos flancos. Hoje, circula por todo o lado a proposta de Nuccio Ordine. Cansado certamente de espremer argumentos que resultaram em pouco, decidiu entrar no terreno do inimigo e declarar peremptoriamente: “Ah! Somos inúteis?! Pois somos. Mas isso não diminui o nosso valor”. Refiro-me, está claro, ao manifesto A Utilidade do Inútil, hoje traduzido do original italiano em várias línguas, incluindo em edição portuguesa de há um ano [1].

O autor recorreu a uma famosa afirmação de Pierre Hadot sobre a filosofia: “E o papel da filosofia é, precisamente, a utilidade do inútil ou, se assim quisermos, ensinar a distinguir entre um sentido e outro da palavra ‘útil’ ” [2].

Lê-se com gosto esse manifesto de centena e meia de páginas que, pelo menos, deveria envergonhar a supina e arrogante ignorância dos poderes, hoje obcecados com a produtividade e o lucro, quantificando tudo e reduzindo a inútil o não quantificável. Feio, mas na mouche, aquele argumento: “0 lugar mais útil da casa é uma retrete”[3].

Não tenciono, todavia, regurgitar os argumentos de Nuccio Ordine, nem sequer os de Martha Nussbaum, minha antiga colega na Brown e autora de uma hoje clássica apologia das Humanidades, aliás referida nesse livro de Ordine: Not For Profit. Why democracy needs the humanities [4]. 0 que, na verdade, pretendo fazer nesta ocasião é partir de um texto que considero de alto gabarito, e que Ordine acrescentou no seu livro em apêndice à sua defesa. Ao falar um dia sobre este tema em Nápoles, um amigo fez-lhe oferta de um antigo texto com um título semelhante ao seu. Tratava-se de “A Utilidade do saber inútil”, do cientista Abraham Flexner [5]. Confesso sentir-me mais próximo do tipo de argumentação desenvolvida por Flexner. Todavia, também não virei aqui repeti-la. Referirei apenas um ou outro ponto e partirei daí para a enumeração doutros, baseado na minha própria experiência académica de mais de quatro décadas de ensino de Humanidades.

A dada altura do seu ensaio, Flexner recorda que dois cientistas famosos, Clerk Mawell e Heinrich Hertz, realizaram o seu trabalho “sem que lhes ocorresse a ideia de lhe dar uso”. E continua:

[…] em toda a história da ciência a maior parte das grandes descobertas, que depois se revelaram benéficas para a humanidade, foram feitas por homens e mulheres não motivados pelo desejo de serem úteis, mas pelo desejo de satisfazerem a sua curiosidade.[6]

Flexner prossegue declarando taxativamente:

“As instituições de ensino deviam dedicar-se à educação da curiosidade. Quanto menos se distraírem com considerações de aplicação imediata, maior será a probabilidade de contribuírem não só para o bem da humanidade, mas também para a igualmente importante satisfação do interesse intelectual, que se tornou, podemos dizê-lo, a paixão dominante da vida intelectual nos tempos modernos.”[7]

Estou já a antecipar uma objeção vinda dos presentes: mas afinal Flexner está apenas a defender aquilo que hoje existe nas grandes universidades, o Basic Research, aquele para o qual a prova de utilidade não é exigida como legitimação, ou justificação. É verdade. Todavia, o pressuposto dessa investigação básica, sem utilidade à vista, é que ela acabará por produzir benefícios práticos; de ordem não antecipada e em áreas por vezes completamente inesperadas. Por outras palavras, a utilidade continua sendo um critério, ou uma condição sine qua non para obtenção de financiamento. Com base na experiência passada, pode-se garantir alguma utilidade futura. Ela estará sempre no horizonte, porque virá de certeza, pese embora o nosso desconhecimento sobre o seu tipo e moldes.

Granted, como se diria em inglês. Cancedo, dizíamos nós em latim no tempo da educação escolástica e das sabatinas. Certo. É esse precisamente o argumento que pretendo desenvolver. As Humanidades oferecem uma formação básica, transmitem um conjunto de capacidades e valores de imensa utilidade, embora mensurável apenas a muito longo prazo. Esses valores e capacidades serão, todavia mensuráveis, sem dúvida, quer em termos individuais quer em termos coletivos. Isto é, o percurso de vida de cada estudante, bem como o percurso da sociedade em que se integra, medidos no seu conjunto, constituirão as provas da utilidade dessa aprendizagem básica. Se ela nem sempre é mensurável em termos quantitativos, e porque na vida existe uma esfera vasta, porém não menos real, de realidades que esca­pam a qualquer tentativa de quantificação. E, quem tiver dúvidas, tente medir o sabor de um bacalhau à Narcisa (isto para nos quedarmos em níveis qualitativos reconhecíveis por qualquer bracarense, mesmo que não saiba medi-los).

