Esta estória recolhia-a de um jornal europeu há já uns tempos e escrevo sobre ela agora, por ser um bom exemplo de ‘divismo’, aquele complexo de superioridade bem vulgar, até num modesto cantador de baptizados, mas resumo-a assim para não gastar muito espaço com ela.
«Keith Jarrett experimenta o piano mas logo se levanta a gritar ‘Esta porcaria desafina!’ e faz tenção de abandonar o palco, por entre os assobios e vaias do público.
Mas o promotor põe-se de joelhos e ‘Sorry Keith, mas se não tocares, vai ser a minha ruína total!’
O fim da estória adiantava que aquele fantástico pianista de jazz, depois de ver e ouvir isto, voltou atrás e transformou um espectáculo com piano desafinado, no directo mais vendido de sempre – ‘O concerto de Colónia’ de 1975»
Não me custa, mesmo e só a propósito de desafinações, relembrar que o acto da fala é também o acto inicial da política, mas Hannah Arendt vai mais longe ‘Muito embora as estórias sejam o resultado inevitável da acção, não é o actor mas sim o contador que percebe e «faz» a estória’
E também não me custa usar-lhe os intervenientes para falar da actualidade cultural e política, por ser confrontado a diário com afirmações e atitudes servindo os narcisismos e os egos próprios dos modelos mais populistarizados (perdoem o palavrão!) de políticos e pensadores.
Para Enzo Traverso, filósofo e professor de História na Universidade de Cornell, ‘Trata-se apenas de um radicalismo aparente porque, no fundo, ninguém questiona as coisas mais importantes;há muita gesticulação para que tudo continue na mesma!’
E salienta, depois de afirmar estarmos a viver num mundo prisioneiro do presente e sem projectos para além das próximas eleições, que tal acontece porque ‘os desafios que valem a pena, a construção da Europa ou travar a alteração climática, exigem pensar a longo prazo’
Não quero nem posso dramatizar esta escrevinhação, mas também não sei como escapar de algum pessimismo ao pensar em salvinis, gorbans, boris, trumpas, bolsonaros, coelhos, cavacos e quejandos porque, afirma Juan António Molina, ‘os encarregados de resolver os problemas dos cidadãos, converteram-se num problema para os mesmos cidadãos’
E já nem toco aqui em bicho mais miúdo porque, de acordo com um antigo provérbio chinês, ‘más companhias são como um mercado de peixe; acabamos por nos acostumar ao mau cheiro’
Também sei, a ver pela dimensão das questões com que estes tempos nos estão asfixiando, que voltar aos clássicos ajuda a entender melhor ‘o andar da carruagem’ mas não devia ser só aos praticantes dessas leituras, deviam servir também e principalmente, àqueles tais encarregados.
Veja-se como o explica o ‘velhinho’ Aristóteles, ‘Para assegurar a permanência dos regimes políticos é importante uma educação de acordo com o regime’, por de nada servirem as leis, mesmo ratificadas, se os cidadãos não forem educados no regime (‘Política’, cap. 9)
Dá para entender o que tem sido feito nos últimos tempos, com as Humanidades e tudo o mais, para diminuir a importância da Educação e até dá para relembrar Bismarck, por ter garantido há quase dois séculos, que as pessoas deixariam de dormir tranquilas se soubessem como eram feitas as leis e as salsichas!
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor
Valerá a pena aquilo a que E. Traverso, à semelhança de tantos outros, chama de construção da Europa? Continuar a esmagar Nacionalidades ? Já não basta quantas estão oprimidas em todos os Estados da chamada União Europeia, bom grado, a honrosa excepção de Portugal, CLV
Valerá a pena aquilo a que E. Traverso, à semelhança de tantos outros, chama de construção da Europa? Continuar a esmagar Nacionalidades ? Já não basta quantas estão oprimidas em todos os Estados da chamada União Europeia, bom grado, a honrosa excepção de Portugal, CLV
Cada um no seu pequeno mundo, pode ser a alavanca, ajudando a dizer não!
Abraço
A.O.