CARTA DE BRAGA- “o neutrino, o meio, a mensagem e o JN” por António Oliveira

Não é jogador de futebol, nunca entrou numa telenovela nem foi, algum dia, notícia de primeira página num ‘manha’ qualquer.

É só uma coisa minúscula muito difícil de detectar, misteriosa por isso mesmo, um spin, uma partícula elementar, subatómica, sem carga e neutra (de onde lhe vem o nome!), uma espécie de prodígio estritamente quântico.

Também fiz essa cara, por sempre me ver atrapalhado quando tenho de lidar (apesar de saber bem que tempos vivemos) com coisas como essa a afrontar-me constantemente e a exigir-me saberes muito além das minhas competências.

Mais li ainda, que essa coisa se movimenta a uma velocidade próxima à da luz e atravessa a matéria da mesma maneira que a luz atravessa o cristal!

Acaba por ser (mesmo com esta explicação rudimentar) mais um símbolo pós-moderno destes tempos hiperconectados, onde as possibilidades de regulação e articulação são altamente complexas, devido à atomização da vontade e da capacidade individuais, já subjugadas ao poder hegemónico das redes.

Os lobbies gravitam em volta do poder (corporações, gabinetes de peritos diversos e influencers) todos à cata da melhor maneira de ultrapassar direitos instituídos e estatuídos, sempre ou quase sempre, através da precaridade dos mais débeis.

Ainda não há muitos anos, se ensinava ‘o meio é a mensagem’ mas hoje, em que nada consegue ultrapassar nem anular a repentização da imagem e do tweet com meia dúzia de caracteres, o meio é a velocidade digital de um polegar a saltar as teclas de um telemóvel!

Herbert Marcuse referiu isto mesmo no seu tempo (anos 50/60 do século passado) ao explicar que o domínio do homem sobre o homem, não era mais do que uma continuidade histórica a ligar e vincular a mentalidade da pré-tecnologia à tecnológica, substituindo gradualmente a dependência pessoal do escravo ao dono, do servo ao proprietário, deste ao senhor feudal e as outras todas que se lhes seguiram, ‘pela dependência à ordem objectiva das coisas’.

E hoje estão aí as leis económicas e financeiras das bolsas e as dos mercados, mais as do ‘loiro’ americano para fazer frente aos desesperados emigrantes, aos Huawei’s asiáticos e aos olheiros iranianos do canal de Ormuz, pretensos atacadores de petroleiros.

Assim ‘a propaganda transformada em harmonia mediática, visa manter o autoritarismo estrutural numa democracia já degradada em excesso, pela penúria das maiorias sociais e aumento das desigualdades, tudo a entrar já no espaço do imoral, a favor das minorias fácticas’ tal como afirmou há alguns mas poucos dias, Juan Antonio Molina.

Mas também li que os tais simpáticos neutrinos são importantes no campo dos algoritmos, a base da objectiva uniformização da clientela das redes!

Isto foi o que eu aprendi ‘mal’, nas leituras apressadas das tecnologias, quando ainda estou longe de sair da pré-tecnologia de tentar juntar letras correctamente, apenas para comunicar, sem nunca ter de o fazer só com resumos de cento e algumas!

Não resisto, por tudo isto, a transcrever para esta Carta, um pedaço da nota do professor José Ricardo Costa (já aqui citado algumas vezes), no blog ‘Ponteiros parados’ num dia de Maio.

«Os alunos estão na sala de aula a trabalhar em grupo sobre temas relacionados com a nossa cultura científico-tecnológica. Ao espreitar o trabalho de duas alunas, digo-lhes que a capa de hoje do ‘Jornal de Notícias’ traz um dado que lhes pode ser útil. Acedem ao site mas o acesso ao conteúdo é só para assinantes. Uma das raparigas pede-me então para ir lá fora comprar o jornal e eu não só deixo como até incentivo. Passado um bocado, entusiasmada com o simples facto de estar com um jornal nas mãos (incluindo o cheiro) disse que se sentia uma intelectual. Eu ouvi isto e só precisei de dois segundos para vislumbrar um futuro que já está próximo: alguém sentir-se intelectual por ter um ‘Jornal de Notícias’ nas mãos».

Não serão também coisas daqueles misteriosos neutrinos?

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

One comment

  1. Raul Manuel Freitas Araujo Rocha

    Na verdade…Hoje, é tudo imediato, irreflectido, reage-se à emoção imediata, não há tempo para pensar…Engolismos tudo a uma velocidade estonteante…Ouviste ontem a entrevista do António Damásio?Naõ conseguimos vislumbrar o amanhã, mas o hoje faz temer …..Meu amigo, obrigada, por este ” cafezinho gostoso”!!!!Deixa-me dizer-te que já sei que vou adorar o teu livro…Aproveitando uma insónia, abri aquela “porta” verde..Abração para vós!!!!!!

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