Darei exemplos concretos e começarei mesmo pelo ensino da língua materna, que reputo fundamental entre as disciplinas universitárias. Com efeito, conhecer devidamente a língua – lê-la e escrevê-la bem, com rigor e propriedade, conhecer-lhe as estruturas profundas e saber manejá-la é fundamental para o aprofundamento da capacidade de pensar. E aqui, o grau mais elevado, ou mais profundo, se preferirem, do pensamento só se consegue pela escrita. Apenas quem sabe escrever bem consegue aprofundar devidamente a sua reflexão crítica sobre qualquer assunto. Tentem os cientistas escrever mal um artigo na sua área de especialidade, e procurem submetê-lo a uma revista de reputação internacional, para verem o destino que os espera. Se os alunos das ciências não dominarem a língua, dificilmente conseguirão articular e transmitir os seus conhecimentos. Para quem esteja a trabalhar em ciências aplicadas, a situação é idêntica. Se quiserem prová-lo, tentem escrever mal um relatório ou apresentem a concurso uma proposta mal escrita, frouxamente argumentada. O mesmo serve para outras áreas profissionais, como por exemplo a advocacia.·Como pode um advogado ter sucesso se desconhece os segredos da língua e nunca desenvolveu as suas capacidades de expressão verbal e escrita?

O ensino da língua materna não pode nem deve terminar com o ensino secundário. Qualquer aluno universitário, pelo menos os do primeiro ano, deveria inc1uir no seu currículo unidades disciplinares que lhe permitissem desenvolver a língua e as suas capacidades de expressão. A literatura, devidamente ensinada, é um veículo fulcral, se bem que não exc1usivo, para esse efeito. Não resisto a apontar aqui um bestseller americano intitulado The Sense ofStyle, escrito por um dos grandes cientistas sociais norte-americanos, famoso pela sua grande capacidade, elegância e clareza na comunicação escrita, embora sobre questões complexas. É de Steven Pinker, professor de Psicologia em Harvard e autor de clássicos sobre Linguística, Psicologia e Psicolinguística [8]. A falta que faz não existir nenhum livro em Portugal que faça pela nossa língua o que esse livro de Pinker consegue, adaptando para os dias de hoje os ensinamentos de The Elements of Style, de Strunk and White, um clássico que tem influenciado o ensino do inglês a gerações e gerações de norte-americanos. 0 subtítulo desse livro sintetiza bem o que atrás tentei dizer sobre a importância do conhecimento da língua para um pensamento crítico: The Thinking Person sGuide to Writing in the 21’t Century!

Argumentarei de seguida em favor da importância de uma hoje considerada inútil área do saber: a Filosofia. E faço-o na sequência do que acima afirmei acerca da língua. A Filosofia, ensinada não apenas como hist6ria da filosofia, mas como análise crítica de problemas que herdámos dos gregos e que são profundamente reais, permite o desenvolvimento do pensamento crítico, hoje básico em qualquer área do saber. Não a filosofia dogmática transmissora de saberes feitos, cristalizados, mas a que ensina o aluno a penetrar profundamente nas questões, partindo-as em duas ou em mais, como quem parte átomos. Esse saber é transferível para todas as outras áreas do conhecimento. Ele alia-se ao conhecimento da língua materna porque, na verdade, não pode nunca desligar-se dela. Ambas estão indissociavelmente imbricadas uma na outra. Contudo, ao desenvolver o pensamento crítico, a filosofia ensina também a lógica e desenvolve a capacidade de argumentação. Como é possível um advogado não estudar Lógica, por exemplo? Ou não aprender a escrever textos onde seja requerido o desenvolvimento de argumentos? Mas podemos ir bastante mais longe: os cientistas também argumentam. E têm de pensar criticamente, aperceber-se das implicações dos problemas que investigam.

De entre as diversas áreas da Filosofia, deixem-me acentuar a importância da Ética. Antes disso, porém, terei de tecer algumas considerações preambulares.

