NOTRE-DAME, A FRAGILIDADE DA NOSSA CIVILIZAÇÃO: A OPINIÃO DE RÉGIS DEBRAY

NOTRE-DAME, la fragilité de notre civilisation : LIBRE OPINION de Régis DEBRAY

ASAF, association de soutien à l’armée française, 22 de Abril de 2019

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Régis Debray: «Nous autres, civilisations……»

Notre-Dame de Paris é o lugar onde convergem duas filiações muitas vezes confusas, religiosa e política, diz-nos Regis Debray .

É difícil, mesmo para quem apenas se queira defender de ser criticado,   não recordar Valéry, não atribuir um significado simbólico à catástrofe.

Mais do que um ataque ao património, à economia do turismo e às nossas famílias parisienses, trata-se de uma ferida grave, muito grave. Não só para as almas piedosas e para a tradição católica, hoje em sofrimento.  

Um Pontífice que renuncia ao seu cargo, um cardeal francês   condenado a uma pena de prisão, as eminências  aqui e ali acusadas, os seminários desertos,  e agora Notre-Dame incendiada:  os acontecimentos assumem um rumo calamitoso para a Igreja Romana.

E porque não recordar que a França, dedicada à Virgem Maria desde Luís XIII, tem a Virgem Maria como a sua padroeira tradicional. De Gaulle não fala por acaso nas suas Memórias de Guerra da “madonna  das pinturas murais ” e de “Notre-Dame, a França “. Qualquer que seja a nossa perda de memória coletiva, é uma certa substância popular e nacional que se alcança, através de um ponto nodal da comunidade cívica, um fator de concórdia e não de discórdia, o ponto zero das estradas da França, onde duas filiações, religiosas e políticas convergiram se bem que  muitas vezes  de forma confusa. Um som grave de órgão estranhamente patriótico.

Mais do que Reims ou Chartres, estar localizado no coração da capital dá à basílica metropolitana a ressonância de um som grave de órgão  estranhamente patriótico. A França já não se declara a filha mais velha da Igreja, mas se rejeitámos precisamente a aliança entre as Igrejas e o Estado, o mais laico  entre nós não pode negar esta continuidade milenar. Afinal, foi lá  que se celebrou a tomada da Bastilha durante a Revolução, e depois a Deusa razão. O Te Deum foi cantado para Charles VII e Charles de Gaulle, e os funerais de Turenne e do General Leclerc foram ali celebrados. Aí se abençoaram  os estandartes, aí se penduram  as nossas bandeiras. Os reis da Bíblia, acima do portal, foram vandalizados porque foram erroneamente identificados com os reis da França. A coroação de Napoleão tinha o templo como teatro. Ainda que as autoridades da República se tenham abstido, através de uma interpretação estrita da laicidade, de assistir ao Te Deum de 1918, ninguém perdeu o Te Deum de 1944.

Porque há aqui  uma constância na nossa história, que vai desde Philippe Augusto, ou seja dos Merovíngios, aos nossos breves monarcas agnósticos, do século XII ao século XX. O santuário nunca deixou de viver ao ritmo do luto e das esperanças, das alegrias e das angústias da República, como recompensa e como último recurso.

Danificada pelo fogo mas salvo pela literatura, o lugar de memória permanecerá uma presença guardiã, com Hugo, claro, mas também Péguy, Claudel e Proust. “Isto irá matar aquilo”, disse Hugo ao seu arquidiácono em frente a Notre-Dame. O pequeno livro impresso, o edifício gigantesco. O papel, o Papa. Foi na Idade Média.

E se o pequeno livro de papel sobrevivesse agora ao livro de pedra? No entanto, podemo-nos questionar o que restará das três fortalezas, das três fontes batismais que foram para Valéry a fonte e o fundamento de nossa Europa: a Grécia com Homero e Platão, mas quem ainda aprende grego na escola? Roma, com César e Virgílio, mas quem ainda pratica versículos latinos, como o jovem Rimbaud? E agora, o cristianismo, com a sua estrutura e as flechas apontadas ao céu, os seus segredos e os seus ritos?

A nossa civilização, neste caso, passaria então da era da comemoração para a da arqueologia. O que nos tem irrigado  será então que nos irá deixar em seco ? O que nos motivava a levantar o olhar, será que teremos de passar a procurá‑lo nos nossos subsolos? Um mau pensamento, um pensamento que rapidamente devemos abandonar.

NOTRE-DAME, la fragilité de notre civilisation: LIBRE OPINION de Régis DEBRAY. Texto disponível em:

https://www.asafrance.fr/item/notre-dame-la-fragilite-de-notre-civilisation-libre-opinionde-regis-debray.html

Régis DEBRAY 
Le Figaro

* Régis Debray publicou recentemente «Bilan de faillite» (Gallimard, 2018).

About joaompmachado

Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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