NOTRE-DAME: INTERROGAÇÕES SOBRE A CAUSA DO INCÊNDIO, de SOLIDARITÉ & PROGRÈS – I

 

 

 

Notre Dame: interrogations sur la cause de l’incendie, 19 de Abril de 2019

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

A 15 de Abril, um incêndio devastador danificou gravemente a catedral de Notre Dame em Paris.

Ataque ou acidente? Se a investigação está em curso, é legítimo que todas as hipóteses sejam examinadas sem pressa e sem nenhum a priori. Porque não aceitar que a pergunta pode ser colocada só pode favorecer um clima insalubre de conspiração redutora e impotente.

O desafio que se nos depara é saber o que devemos fazer para garantir que, no futuro, nunca mais um tal tesouro possa sofrer um destino como este.

Aqui estão os comentários e perguntas de alguns especialistas sobre o incêndio em Notre-Dame. Cabe a cada um de nós  enriquecer o nosso ponto de vista sobre o tema.

Em 16 de abril de 2019, num canal televiso, LCI, David Pujadas entrevistou Benjamin Mouton, o antigo arquiteto chefe dos Monumentos Históricos, responsável pela Catedral de Notre Dame de Paris, de 2000 a 2013.

 

O texto da entrevista:

David Pujadas (DP) : Esta noite temos alguma certeza de que Nossa Senhora está bem fundamentada? O que foi preservado será que vá  aguentar?

Benjamim Mouton (BM) : Não, não temos certeza porque o fogo está apagado, mas há bocados de madeira carbonizada ensopados nas abóbadas. E antes de caírem sob as abóbadas provocaram um choque mecânico nas abóbadas que as abalaram.   Olhando para as fotografias, a abóbada da cruz era conhecido por ser a abóbada  mais frágil. E então as madeiras calcinadas ficaram sobre a pedra, calcinaram  a pedra, e a pedra transforma-se em cal e perdeu  a sua capacidade mecânica. No entanto, são as partes superiores das abóbadas que são fundamentais para a estrutura. E depois os bombeiros molharam isto tudo e agora há a estrutura a sobrecarregar a abóbada. Portanto, penso que podemos ser mais precisos sobre o estado da catedral quando colocamos um guarda-chuva, isto é, quando o pousarmos, lentamente para não provocar nenhuma reação, e quando virmos o estado das abóbadas.  Acho que não vamos saber nada antes disso.

DP: Ficou surpreendido pelo facto do fogo se ter espalhado tão depressa?

BM: Isso mesmo. Incompreensível…

DP:. É incompreensível?

BM: Estou espantado. Trata-se de carvalho muito antigo e parece que ardeu como fósforos, como se fosse outra espécie, muito, muito volátil ou combustível. Não entendo, não, não entendo nada. É muito impressionante.

Outro jornalista: Não vês qual poderia ser a origem disto, a origem do fogo?

BM: Não faço ideia…

DP: Sobre a origem em si, estamos na incerteza, a explicação por  acidente é privilegiada, mas a propagação que o senhor diz, é surpreendente?

BM: A propagação, é extremamente curiosa. Então, obviamente, partiu da encruzilhada e depois estendeu-se ao coração de Notre-Dame , à nave e ao transepto.

DP: Porque ouvimos muitos comentários que dizem que, o que chamamos de “a floresta”, essa área de estrutura muito grande, muito importante, muito volumosa, poderia quase arder  como lenha… O senhor considera isso verdadeiro ou falso ? O senhor diz  que este tipo de madeira não arde  assim?

BM: Ah, não. Sabe, o carvalho de 800 anos é muito duro. Tente queimar algum bocado. Nunca tinha tentado antes. Mas o velho carvalho não é nada fácil. Tens de pôr muita lenha miúda para aí chegar, não sei se aí havia… Bem, vou parar de ironizar. Acho que não, isto surpreende-me muito.

 

Veja o filme aqui

DP: E onde é que esta reflexão o leva? A que hipótese é que isso o leva?

BM: Não tenho nenhuma hipótese que possa apresentar. Que hipótese poderia ser apresentada? Foi rápido. Podíamos ter feito outra coisa, se não tivesse sido tão rápido. Estou perdido na conjectura.

DP: E até onde é que esta reflexão o leva? A que hipótese é que isso o conduz?

BM: Não tenho nenhuma hipótese que possa apresentar. Que hipótese poderia ser apresentada? Isto aconteceu muito rapidamente. Podíamos ter feito outra coisa, se não tivesse sido tão rápido. Estou perdido na conjetura.

O senhor sabe, nós fizemos, em Notre Dame, pouco antes de eu me aposentar, ou seja, nos anos de 2010, reconstruímos toda a instalação elétrica de Notre‑Dame. Portanto, não há possibilidade de um curto-circuito. Revimos, e aos padrões contemporâneos, fomos mesmo muito longe sobre toda a proteção contra incêndios de Notre Dame, com elementos de indicadores de medidas, de aspiração, etc., que tornaram possível detetar o início de um incêndio. Tem-se, ao fundo da catedral, dois homens constantemente, dia e noite, que estão lá para ir e verificar assim que houver um alerta e chamar a brigada de incêndio desde que a dúvida esteja  esclarecida.

DP : Eles estão lá, permanentemente ?

BM: Permanentemente, sim.

Outro jornalista: Não pode haver uma falha no mecanismo de alerta? É impossível?Tudo é possível. Não consigo perceber bem porque isto que foi feito é um trabalho colossal. E então, isto faz-se em todos esses monumentos históricos, especialmente em Notre Dame, que temos um quadro normativo e de controle que é considerável, que não  não o vemos em nenhum outro lugar. Agora, estou espantado.