Há alguns meses, numa intervenção minha num congresso interdisciplinar, uma figura mediática nacional objetou quando falei em ética, pois, segundo ela, “já ultrapassámos o tempo dos moralismos”. Teria ficado boquiaberto se não estivesse acostumado a essa confusão estabelecida entre o moralismo conservador e a ética. Há poucos anos mantive uma suave polémica nos jornais com um escritor que incorria em equívoco semelhante [9]. Na verdade, por se ter rejeitado a moral católica dominante durante séculos em Portugal, não significa isso que tenhamos abolido a ética. Não há muitas décadas, entranhámos a estrutura de fundo moderna do pensamento empírico-racional, no entanto muita gente não se apercebeu de que esse modelo cobre apenas uma pequena dimensão das nossas vidas, precisamente aquela que nos permite cruzar os dados dos sentidos com as regras da lógica. Esse universo, por mais vasto que seja, é limitado e funciona dentro de outro, de natureza não-racional, o que não significa “irracional”; simplesmente não pertence ao domínio do racional. Trata-se do domínio das emoções. Se a esfera empírico-racional é a dos factos, das leis da natureza e da ciência e tecnologia, o universo não-racional é o espaço dos valores, isto é, o da ética e da estética. Constituem realidades incontornáveis, se bem que não-captáveis nos esquemas empírico-racionais. Aí, a lógica continua a ser a mesma do primeiro universo, contudo os factos dão lugar aos valores e estes são de carácter subjetivo, enquanto os factos são por natureza objetivos. Nem a ciência nem a tecnologia possuem resposta para os valores éticos. As religiões tomaram conta deles e organizam-nos, de modo a responderem a questões de uma dimensão mais vasta: a metafísica. Elas respondem a perguntas às quais também as ciências não conseguem responder, precisamente por essas interrogações caírem fora da sua alçada. São as que Dostoievski levantou em Os Irmãos Karamazov: “Quem sou? De onde venho? Para onde vou?” No mundo moderno, confrontando-nos nós com a mul­tiplicidade de respostas a essas perguntas, porque não podem todas estar corretas e, na impossibilidade de, fora da esfera da fé necessária aceitá-las, resta-nos a saída pragmática de resolver fora desses quadros as questões dos valores. Quando isso acontece, renunciamos às grandes respostas e limitamo-nos à criação das regras básicas da convivência humana, a fim de não acabarmos matando-nos uns aos outros. É aqui que entram a ética e a teoria política como espaço organizador dessas normas de coexistência social. Neste contexto, a psicologia, a antropologia, a sociologia – ciências que procuram funcionar o máximo possível dentro do modelo empírico-racional – entram em cena. São chamadas ciências socias ou humanas porque o modelo exclu­sivamente empírico-racional é demasiado limitado e, por definição, não abrange a problemática dos valores, por eles serem de ordem não-racional, como acima referi. Assim, a pergunta surge inevitável: e como lidar então com esta problemática?

O Público publicou há semanas uma longa entrevista com António Damásio. A dada altura da conversa, o cientista fez uma afirmação que o jornal pôs em destaque: “Quando me perguntam qual é o maior cientista de sempre, respondo: na minha área é Shakespeare”[10]. Gostei de ler. No meu livro De Marx a Darwin – a desconfiança das ideologias [11], afirmo a dada altura, depois de referir que Marx entendia muito pouco de psicologia humana, que “o próprio Shakespeare sozinho penetra muito mais nas profundezas misteriosas e obscuras da psicologia humana” do que Marx” [12].

Continuo inalterável nessa convicção e agrada-me deveras saber que alguém como Damásio se situa em idêntico comprimento de onda. A esfera do não-racional – o universo das emoções – escapa a abordagens científicas. É estudada pelas ciências sociais, mas mesmo essas, por definição, quedam-se aquém do universo total das emoções. A filosofia e a literatura, em contra­partida, acumularam ao longo de séculos o acesso privilegiado a elas. Daí a força de, por exemplo, Shakespeare, na literatura; e de Platão, na filosofia.

A profundidade do conhecimento do ser humano revelado por qualquer uma dessas figuras permite-nos penetrar numa esfera da humanidade aonde a ciência não chegou nem sequer pretendeu chegar.

