Sobre as razões que estão na base dos focos de tensão entre a China e os Estados Unidos – 7. A ilusão do livre-comércio . Por George Friedman

Tensão EUA China 0

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

7. A ilusão do livre-comércio  

george friedman gPF por George Friedman

Publicado por friedman logo em 7 de junho de 2018 (ver texto aqui)

Republicado por Gonzallo Rafo (ver aqui)

 

A decisão dos Estados Unidos de impor tarifas sobre o aço e o alumínio importados de certos países acrescentou-se aos receios de uma guerra comercial. Alguns acreditam que estas tarifas são um movimento perigoso dos EUA, porque vão convidar à retaliação e, portanto, poderia levar a uma quebra massiva do comércio. No entanto, o problema com esta maneira de pensar é que se centra essencialmente sobre barreiras formais ao comércio e ignora as barreiras informais e indiretas. Mesmo que haja um acordo de livre-comércio entre dois países, isso não significa necessariamente que as empresas de ambos os países possam negociar entre si sem impedimentos, como é habitualmente assumido.

Os governos têm uma gama de ferramentas disponíveis, formais e informais, concebidas para atenuar os efeitos do comércio livre. Por outras palavras, um acordo de comércio-livre poderá eventualmente acabar por evoluir para algo muito diferente. Por exemplo, podem ser colocados em vigor regulamentações que impõem custos adicionais massivos para um país exportador, forçando a aumentos nos preços. Isto não implicaria a imposição de tarifas, mas tornaria mais difícil para os exportadores competirem com os fabricantes nacionais. As leis anti trust podem ser aplicadas impondo às empresas multas e forçando-as a reduzir a sua quota de mercado. O custo da produção interna pode ser reduzido por leis de trabalho flexíveis. Os países podem também celebrar acordos sabendo muito bem que os seus consumidores têm pouco interesse em certas importações como, por exemplo, os consumidores japoneses que desprezam os carros americanos. E os exportadores podem ser obrigados a vender produtos num país através de certos grossistas que dominam o mercado interno, e terem que o fazer pode levar a que as empresas tenham de reduzir as suas receitas.

Diz-se que o comércio livre, na sua forma mais pura, é financeiramente benéfico para todos os países. Isso pode ser verdade, mas essa suposição ignora três variáveis vitais. O primeiro é o timing. Quando é que as vantagens se manifestam? Podem levar anos ou mesmo décadas. O segundo é o impacto de curto prazo vs. impacto a longo prazo. Algumas indústrias podem tornar-se pouco competitivas e até desaparecerem antes que outras floresçam. A terceira é a forma como os padrões de atividade económica mudam com base na concorrência estrangeira. Algumas empresas vão ganhar, outras vão perder.

7 A ilusão do livre-comércio 1

O comércio livre não é apenas um processo económico, é também um processo político. A destruição de uma indústria pode destruir os meios de subsistência de milhões de pessoas, mesmo se o produto interno bruto do país aumenta. Na economia, o pressuposto é que os indivíduos vão procurar maximizar o seu interesse pessoal. Estranhamente, os economistas tendem a assumir que os indivíduos vão – ou pelo menos deveriam – prosseguir esses interesses apenas através da atividade económica. Mas as pessoas também podem exercer o seu interesse pessoal politicamente. Um governo que negoceia um acordo de livre-comércio que prejudica esta geração com a promessa de coisas melhores mais tarde muito provavelmente pode enfrentar graves repercussões políticas. O próximo governo terá uma abordagem diferente.

A economia é um subconjunto da política, e o sistema político move-se para proteger os interesses dos cidadãos, mantendo a estabilidade social e, nas democracias, mantendo o governo em funcionamento. O foco sobre as tarifas passa ao lado da realidade do comércio internacional, que tem tanto uma dimensão económica, focada no aumento da riqueza das Nações, como tem uma dimensão política, focada em garantir que a riqueza não flui para as mãos de alguns, enquanto os restantes são deixados devastados.

Os Estados Unidos ainda não estão nesta condição extrema, mas este país entrou numa série de acordos comerciais que, embora benéficos à primeira vista, tiveram algumas consequências negativas. A consequência mais importante foi a externalização de fábricas deslocalizando-as para fora dos EUA, para países de baixos salários. Segundo a lei da vantagem comparativa, esta deslocalização deveria a longo prazo beneficiar os Estados Unidos. Mas vai fazê-lo a um custo enorme para um setor. O PIB pode subir, mas isso de modo algum indica que a riqueza seria distribuída de uma forma que o sistema político possa suportar.

Cada governo tem que considerar três fatores ao entrar num acordo comercial. O primeiro é a vantagem para uma indústria que terá acesso a um novo mercado. O segundo é o dano que o acordo fará sobre aqueles que vão perder os seus empregos. O terceiro, e mais complicado, é como o governo estrangeiro com quem o acordo comercial é acordado vai usar ferramentas não pautais para mudar o acordo a seu favor e, por definição, contra o seu parceiro de negociação.

As pessoas não se deviam preocupar com uma nova guerra comercial emergente porque uma guerra de guerrilha constante e intensa está já em andamento em todos os regimes comerciais para minar o acordo e voltar a moldá-lo a seu favor através de intrusões subtis. É por isso que os acordos comerciais multilaterais se têm tornado tão preocupantes. Um acordo comercial que cria um regime único englobando economias drasticamente diferentes é inerentemente não plausível. As barreiras comerciais não pautais em cada país, para não mencionar os desafios de monitorizar e aplicar o acordo, criam barreiras inimagináveis. A Organização Mundial do Comércio pode ser utilizada para resolver alguns desentendimentos, mas as suas decisões podem ser difíceis de impor.

O comércio livre raramente é livre, e quando é livre, impõe custos em lugares inesperados. A decisão dos EUA para forçar uma renegociação das relações comerciais é um resultado do facto de que certos setores da economia dos EUA foram prejudicados por regimes comerciais anteriores, e os EUA estão agora a usar o processo político para prosseguir o seu interesse próprio. Isto não é novidade, nem o é a surpresa daqueles que beneficiaram do antigo regime ou daqueles que estão ideologicamente comprometidos com a ilusão do livre-comércio. A livre-troca faz parte de uma mudança contínua nas relações económicas impulsionada por realidades políticas.

 

________________________

O autor: George Friedman é um analista geopolítico internacionalmente reconhecido e estrategista em assuntos internacionais e fundador e presidente da Geopolitical Futures. O Dr. Friedman é um autor best-seller do New York Times e o seu livro mais popular, The Next 100 Years, é mantido vivo pela presciência das suas previsões. Outros livros mais vendidos incluem Flashpoints: The Emerging Crisis in Europe, The Next Decade, America’s Secret War, The Future of War e The Intelligence Edge. Os seus livros foram traduzidos para mais de 20 idiomas. O Dr. Friedman informou várias organizações militares e governamentais nos Estados Unidos e no exterior e aparece regularmente como especialista em assuntos internacionais, política externa e inteligência nos principais meios de comunicação. Por quase 20 anos antes de renunciar em maio de 2015, o Dr. Friedman foi CEO e então presidente da Stratfor, uma empresa que fundou em 1996. Friedman recebeu o seu bacharelado pela City College da City University of the City University of New York e é doutor em Governação pela Cornell University.

 

Leave a Reply