Mark Esper, outro comerciante da morte, novo secretário de Defesa dos EUA. Por Nazanín Armanian

Espuma dos dias

Seleção e tradução de Francisco Tavares

Mark Esper, outro comerciante da morte, novo secretário de Defesa dos EUA

Nazanín_Armanián Por Nazanín Armanian

Publicado por publico es es em 25 de julho de 2019 (ver aqui)

4 Mark Esper outro comerciante da morte

Donald Trump felicita Mark Esper , novo secretário de Defesa dos EUA. / LEAH MILLIS (REUTERS)

 

«Si vis pacem, para bellum» [Se queres a paz, prepara a guerra], com este lema, um discurso bélico e no meio do aumento da tensão no Golfo Pérsico, o falcão Mark Esper será a cereja colocada no topo do já inquietante gabinete de Donald Trump. Agente direto do complexo militar-industrial, Esper, ex vice-presidente de Raytheon, uma das principais empresas de armas dos Estados Unidos, substitui Patrick Shanahan, um executivo da fabricante de aviões e mísseis Boeing, no Pentágono.

Mark Esper, um veterano da primeira guerra dos Estados Unidos contra o Iraque em 1991, trabalhou durante sete anos como secretário das Forças Armadas do Pentágono, fazendo de “pessoa influente” para Raytheon (fabricante do sistema de mísseis Patriot, e dos motores do avião de combate F-35, o programa de armas mais caro do Pentágono), e conheceu o ex-chefe da CIA e o atual secretário de Estado, Mark Pompeo, na Academia Militar. O companheiro de Esper na Raytheon, Charles Faulkner, “incrustado” no Departamento de Estado, foi obrigado a demitir-se no mês passado por elaborar um plano que beneficiou com milhares de milhões de dólares esta empresa: acelerou a venda de bombas guiadas por laser Paveway à Arábia Saudita (os mesmos utilizados para atacar o Iémen), iludindo o controle do Congresso. O lema de Raytheon é “O êxito do cliente é a nossa missão”, embora os seus não se pode dizer que tenham tido muito êxito no Iémen. Sob o pretexto do “aumento da tensão com o Irão”, os homens desta empresa geriram a venda de um pacote de armas aos xeques sauditas e dos Emiratos pelo valor de 8.000 milhões de dólares.

A propósito, Esper é substituído como secretário do Exército por Ryan McCarthy, um “comercial” da Lockheed Martin, a principal empresa de armas do planeta, que recebe até 50.000 milhões de dólares em contratos governamentais.

A chave: a porta giratória

Passaram seis décadas desde que o presidente Dwight D. Eisenhower advertiu sobre a “influência indevida” de um monstro chamado “complexo militar-industrial” que estava a capturar as instituições civis dos Estados Unidos. O próprio Donald Trump, numa entrevista à Fox News em 20 de maio, o assinalou como a força que impede a saída das tropas estado-unidenses da Síria porque “quer guerra”. A sua insaciável sede de ganhar dinheiro vendendo armas é um dos principais motivos da atual guerra dos Estados Unidos contra o Irão.

Agora, um Esper promovido ao posto mais alto da Administração poderá decidir que armas e a quem comprar, sobre que nação descarregar as antigas armas e sobre que escolas, casamentos e funerais experimentar o impacto das novas.

Não se trata de “trabalhadores” que devem pagar as suas faturas, manter a sua família e que simplesmente executam as ordens dos políticos belicistas (banalizando o mal), mas antes do setor mais criminoso da burguesia que aumenta a sua fortuna, controlando a política exterior do país, e fazendo-o principalmente através de dois métodos: 1) investir nas campanhas eleitorais dos candidatos ao Parlamento e à Presidência dos Estados Unidos, comprando-os; e 2) utilizar a porta giratória: colocar no Pentágono os seus executivos e contratar os militares de alta patente para dirigir as suas empresas.

Vejamos: a secretária da Força Aérea, Heather Wilson, foi consultora da Lockheed Martin; a subsecretária de Defesa para Aquisição e Manutenção de armas (USD- A&S), Ellen Lord, foi diretora executiva de Textron Systems, um conglomerado industrial de aeronáutica, segurança e tecnologias avançadas; o chefe de pessoal do Conselho de Segurança Nacional, o tenente Keith Kellogg, foi empregado de várias empresas militares e de inteligência; John Rood, subsecretário de Defesa, trabalhou para a Lockheed Martin e para a Raytheon.