As universidades devem formar cientistas e técnicos, mas eles vão lidar com o mundo real e com outros cientistas e técnicos que são também seres humanos. A verdade, contudo, é que a maior parte das pessoas com quem eles vão lidar são criaturas humanas com toda a sorte de problemas por resolver. A universidade, ao preparar os quadros que vão assegurar o funcionamento da sociedade nos seus mais variados sectores, não poderá nunca esquecer essa dimensão. Max Weber, um dos pais fundadores da sociologia moderna e, na verdade, a grande figura-base das ciências sociais contemporâneas, defendia que os académicos e cientistas deveriam, em ocasiões específicas, falar qua cientistas (enquanto cientistas), mas também deveriam intervir qua cidadãos (enquanto cidadãos). As duas dimensões coexistem, inseparáveis uma da outra. Ao formarmos os nossos cientistas e técnicos futuros, temos de moldá-los também como cidadãos.

Quem não vir utilidade a longo prazo nesta proposta não deve também entender muito da vida, nem de seres humanos. Afinal, o que é a política senão a intervenção das pessoas qua cidadãos na solução dos seus problemas e na escolha dos que vão por delegação trabalhar na solução deles?

Confesso-me um grande admirador da ciência. Eu próprio leciono um curso sobre “0 Dealbar da Modernidade”, fundamentalmente sobre o emergir do espírito empírico nos séculos XV e XVI, para que os portugueses deram um contributo fundamental. Estudei Filosofia e História da Ciência e acho que todos os estudantes de Humanidades deveriam curar-se do analfabetismo nas ciências, adquirindo nela alguma literacia, porque hoje os cidadãos são cada vez mais chamados a intervir, pelo menos votando em matérias com afinidades científicas que nos afetam a todos. Mas o mesmo tem de acontecer com os estudantes de ciências. É imperativo adquirirem uma base sólida de conhecimentos no domínio das humanidades. Num mundo cada vez mais complexo, o estudo especializado de uma área científica específica, não permite um conhecimento abrangente, muito menos fornece pistas para o entendimento das questões da ciência e tecnologia em sociedade. As Humanidades abrem os horizontes e permitem o cruzamento de saberes numa sociedade cada vez mais complexa, como é a nossa.

Ensinam-nos a pensar criativamente, e a criatividade é a alma mobilizadora do empreendorismo, hoje propalado pelos media como um novo sebastianismo para a pátria.

As Humanidades permitem-nos aprender os – e com -os erros do passado. Já fomos bem avisados: se os ignorarmos, estamos condenados a repeti-los. 0 estudo da História surge como peça fundamental do núcleo das Humanidades.

Mais: num mundo cada vez mais multicultural, é importante que os nossos estudantes adquiram uma formação que lhes permita compreender as culturas (e, se possível, as línguas) dos povos com quem vão lidar. Erros crassos são cometidos por quem ignora esse sector. Mesmo e sobretudo no domínio dos Negócios, a vaca sagrada do mundo presente.

As Humanidades ensinam os alunos a levantar questões, algo fundamental nos tempos que correm. Quanto mais informados os estudantes forem acerca das grandes questões da história atual, mais acutilantes serão nas questões que levantam face aos problemas que lhes compete estudar.

Uma democracia só será saudável se o grosso dos seus membros for devidamente informado e atuante. Os líderes desse corpo, mainstream, formam-se em regra nas universidades, e são quem irá liderar e indicar os rumos a seguir. Quanto mais informados e profundos forem no entendimento das questões, mais acertadas serão as suas decisões.

Tudo isso necessita de um investimento a longo prazo, nunca se podendo medir com exatidão se e quando dará frutos. Não resta, porém, dúvida de que o não investimento trará consequências nefastas. Foi Derek Bok, um antigo Reitor de Harvard, que disse: Se pensam que a educação é dispendiosa, experimentem a ignorância.

(Há uma década eu gostava de contar a reação a George W. Bush quando o então candidato à presidência dos EUA prometeu investir treze mil milhões de dólares na educação. Um crítico não se conteve: Muito bem. isso resolve o seu problema, mas … e o resto da população? Agora, porém, com Donald Trump, George Bush já não parece nada mal.)

