CARTA DE BRAGA – “autofagia e finamento do acordo hortográfico” por António Oliveira

 

Uma autofagia fácil se aproveitarem a produção do tal acordo (já o vi assim escrito, mas não consigo lembrar onde!), mas mais difícil se não conseguirem correr os fazedores de tal horta!

Teixeira de Pascoais escreveu que na palavra lágryma, o Y exprimia graficamente o cair da própria lágrima e, com estes e outros exemplos, insurgia-se contra a tentativa de uniformizar a ortografia. O argumento era demasiado ingénuo no seu sabor poético, para poder sugestionar homens práticos que usam o uniforme para unir e formar’.

A citação acima pertence a António Telmo, uma das maiores figuras da arte poética, da filosofia e das letras portuguesas.

Está numa das suas obras, ‘A Gramática Secreta da Língua Portuguesa’ e creio que deveria ser estudada por todos os que teimam na aberração do acordo ou do hacordo, (com esta ou qualquer outra grafia que eventualmente, lhe queiram aplicar) por também temer os homens práticos que usam o uniforme para impor pois, assim e com isso, tudo é possível!

Para António Telmo ‘a reflexão da gramática portuguesa pelos princípios da arte poética não ficará completa se não tentarmos ver como os valores dos fonemas formam o significado das palavras’ porque ‘só o poeta e o filósofo têm consciência actual, em acto, dos fonemas e das palavras como significações’.

Na verdade, acrescenta, ‘No plano prático da vida, as palavras designam não significam! O interlocutor nem sequer tem consciência delas e, muito menos, dos fonemas que as compõem. É um falar automático em que as frases funcionam como intenções, muito mais do que como significações’.

Já em Aristóteles ‘Política’, Livro I, se afirmava ‘enquanto a voz indica prazer ou sofrimento, e nesse sentido é também atributo de outros animais (cuja natureza também atinge sensações de dor e de prazer e é capaz de as indicar) o discurso, por outro lado, serve para tornar claro o útil e o prejudicial e, por conseguinte, o justo e o injusto

Esta é a valia ou o drama das metáforas, onde os significados das palavras até podem não coincidir com os sentidos e, voltando a Telmo, ‘restaria ver como o espírito que, no homem normal actua sempre no mesmo plano, limitando-se a receber e a deixar-se conduzir pelas imagens, adquire a actividade própria do pensamento’.

E lendo (sem estar limitado por acordos mal pensados e mal feitos nas tais bancadas) fui descobrindo e confirmando como as letras são o mistério da experienciação do mundo e da sua ligação ao espírito, pois só elas, se alinhadas e ordenadas correctamente, nos permitem comunicar (falando, escrevendo ou representando) com todos os seus intérpretes.

Já vou sabendo que uma ordenação e um alinhamento correctos, dispensam lindamente a presença dos tais práticos armados de uniformes, sentados nas secretárias e nas bancadas dos decretos!

E também sei, como o escreveu há poucos dias uma boa amiga (‘Mãe preocupada’) que ‘regressar é ir a qualquer lugar onde estiver alguém à nossa espera’ que vou lá encontrar o padre João da biblioteca da minha juventude a garantir-me ‘A leitura endireita as costas! Não tas deixa curvar!

E agora compreendo também, como alinhar e ordenar letras e palavras correctamente, para que cada um as possa ‘sentir’ transforma a escrita num ‘sinal exterior de riqueza interior’ (‘Xilre’, 03.19)

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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