UMA SEMENTE DE AFECTO por Luísa Lobão Moniz

As mudanças sociais são acompanhadas pelas instituições que as suportam enquanto sociedades dinâmicas. Por vezes essa mudança não se vive de forma pacífica devido a divergências ideológicas, a percas de pequenos poderes, a crises de valores que as sociedades não querem aceitar, políticas económicas e sobrevivência da classe média com medo de perder algumas das regalias relativamente às classes sociais e económicas que já nada têm a perder a não ser a sua própria vida sem conforto.

A família e a escola são as instituições mais bem posicionadas para acompanhar o poder que modifica as sociedades. Umas vezes porque antecipam tempos de ditaduras em que a dignidade humana nada diz a quem está no Poder para mandar trabalhar com salários mínimos a população mais desfavorecida e frágil em termos de relações afectivas e emocionais.

 A família que pretendia ser a âncora de muitos indivíduos passou a ser uma instituição de exclusão dos mais frágeis – crianças, mulheres e idosos.

 A família era uma instituição transparente, pois o que lá acontecia era do domínio público e, por isso, tinha mais visibilidade para serem exercidas as sanções sociais, para proteger os mais fracos.

Acompanhando as mudanças da sociedade, a família foi perdendo o carácter público e começou a ser do domínio privado dificultando, assim, saber-se o que se passa dentro das quatro paredes. E o que se passa dentro das quatro paredes de uma casa é deveras assustador. Em muitos casos sente-se o medo de ouvir a porta da rua abrir-se, pois nunca se sabe se o pai vem bêbado ou não, se vai bater ou não. Nunca se sabe se há dinheiro para as refeições ou não…

Quando as crianças começaram a ir à escola a diferença de classes era bem visível: muitas crianças não tinham tomado o pequeno-almoço, não tinham sapatos nem roupas adequadas. Tinham fome, tinham frio, tinham falta de afecto. Traziam na memória a violência a que tinham assistido ou da que tinham sido vítimas.

Estas crianças são umas heroínas, pois hoje podem falar disso livremente e tiveram nas mãos as ferramentas necessárias (na escola) para perceberem que a vida não é violência.

 Se a casa é um dos instrumentos de desenvolvimento pessoal de cada indivíduo, e não um local onde se tem medo de se estar, é preciso intervir na prevenção antes que o risco aconteça.

Com o 25 de Abril foram abertas muitas portas para proteger as crianças.

Essa mudança filosófica e institucional ainda não está completamente difundida na sociedade actual, porém encontra-se em crescente consolidação.

A pessoa é agora alvo de atenção para que a sua dignidade, felicidade não seja posta em causa. Portugal assinou a carta dos Direitos da Criança de Istambul e de Salamanca.

Há poucos anos fui confrontada com uma criança que dizia o indizível: não gosto dos meus pais, chego a casa atiro com a pasta para o chão e fujo…só volto quando eles já estão a dormir e como…

 A família não é um conceito universal, pois depende das regras sociais, da época em que algumas pessoas vivem, pois nem todos estamos em 2019, há ainda quem viva no tempo da barbárie.

Ao mesmo tempo que isto se passa, na casa ao lado vive outra família com dois pais ou duas mães, famílias monoparentais, famílias com pai e mãe, famílias alargadas.

Se acreditarmos que a família não é um conjunto de pessoas que vive na mesma casa, mas a vontade entre as partes no sentido de dar afecto a todos, de reconhecer a especificidade de cada um temos que respeitar maneiras diferentes de ver a vida.

A família, já não é o que diziam, uma corrente protectora de todos os seus elementos, hoje muitas, demasiadas vezes, cortam elos afectivos entre alguns dos seus elementos.

O que fazer para que a família proteja, seja um local de aprendizagem de educação?

As pessoas devem respeitar a maior conquista que tivemos: a liberdade sob todas as suas formas.

É preciso que se saiba que a vida não é só difícil para os mais carentes, não, a falta de liberdade, de valorização pessoal e respeito pela dignidade humana é que faz de uma criança um cidadão responsável e lutador pelas causas nobres com que nos deparamos hoje em dia.

Se todos semearmos uma semente de afecto, estamos a contribuir colectivamente para a sociedade que desejamos: sem patrões que exploram os trabalhadores, com pais com tempo para os filhos, com uma escola em que se proporcione o riso, sem migrantes que morrem no meio do oceano quando fogem de uma guerra…

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