Sobre as razões que estão na base dos focos de tensão entre a China e os Estados Unidos – 21. Donald Trump está errado: a China não é o México. Por Martin Wolf

Tensão EUA China 0

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

 

21. Donald Trump está errado: a China não é o México

Martin Wolf 2 Por Martin Wolf

Publicado por FTimes em 2 de outubro de 2018

Texto disponibilizado por China Focus em 3 de outubro de 2018 (aqui)

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Não seria muito difícil para Pequim compensar uma perda na procura como resultado de uma guerra comercial com os EUA.

 

“Quando um país (EUA) está a perder muitos milhares de milhões de dólares no comércio com praticamente todos os países com quem faz negócios, as guerras comerciais são boas e são fáceis de ganhar.” Este tweet de 2 de março estabeleceu os objetivos e os meios da política comercial de Donald Trump. A vitória aparente sobre o Canadá e o México e a assinatura de um novo acordo de comércio convencê-lo-á que tem razão. Mas a China não é o México.

O Presidente dos Estados Unidos pensa que se um país vende mais bens a um sócio de comércio do que compra, ele “ganhou”. Ele também pensa que se comprar mais bens de um parceiro comercial do que lhe vende, ele pode “ganhar” uma guerra protecionista, porque o outro lado tem mais a perder. Essas duas convicções — o mercantilismo bilateral e a assimetria nos custos — são os seus guias. A sua política é usar a maneira como os EUA “perdem” para garantir a vitória. Dado que os Estados Unidos são também o país mais poderoso em toda e qualquer relação bilateral, tem de ganhar sempre.

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Os economistas sérios, voltando a Adam Smith, insistiriam que procurar um excedente com todo e qualquer parceiro comercial não é “ganhar”. É um absurdo. Isto não é sequer mercantilismo inteligente, que se concentraria no saldo global. No entanto, particularmente com o livre movimento de capitais, o saldo global é um objetivo tolo e que a política comercial nunca pode alcançar. É incrível que tais primitivas ideias determinem o comportamento do país mais sofisticado da terra.

Coloque o sentido disto de lado. As guerras comerciais são fáceis para uma superpotência vencer contra países com grandes excedentes comerciais bilaterais? A resposta é “sim e não”. As exportações do México para os EUA representaram 28% do produto interno bruto em 2017, enquanto as do Canadá foram de 19%. As exportações dos EUA para o México foram de apenas 1,3% do PIB, enquanto as exportações para o Canadá foram de 1,5%. Quando os países estão tão assimetricamente dependentes como é o caso do Canadá e do México, é provável uma vitória para os Estados Unidos. Numa negociação bilateral, os EUA provavelmente receberiam muito do que desejavam (embora pareçam não ter conseguido tudo).

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Com a China é uma outra história e bem diferente. As suas exportações para os EUA são uma parcela muito maior do PIB do que vice-versa, em 4,1%, contra 0,7% no ano de 2017. O excedente bilateral da China foi de cerca de 3,1% do PIB, o que está bem abaixo dos 10,2%. em 2006. Imagine que os EUA impõem tarifas proibitivas sobre todos os produtos em todas as exportações chinesas. Poder-se-ia pensar que o efeito seria a redução do PIB da China em 4,1%. Estar-se-ia a fazer um raciocínio errado. As exportações dos EUA para a China também cairiam, com a retaliação chinesa. Além disso, um terço do valor acrescentado das exportações da China é importado. Os exportadores chineses também poderiam vender os seus produtos noutros lugares.

No fim de contas, a queda no PIB da China numa tal guerra comercial seria menos de 2 por cento, com tudo o resto igual. Isto representa cerca de quatro meses de crescimento. Além disso, não seria difícil para a China compensar uma tal redução da procura. Entretanto, o saldo comercial global dos Estados Unidos provavelmente não mudaria em nada a situação, uma vez que este é determinado pela oferta e pela procura interna.

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Embora Pequim prefira um acordo, não vai pagar um preço elevado. Todos os chineses estão bem ensinados sobre o “século da humilhação”. O Presidente Xi Jinping está numa posição interna forte. No entanto, mesmo ele poderia não sobreviver como líder político se rastejar em frente de um agressor.

Trump cometeu dois erros característicos. Primeiro, ele foi demasiado longe. A China não pode ter o seu comércio bilateral em situação de equilíbrio porque não poderia forçar os cidadãos chineses a comprarem bens que não querem. A questão importante sobre o comércio dos EUA com a China não é que as importações dos Estados Unidos sejam elevadas: em relação ao PIB, elas são as mesmas que as da União Europeia. A questão é o baixo nível das suas exportações. Isso mostra a falta de competitividade dos americanos. Finalmente, a China não abandonará a esperança de melhorar o seu nível tecnológico. Nenhum poder o faria.

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Em segundo lugar, Trump exagerou quanto ao poder dos EUA. Em outras áreas da política comercial, os acordos podem ser feitos. Poder-se-ia imaginar mudanças na política chinesa quanto à propriedade intelectual e à exclusão de empresas dos EUA. Poder-se-ia imaginar um acordo em que a China desiste do estado de país em desenvolvimento, em troca de ser tratada como uma economia de mercado. Mas para alcançar estes resultados, ou melhores, Trump precisa de aliados, especialmente da UE e do Japão, a quem ele despreza, talvez porque não são tiranias. Mas não é claro que queira tais acordos: se a propriedade intelectual estivesse melhor protegida, haveria mais empresas dos EUA a investir na China. Isso parece o oposto do que ele quer.

O Presidente Trump pode surpreender-nos anunciando aos quatro ventos o maior acordo comercial da história com o qual não obtém grande coisa. Mas suponha que, em vez disso, o conflito se intensifica, acabando por se ficar com altas tarifas bilaterais. Quem ganha? A resposta ampla é ninguém: o comércio internacional é perturbado, o sistema comercial regido por regras fica devastado, as relações entre os EUA e a China são danificadas e o mundo torna-se mais perigoso.

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No entanto, quem é que perde mais? Isso é difícil de modelar, porque ninguém sabe o que é que aconteceria neste caso. Uma possibilidade, analisada pelo Banco Central Europeu, é que o conflito vai ser global. Mesmo a administração Trump pode considerar que o desvio de comércio está a funcionar a seu favor: param as importações da China e começam a ser adquiridos esses mesmos bens no Vietname. Então, optam por aplicar a todos os países uma tarifa de 10 por cento. O resto do mundo retalia com uma tarifa de 10 por cento sobre os produtos americanos que estejam a importar. Neste caso, argumenta o BCE, os Estados Unidos perdem a curto prazo e a China ainda ganha. Numa guerra comercial, a economia maior perde menos, porque o comércio internacional é menos importante para ele. O resto da economia mundial é três vezes maior do que a dos EUA.

Os EUA poderiam obter um acordo sobre a propriedade intelectual e a liberalização do mercado com a China. Mas não podem alcançar um acordo para equilibrar o comércio bilateral com a China ou parar o desenvolvimento económico de China. Poderia obter um tal acordo cooperando estreitamente com os aliados. Se os EUA persistirem com o bilateralismo puro, não vão ganhar. Mas ele fará danos a si mesmo, ao comércio internacional, à economia mundial e às relações internacionais. As guerras comerciais não são boas. Com grandes poderes, elas não são fáceis de ganhar também.

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O autor: Martin Wolf é editor associado e comentarista-chefe de economia do Financial Times.

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