Poderia continuar com argumentos utilitários e pragmáticos – sim, deixei bem claro que viria falar aqui na linguagem entendível pelos políticos e pela gente de negócios, por me ter como realista e reconhecer que é com eles que precisamos de discutir os orçamentos das universidades. Mas não, não vou prosseguir por esta via. Vou terminar, lembrando casos de alunos que se formaram em Humanidades e hoje desempenham papéis relevantes na sociedade norte-americana. Lecciono há 35 anos um curso interdisciplinar que cruza as Ciências Sociais com a Ética. Nele, os alunos lêem clássicos como Nietzsche, Marx, Max Weber e outros, interrogando-se sobre que valores nos restam numa sociedade moderna e plural como a contemporânea. Esses alunos provêm de todas as áreas de especialização académicas, mas sobretudo das ciências – das Naturais, da Engenharia, das Cognitivas, das Ecológicas e das Ciências Sociais. São americanos, chineses e indianos, judeus, católicos e protestantes, agnósticos e muçulmanos, confucionistas, hinduístas e ateus. Todos se interrogam e embrenham profundamente na busca de respostas para a questão dos valores, que os toca profundamente como humanos e cidadãos. Poderia contar-vos a historia do Pat, licenciado em Filosofia no Dartmouth College, onde produziu como tese a tradução do Livro de Lao-Tse, e que depois se doutorou em Filosofia em Stanford com uma dissertação sobre John Rawls. Hoje é o CEO duma empresa por ele fundada, a Overstock. com, com mil e quinhentos empregados.

O Tim Newell, licenciado também em Filosofia, foi assistente do Vice-Presidente Al Gore para questões de ciência. o Alan Lewis, licenciado em Estudos Portugueses, fundou uma empresa de souvenirs do Colorado, onde vive. A Mary Joe Kaplan, formada em Humanidades, e pediatra e professora associada da Brown. 0 Roy Chen, licenciado em Literatura Comparada e tradutor para inglês do escritor português Valter Hugo Mãe, está a caminho de ser um grande médico. A Aishwarrya Arivoudainambi que se entusiasmou pelo estudo da história das ideias, e agora está completando um doutoramento em ciências cognitivas. 0 Yashil Sukurdeep é hoje um respeitável matemático. 0 Scott Warren criou e lidera uma grande iniciativa, destinada à formação do espírito democrático nos jovens. 0 Jayku­mar Menon, atualmente um reputado advogado internacional, campeão dos direitos humanos. 0 Nathan Lui, a trabalhar numa grande empresa imobiliária com base em Hong Kong. Tudo gente formada em Humanidades, ou numa complexa mistura de disciplinas que felizmente o sistema universitário americana permite e o europeu não, muito embora tivesse tido no processo de Bolonha a oportunidade de importar o melhor que, do meu ponto de vista, os EUA poderiam oferecer.

Páro aqui, mas é longa a lista de antigos alunos que, mesmo quando voltados para as ciências, aproveitaram sempre a oportunidade que as universidades americanas, sobretudo as privadas, as liberal arts schools, fazem gala de proporcionar aos estudantes.

É demasiado cedo para um jovem de hoje, em qualquer parte do mundo, decidir aos 18 anos o que vai fazer durante a sua vida profissional. Por isso, os currículos dos cursos de licenciatura deveriam ser um conjunto de unidades disciplinares diversas, com uma especialização, é certo, mas também com uma abertura abrangente para diversas áreas que cada aluno pudesse escolher conforme as suas capacidades e inclinações naturais. Uma decisão dessas sobre as suas carreiras não deveria de modo nenhum recair sobre o Estado. As empresas não necessitam de gente com preparação afunilada numa área específica. Com tudo a mudar tão vertiginosamente, uma empresa moderna requer alunos que saibam ler criticamente e assimilar informação, investigar com profissionalismo, expressar-se com propriedade, escrever relatórios e propostas profissionais, saber falar em público, e nada disso as ciências e tecnologias têm a missão de ensinar. 0 sistema universitário português beneficiaria imenso de uma abertura ao mundo moderno, e nele as Humanidades são imprescindíveis. Os grandes problemas de hoje não são meramente científicos e tecnológicos, mas sociais, políticos e, no fundo, humanos. Além disso – e com a idade esta parece-me uma verdade insofismável – as melhores coisas da vida não são quantificáveis. Nem sequer em salários ou contas do banco.

Todas as épocas são dominadas por modas. Há, porém, questões de fundo transversais às modas que não podem de modo nenhum ser ignoradas. A questão dos valores é uma delas. E ela é, no fundo, a mesma desde o tempo de Sócrates, Platão e Aristóteles, tetravós da modernidade de que hoje nos orgulhamos. Lê-los e estudá-los é meio caminho para uma cidadania ilustrada, informada, lúcida. 0 estudo do percurso europeu e o dos erros cometidos aqui na velha Europa e no mundo todo, têm de ser estudados devidamente a fim de não serem repetidos. Se a Universidade se demite desse papel, não passará nunca de uma antiga Escola Industrial e Comercial, com a diferença de que essa velha instituição portuguesa também ensinava a escrever português escorreito e transmitia também maneiras civilizadas de ser e estar.

