CARTA DE BRAGA – “da ganga e da poesia” por António Oliveira

Não o via nem o contactava havia mais de trinta e cinco anos!

Não tínhamos sido amigos inseparáveis, mas respeitávamo-nos e partilhámos conversas, gostos, silêncios e vagares, até eu ter desandado na procura de novos caminhos e outras oportunidades.

Desandei porque lá, onde o conheci e lhe apreciei a convívio, não me sentia completo por diversas razões e por não acreditar que poderia aceder a oportunidades de nem vir a ter se ali continuasse.

As gentes e o lugar, preciosos os dois, não chegavam para me levarem a desistir de as procurar, a começar pela necessidade do espaço a que estava e vinha afeito, pelas imensidões de África.

De uma maneira ou de outra, consegui manter alguns contactos e amizades, fiz e desfiz depois outros rumos e ilusões, regalei-me alegrias e pesares, deixei mais marcas e memórias, umas boas e outras nem tanto, arranjei-me um sítio e, muitas vezes, ‘volto’ lá atrás, a todos os que me foram importantes e gostaria mesmo de voltar a sentir por perto, algum dia.

Pedi a um amigo comum, dos que as voltas da vida e das distâncias me permitiram manter, para me conseguir o telefone dele e um dia liguei-lhe, na esperança de ainda lhe restar na memória só um poucochinho da imagem que deixei, por saber bem que não deixamos mais nada!

E depois de lhe ter dito quem era, de me ter situado no tempo e no lugar, levo com duas perguntas de seguida, ‘tu não eras aquele que vestia sempre calças de ganga?’ e, após algum silêncio da minha parte, ‘e não eras aquele que gostava de poesia?

Depois de termos arranjado um diálogo agradável apesar da lonjura do tempo que nem o telefone amenizava, trocámos as informações mínimas para podermos vir a usar um qualquer dia.

Mas fiquei a matutar nas perguntas do meu amigo de antes, nas imagens em que se baseavam e na valia das marcas e memórias que vamos deixando atrás.

É próprio da condição humana, sei-o bem pela minha antiga profissão, porque ‘a imagem mantém toda a informação sensorial e perceptiva, para uma avaliação estética quando é preciso fazê-la racionalmente’ mas sem nunca esquecer também ‘as palavras são a minha memória, a minha narrativa; sou feito de palavras, porventura silenciosas mas o pouco que sei são palavras’.

Socorri-me de Lamberto Maffei e do seu ‘Elogio da palavra’ para aqui o conseguir explicar e até pelo facto de manter aqueles ‘vícios’ já há umas boas dezenas de anos – continuo a usar calças de ganga e a manter a poesia como alimento da mente e do espírito – por acreditar, como escreveu um dia Marco Aurélio, ‘cego é aquele que mantém fechados os olhos da mente

Ele, o meu amigo das perguntas vai entender isto se algum dia o ler, apesar recurso irrecusável a citações mas, a terminar esta Carta, uma outra questão – que seria do homem sem palavras e nem pudesse fazer perguntas?

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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