DP: E durante os treze anos em que foi arquiteto chefe do edifício, não sabia do início do incêndio, nunca lhe aconteceu?

BM: Estou encantado por ouvir isso.

Outro jornalista: As obras de restauro de um monumento histórico que remonta a tantos séculos acentuam a fragilidade do próprio monumento e um dos problemas que também se coloca é a supervisão deste tipo de obra, o que significa que ainda é espantoso que as pessoas, embora de boa fé, nos digam “não havia um único trabalhador no local”. Ou seja, não estava ninguém  para supervisionar uma obra desta importância. Obviamente, quando há um projeto de renovação num monumento histórico desta importância, não compreendemos que não estejam em vigor, 24 horas por dia, condições rigorosas de monitorização permanente. E aqui, eu acho que a lei terá que evoluir sobre como podemos renovar sítios históricos porque há uma falta óbvia de supervisão mínima.

BM: Provavelmente tem razão, mas vou dar-lhe duas notas discordantes. A primeira é dizer-vos que, quando os trabalhadores abandonam o local de trabalho, é a vigilância geral que recupera os seus direitos, que verdadeiramente não os abandonou, que continua a ser exercida. Logo, não há diferença.

Outro jornalista: (…) Então ficamos com os dois homens lá em baixo?

BM: Mas com dispositivos de medição e deteção de alta eficácia no sótão. Gostaria de acrescentar mais uma coisa, a saber, que os dispositivos de deteção no sótão são alimentados de forma a não haver risco de curto-circuito, todos os elementos de ligação nas escadas e de fecho das portas corta-fogo foram removidos. A segunda observação que farei é esta. Talvez fiquem  surpreendidos. É que quando se  olha para as estatísticas de acidentes de construção,  vê-se  que nos monumentos históricos não há praticamente nada.

Outro jornalista: porque há muito poucos monumentos históricos simplesmente….

BM: Não, não, é porque estes locais são muito supervisionados, muito supervisionados com medidas drásticas em termos de proteção e vigilância, etc.

DP: Senhor Arquiteto  Mouton, o que está a descrever leva diretamente à hipótese de ter havido  alguém que teria procurado que o fogo se desenvolvesse.

BM: Eu evito fazer suposições.

DP: É muito delicado. Veremos mais tarde o que dizer do sentido de justiça e da abertura desta investigação. Por enquanto, esta hipótese não é de todo privilegiada.

Outro jornalista: a hipótese de “dois” pontos por onde terá começado  o fogo,  mantém‑se  ou não? Ouviu falar disto?

BM: Falei com o meu colega Philippe Villeneuve, que é o arquiteto chefe dos Monumentos Históricos e que me deu o seu acordo para eu participar aqui neste debate, esta noite, e este   disse-me que só tinha tido um ponto de partida do fogo, ou seja, na parte do telhado que encontra o transepto. Foi tudo o que me disse. E acrescentou: “Não havia aí  nenhum estaleiro de obras”.

DP: Não havia nenhum estaleiro de obras ? Ou seja, aquele que lhe  sucedeu disse-lhe: “Onde se  deu  o início do incêndio, não havia aí ninguém a trabalhar ? Não havia nenhum estaleiro de obras? Esse é outro elemento, claro, interessante…

Jornalista (Frank): Eu obviamente não conheço o seu trabalho, mas quando o senhor  vê uma estrutura tão importante, a prova é que foi chamada de “a floresta”, eu sei que para alguns edifícios, como em casa quando se trata de telhados de colmo, há produtos para proteger contra a propagação. E o senhor está surpreendido com a velocidade da propagação. Será que a estrutura está protegida com um produto para evitar a propagação? Isso foi feito, ou não existe? Surpreende-me que não sejam pulverizados produtos sobre esta estrutura para evitar que se espalhe demasiado depressa em caso de incêndio.

BM: Sabe que para que estes produtos funcionem, têm de penetrar na madeira. Tente introduzir no carvalho velho o mais pequeno produto, seja ele um pesticida, um fungicida… não é possível. Se soubéssemos, bem o teríamos   feito.

 

É necessário haver uma carga de calor no início.

A 16 de Abril de 2019, Benjamin Moulin, entrevistado por Batiactu, a Revista  da Construção, já tinha manifestado as suas preocupações:

 “Em 40 anos de experiência, nunca experimentei um incêndio deste tipo”, diz o especialista que estima que a proteção contra incêndio instalada na catedral estava ao seu mais elevado  nível de segurança.

“Quando me ocupei da deteção de incêndio, que foi  um dispositivo muito caro,  era necessário  muito poucos minutos para um agente esclarecer qualquer dúvida, tivemos muitas portas de madeira substituídas por portas corta-fogo, limitamos todos os aparelhos elétricos, que eram proibidos no sótão”, disse ele à revista  Batiactu.

“Você precisa de uma verdadeira carga de calor  para começar um tal desastre. O carvalho é uma madeira particularmente resistente. »

O mistério sobre as causas do fogo permanece, portanto, por resolver.

Um especialista no sector da construção também confidenciou o seu mal-entendido a Batiactu: “O incêndio não poderia ter começado a partir de um curto-circuito, de um simples incidente pontual. É verdadeiramente necessário que haja   uma verdadeira carga de calor no início para se desencadear um  tal desastre. O carvalho é uma madeira particularmente resistente. »

 

https://solidariteetprogres.fr/actualites-001/notre-dame-interrogations-sur-la.html

 

About joaompmachado

Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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