Aos meus colegas das Humanidades deixo aqui um apelo: Não desistam da luta. Uma vez mais na história da Europa os bárbaros estão à porta. A civilização que herdámos tem de ser orgulhosamente recebida, aperfeiçoada e transmitida aos nossos filhos e netos. Apesar dos temíveis empecilhos temporários como os Hitlers, os Khomeni e os Trumps. É uma questão de sobrevivência na liberdade criativa, na solidariedade atuante, e no gozo dos bens da terra que, infelizmente, por tão poucas décadas a cada um de nós é dado usufruir.

Vou terminar mesmo. No entanto, gostaria de voltar ao início e ao tema da utilidade do que só aparentemente é inútil. Citarei, a encerrar, uma passagem do final do ensaio de Abraham Flexner, mencionado a abrir esta minha preleção:

O verdadeiro inimigo da espécie humana não é o pensamento temerário ou irresponsável, esteja ele certo ou errado (bem, isto foi escrito sem o autor sonhar que um dia haveríamos de ter um Donald Trump a presidir aos destinos da mais poderosa nação do planeta), mas sim aquele que tenta moldar o espírito humano de forma a que ele não se atreva a bater as asas e voar” [13].

Não, a educação universitária não pode ser um afunilamento das mentes dos jovens, mas um abrir delas ao enorme potencial que cada ser humano acarreta consigo. Os que se entregam às universidades esperam que elas os impulsionem, animem, entusiasmem e estimulem a desenvolver.

 

Notas

[1] Com um ensaio de Abraham Flexner. Trad. de Margarida Periquito (Lisboa: Agora, 2016).

[2] Citado em epígrafe de Pierre Hadot, Exercices Spirituels et Philosophie Antique. Ordine, pag. 7.

[3] Ordine. p. 66.

[4] Princeton, NJ: Princeton University Press, 2010

[5] Publicado originalmente com o título “The Usefulness of useless knowledge”, na revista Harper’s Magazine, em Outubro de 1939.

[6] P. 157

[7] P. 157

[8] New York Penguin Books, 2015.

[9] “Literaturas, nuvens e nevoeiros”, Jornal de Letras, Aries e Ideias, 11 de Setembro de 2013.

[10] Público 5 de Novembro de 2017 (aqui). António Damásio (1944-) é médico neurologista e neurocientista, estudioso de neurobiologia do comportamento humano e investigador das áreas cerebrais responsáveis pela tomada de decisões e conduta. É professor na Universidade do Sul da Califórnia.

[11] Lisboa: Gradiva, 2009; acaba de sair uma segunda edição.

[12] P.22.

[13] P. 170.

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O autor (N.E. Fonte:Wikipedia aqui)

Onesimo Teotonio Almeida Onésimo Teotónio de Almeida (1946-) é do Pico da Pedra, S. Miguel, Açores. Licenciado em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa, é Doutorado em Filosofia em 1980 pela Universidade Brown (Department of Philosophy), em Providence, Rhode Island, EUA. Em 1981 foi nomeado Assistente do Centro de Estudos Portugueses e Brasileiros dessa mesma universidade; em 1987, promovido a Professor Associado; em 1991, a Professor Catedrático. O Centro entretanto passou a Departamento e foi dele seu diretor de 1991-2003. É Fellow do Wayland Collegium for Liberal Learning, um Instituto de Estudos Interdisciplinares na Brown University, onde leciona uma cadeira sobre Valores e Mundividências. Leciona também no Center for Early Modern Studies, da mesma universidade.

Para além das obras em livro, tem centenas de escritos em revistas e livros coletivos. Fundou e dirige a editora Gávea-Brown, dedicada à edição em inglês de obras de literatura e cultura portuguesas, que edita também a revista Gávea-Brown – a Bilingual Journal of Portuguese American Letters and Studies, que ele fundou e codirige. É co-editor do e-Journal of Portuguese History e de Pessoa Plural, ambas revistas eletrónicas editadas em cooperação internacional e publicadas na Brown University. É co-editor de uma colecção de obras de Lusophone Studies na Sussex Academic Press e co-dirige a série Bellis Azorica, de obras açorianas em tradução inglesa, na Tagus Press / University of Massachusetts Press.

