CARTA DE BRAGA – “ler é também saber que nunca se está só!” por António Oliveira

Esta Carta é o meu acrescento pessoal a tudo o que foi dito e escrito a propósito do Dia de Camões e da Língua Portuguesa, mas também uma viagem às minhas memórias com livros, num tempo em que a maioria das pessoas pensa que eles não mostram nem deixam ver coisa alguma, ao afirmar ‘São só letras!

Por muito que lhes custe, penso que quem o afirma já esqueceu ou foi mal ensinado a juntar letras para fazer palavras, para as associar depois a outras e então conseguir perceber e interpretar um texto, com as palavras assim encadeadas.

É verdade que depois das cartilhas, as imagens passaram a ser poucas, ainda nem havia emojis e o ‘aparecimento’ das imagens na mente sempre se ficou a dever à qualidade da narrativa.

Mas é essa ‘aparição’ a fazer e transformar o leitor em autor, por já ter vivência e memórias para comparar e o ajudar também a ‘criar’ imagens próprias e, assim, aceitar ou rejeitar as propostas da narrativa e do autor.

É aí que se nota a diferença entre os dois pois, afirmou um dia Jorge Luis Borges, ‘o escritor é aquele que escreve o que pode e, por seu lado, o leitor lê tudo o que quer’.

Garoto ainda, comecei a olhar os livros na montra da pequena livraria onde ia comprar as lousas e as pontas para as riscar e depois, os aparos, os cadernos quadriculados e os de duas linhas. Entrava e via as prateleiras cheias de livros, lombadas de muitas cores e letras apelativas, a pedir mãos para os levarem dali.

O dono era baixinho, atencioso e simpático, a casa onde vivia era próxima da minha e, cada cumprimento seu deixava-me vaidoso, por até conhecer o dono daqueles livros todos.

Poucos anos depois comecei a entrar na biblioteca, também era baixinho e simpático o padre responsável e, vim a saber pelas sugestões, amante da escrita de Aquilino e de João de Araújo Correia, os que diziam das terras do norte e ‘dizem bem!’ como me ensinou e percebi depois.

Mostrou-os primeiro, na secretária ao canto esquerdo do salão da biblioteca, para mos entregar depois como se fosse um segredo dos dois mas, levar para casa durante uma semana, só os de Nuno de Montemor, ‘outro que sabe bem das terras da Beira!

Mais tarde, mas garoto ainda, conheci outra biblioteca, uma secretária grande lá ao fundo onde o senhor buscava assento quando convocava alguém ou se reclinava para leituras intermináveis.

Talvez pela quantidade das minhas perguntas, mandou-me ir lá a casa num dia que já não lembro e fui recebido por uma senhora muito antiga que, com modos não muito agradáveis ‘entra aí na biblioteca!

Olhei as paredes com cinco andares de prateleiras cheias de livros, menos a do fundo, a da varanda e onde reinava a secretária e ‘não ligues, já não é nova, está cansada, mas não quer voltar à aldeia!

Era o professor de Moral naquele meu 3º Ano do Curso Geral dos Liceus, padre e doutor já não sei em quê e, depois de me mandar sentar ‘tenho dado atenção às tuas perguntas! Precisas de ler algumas coisas que não contava dar a ler alguma vez a um jovem! Lê com muita atenção. Quando tiveres algum problema, vem falar comigo, mas não deixes que o vejam lá em casa! Se o virem diz para falarem comigo!

Demorei quase um ano a devolver o ‘Porque não sou cristão’ de Bertrand Russel e estivemos à conversa uma tarde inteira.

Voltei a vê-lo trinta anos depois e levei-lhe ‘Os descobridores’ de Daniel Boorstin.

Abraçou-me e nunca mais o encontrei!

A terminar esta quase confissão, não posso esquecer o conselho de um bom amigo e livreiro, por saber bem da importância da palavra para o escritor e para o leitor

Na verdade, ler também é saber que nunca se está só!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

3 comments

  1. Arlete Ozório

    Eu também não aceito as normas da nova gramática. Não fazem sentido. Talvez por isso Portugal, berço de nossa língua, não aderiu às novas regras.

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    • Vivencia similar. Nunca tive quem me orientasse leituras. Todos os livros da biblioteca do pai foram ávidamente lidos antes dos 14. Entretanto, da Biblioteca M. vinham como a lei determinava. Até q os funcionários vendo sentindo minha avidez pela leitura me aconselharam: “traga uma cestinha, para a próxima!” e passei a trazer 3 ou 4 à vez. Q prazer ler. Abraço amigo. Conceição

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  2. Vivencia similar. Nunca tive quem me orientasse leituras. Todos os livros da biblioteca do pai foram ávidamente lidos antes dos 14. Entretanto, da Biblioteca M. vinham como a lei determinava. Até q os funcionários vendo sentindo minha avidez pela leitura me aconselharam: “traga uma cestinha, para a próxima!” e passei a trazer 3 ou 4 à vez. Q prazer ler. Abraço amigo. Conceição

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