Segundo The Project on Government Oversight (o Projeto de Supervisão do Governo, POGO), só em 2018, 645 funcionários de alta patente trabalharam na direção de um dos vinte principais adjudicatários militares: uma pequena pista de quem realmente dirige a política exterior do país mais armado do mundo, e de porque razão Trump eliminou a diplomacia do seu Governo.

 

A linha de Esper

Para o novo secretário da Defesa, o principal desafio da superpotência ocidental é conter a China e a Rússia, e a sua receita é:

a) Modernizar o Exército e prepará-lo para as futuras guerras próximas com tais potências, investindo mais dinheiro no equipamento das Forças Armadas, e aumentando o número de soldados para mais 500.000.

b) Construir armas específicas -como uma artilharia de precisão de grande alcance- para o «conflito de alta intensidade» que sucederá com a China e a Rússia. Diz com razão o diretor de planificação de programas da Fundação Secure World, Brian Weeden, que os Estados Unidos estão a preparar-se para um conflito armado com a China em vez de o evitarem.

E, para dissipar a preocupação dos neocon antiiranianos em relação às suas prioridades, propõe defender com contundência os interesses dos Estados Unidos no Golfo Pérsico. O primeiro passo será formar uma coligação com os aliados para “manter a liberdade de navegação à volta do Estreito de Ormuz” militarizando-o, enquanto o seu país impede ilegalmente a livre circulação dos petroleiros iranianos. O objetivo do ministro de «evitar a guerra com o Irão» passa por matá-lo à fome impedindo que venda o seu petróleo. Ao contrário de Mike Pompeo, Esper pensa que não se pode utilizar a Ley Antiterrorista AUMF para atacar o Irão, sendo este um Estado – e não um grupo terrorista –, mas sublinha que o presidente tem direito a “defender-se” contra um ataque iraniano, sem a autorização do Congresso.

Para “derrotar a rebelião no Iraque e no Afeganistão, propõe renovar os veículos militares e fabricar aeronaves especiais “adaptadas” a esses conflitos, para que a carnificina que o seu país e os seus aliados montaram ali perdure mais anos e seja mais rentável monetariamente.

Esper terá mais desafios tais como: recuperar a aliança com a Turquia ou continuar com o projeto de “um estado curdo” desmantelando o Iraque e a Síria? Enviar tropas à Líbia para expulsar a Turquia e o Qatar, unindo-se à Rússia? Que mais fazer para provocar o caos na Venezuela?, entre outros tantos. «Com o Exército envolvido em mais de 140 países de todo o mundo…, a nossa preparação deve ser a nossa máxima prioridade»:  Ester está em estado de guerra permanente, e Trump pediu ao Congresso um aumento de 13% no orçamento militar para um já astronómico valor de 700.000 milhões de dólares.

As empresas de armas tiveram um papel decisivo para que hoje não exista um movimento global antimilitarista. A rede Put People Over the Pentagon (Dar prioridade ao povo acima do Pentágono) reuniu uma vintena de organizações progressistas para pressionar os candidatos presidenciais para que eliminem 200.000 milhões de dólares do orçamento deste Departamento. Que tenham muita sorte!

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A autora: Nazanín Armanian (1961-), é uma escritora e politóloga iraniana exilada em Espanha desde 1983. Licenciou-se em Ciências Políticas pela Universidade Nacional de Educação à Distância (UNED), onde lecionou de 2009 a 2013. De 2007 a 2012 foi também professora de questões islâmicas de cursos complementares da Universidade de Barcelona. Em 2015 ministra a cadeira de Relações Internacionais na UNED. É tradutora oficial de persa/farsi para espanhol. A sua área de investigação é o mundo islâmico, o islão político, a geopolítica do Médio Oriente e Norte de África e os direitos das mulheres. Colabora em diversos meios de comunicação espanhóis e mantém uma coluna semanal no blog Punto y Seguido do diário Público.

 

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