Desde 1979 mantém um programa bimensal no Portuguese Channel, de New Bedford, Massachuetts, e durante dois anos manteve um programa semanal – “Onésimo à conversa com…” – na RTP Açores. Foi colaborador regular n’ O Jornal e no Diário de Notícias. É colaborador regular na revista LER, na PNETLiteratura e no Jornal de Letras. Entre as organizacões a que pertence, é membro da direção da PALCUS – Portuguese-American Leadership Council of the United States. Foi Vice-Presidente do Rhode Island Council for the Humanities e da Associação Internacional de Lusitanistas. É Trustee do  New Bedford Whaling Museum. Foi eleito Membro da Academia Internacional de Cultura Portuguesa sócio-correspondente da Academia da Marinha e da Academia das Ciências de Lisboa.. Em 2013 recebeu um Doutoramento Honoris Causa pela Universidade de Aveiro.

A 9 de junho de 1997, foi agraciado com o grau de Comendador da Ordem do Infante D. Henrique. A 28 de setembro de 2018, recebeu a Grã-Cruz da mesma Ordem.

Autor de numerosos estudos e ensaios:

  • O Século dos Prodígios – A Ciência no Portugal da Expansão (2018). Prémio Gulbenkian Portugal no Mundo, Academia Portuguesa de História, 2018; Prémio D. Diniz, Solar Casa de Mateus, 2019.
  • Humanidades. Uma inutilidade mais do que necessária (Braga: Universidade do Minho, 2017).
  • Com Roberto Carneiro e Artur Teodoro de Matos, orgs., A Condição de Ilhéu. (Lisboa: CEPCEP, 2017.)
  • A Obsessão da Portugalidade. (Lisboa: Quetzal, 2017).
  • Despenteando Parágrafos. Polémicas Suaves (Lisboa: Quetzal, 2015)
  • Minima Azorica. (Lajes do Pico: Companhia das Ilhas, 2014)
  • Pessoa, Portugal e o Futuro (Lisboa: Gradiva, 2014)
  • Com Artur Goulart Melo Borges e Olegário Sousa Paz, orgs., “Casa Santa Mimosa… Olhares sobre o Seminário de Angra, 1950-1970 (Angra do Heroísmo: Instituto Açoriano de Cultura, 2014).
  • Utopias em Dói Menor – conversas transatlânticas com Onésimo. Conduzidas por João Maurício Brás (Lisboa: Gradiva, 2012)
  • Com Otília Pires Martins, (orgs.), Eugénio Lisboa: Vário Intrépido e Fecundo – Uma Homenagem (Guimarães: Opera Omnia, 2011.
  • Com Leonor Simas-Almeida e Maria João Ruivo, (orgs.) Fernando Aires – Era Uma vez o Seu Tempo. Ponta Delgada: Instituto Cultural de Ponta Delgada, 2011.
  • O Peso do Hífen. Ensaios sobre a experiência luso-americana. Lisboa: Imprensa das Ciências Sociais, 2010.
  • Açores, Europa – uma antologia. Selecção, Organização e Introdução. Angra do Heroísmo: Instituto Açoriano de Cultura, 2010.
  • De Marx a Darwin – A desconfiança das ideologias. Lisboa: Gradiva, 2009. 2010 Prémio Seeds of Science para Humanidades e Ciências Sociais.
  • Com Leonor Simas-Almeida, Eduíno de Jesus – A Ca(u)sa dos Açores em Lisboa. Homenagem de amigos e admiradores.Angra do Heroísmo: Instituto Açoriano de Cultura, 2009.
  • Com Alice Clemente, (orgs.) George Monteiro: The Discreet Charm of a Portuguese-American Scholar. Providence, RI: Gávea-Brown, 2005.
  • National Identity – a Revisitation of the Portuguese Debate. NUI MaynoothPapers in Spanish, Portuguese and Latin American Studies. No. 5. Maynooth, Ireland: National University, 2002.
  • Com Manuela Rêgo, (orgs.), José Rodrigues Miguéis – Uma Vida em Papéis Repartida. Actas do Colóquio no Padrão dos Descobrimentos. Lisboa: Câmara Municipal: 2001.
  • José Rodrigues Miguéis – Lisboa em Manhattan, edição traduzida e alargada e com posfácio. Lisboa: Editorial Estampa, 2001.
  • Com Manuela Rêgo, (orgs.), José Rodrigues Miguéis – 1901-1980, Catálogo da Exposição Comemorativa do Centenário de Nascimento. Lisboa: Câmara Municipal, 2001.
  • Selecção, Introdução e Organização, José Rodrigues Miguéis, Aforismos e Desaforismos de Aparício. Lisboa: Círculo de Leitores, 1996, e Lisboa: Editorial Estampa, 1996.
  • Edition of Richard Beale Davies, The Abbé Corrêa in America, 1812-1820 – The Contributions of the Diplomat and Natural Philosopher to the Foundations of Our National Life. Preface by Gordon S. Wood and Afterward by Léon Bourdon. Providence, R.I.: Gávea-Brown Publications, 1993.
  • Seleccão, Introdução e Organização, João Teixeira de Medeiros, Ilha em Terra. Ponta Delgada: Eurosigno, 1992.
  • Açores, Açorianos, Açorianidade – Um Espaço Cultural. Ponta Delgada: Signo, 1989. 2ª edição alargada (Angra do Heroísmo: Instituto Açoriano de Cultura, 2011).
  • L(USA)lândia – A Décima Ilha. Angra do Heroísmo: Colecção Diáspora, Sec. Reg. Assuntos Sociais e Dir. Serviços de Emigração, 1988.
  • Mensagem – Uma Tentativa de Reinterpretação. Prémio de Ensaio Roberto de Mesquita, Secretaria Regional da Educação e Cultura dos Açores. Angra do Heroísmo: SREC, 1987.
  • Organização e Introdução, Da Literatura Açoriana–Subsídios para um Balanço. Angra do Heroísmo: Secretaria Regional da Educação e Cultura, 1986.
  • Editor, José Rodrigues Miguéis: Lisbon in Manhattan. Providence, R.I.: Gávea-Brown, 1985.
  • A Questão da Literatura Açoriana. Angra do Heroísmo: Secretaria Regional da Educação e Cultura, 1983.
  • Selection, Introduction and Notes of The Sea Within. A Selection of Azorean Poetry. Providence, R.I.: Gávea-Brown, 1983.
  • Selecção, Organização e Introdução, João Teixeira de Medeiros, Do Tempo e de Mim. Providence, R.I.: Gávea-Brown, 1982. 2ª edição alargada: Lisboa: Peregrinação, 1988. 3ª edição, Lisboa: Salamandra, 2001.
  • Imprensa, Rádio-TV e Cinema – Cérebros do Grande Público (Angra do Heroísmo: União Gráfica Angrense, 1970).
  • Correntes D’Escritas & Correntes Descritas (Guimarães: Opera Omnia, 2019).
  • Quando os Bobos Uivam (Lisboa: Clube do Autor, 2013)
  • Onésimo. Português sem Filtro – uma antologia. Posfácio de Miguel Real Lisboa: Clube do Autor, 2011.
  • Aventuras de um Nabogador & outras estórias-em-sanduíche. Lisboa: Bertrand Editora, 2007.
  • Tales from the Tenth Island. Translation and Introduction by David Brookshaw. Bristol, UK: Seagull/Faoileán, 2006.
  • Livro-me do Desassossego. Lisboa: Temas & Debates, 2006.
  • Onze Prosemas (e um final merencório), Vila Nova de Gaia: Ausência, 2004.
  • Viagens na Minha Era. Lisboa: Temas & Debates, 2001; Círculo de Leitores, 2001.
  • Que Nome é Esse, ó Nézimo? – e Outros Advérbios de Dúvida. Lisboa: Salamandra, 1994. 2ª edição, 2002. Lisboa: Círculo de Leitores, 2004.
  • Rio Atlântico (crónicas). Lisboa: Edições Salamandra, 1997.
  • No Seio Desse Amargo Mar – (teatro). Lisboa: Salamandra, 1991.
  • (Sapa)teia Americana (contos), Lisboa: Editora Vega, 1983. Edição revista, com posfácio de Frank Fagundes. Lisboa: Salamandra, 2001, e Círculo de Leitores, 2001.
  • Ah! Mònim dum Corisco! (teatro) (New Bedford – Providence: Gávea-Chama, 1978). 2ª edição, Ponta Delgada: Eurosigno, 1991. 3ª edição Lisboa: Salamandra, 1998.
  • Da Vida Quotidiana na L(USA)lândia. Coimbra: Atlântida Editora, 1975.
  • Esperança-21 (teatro), Angra do Heroísmo, 1969.
  • O Centenário (poema-paródia). Angra do Heroísmo, 1963.

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