Ano de 2019, ano de eleições europeias. Parte II – Imagens soltas de uma União Europeia em decomposição a partir de alguns dos seus Estados membros. 5º Texto – A esquerda alemã e os desafios levantadas pelas migrações

A esquerda alemã e os desafios levantadas pelas migrações

(Peter Whal, 9 de Fevereiro de 2019)

alemanha

Desde que a Chanceler alemã suspendeu o Acordo de Dublin em Setembro de 2015, permitindo a entrada de um milhão e meio de refugiados no país durante os dezoito meses seguintes, a questão da migração desempenhou um papel espetacular na política alemã.

Havia muita especulação sobre as motivações da Merkel. Tratou-se de uma estratégia a longo prazo contra o declínio demográfico e o envelhecimento da população? Um plano para a garantia financeira das pensões? Ou foi para resolver a escassez de mão-de-obra? Ou um ataque neoliberal contra os trabalhadores, usando os migrantes para o dumping salarial  e social? Ou será que a Chanceler atuou desta forma por motivos humanistas, quase Madre Teresa dos migrantes?

Sumário

– Crise no sistema político e viragem à direita

– Aprofundamento da  crise da esquerda

– Mais do que um conflito sobre a  migração

Como mostraram as investigações sobre a noite dramática de 4-5 de setembro de 2015[1]  Merkel não tinha nenhum plano, nenhuma estratégia. Foi tão simples quanto pragmático para ela evitar imagens dramáticas de televisão, com dezenas de milhares de refugiados na estrada na fronteira entre a Áustria e a Baviera. Foi a curto prazo, para evitar stress e desentendimentos. As considerações a longo prazo não desempenharam qualquer papel na sua decisão. Isto está em perfeita sintonia com o seu estilo político geral, que ela própria descreve como “condução à vista”.

Nos primeiros meses que se seguiram a esta noite, houve uma incrível onda de solidariedade entre a população. Em todas as cidades e mesmo nas zonas rurais, os grupos de apoio aos refugiados desenvolveram-se espontaneamente. Eles assumiram grande parte do fardo sobre os ombros, que as administrações sobrecarregadas e por vezes resistentes não conseguiram suportar. Uma nova palavra foi criada: “Willkommenskultur” (cultura anfitriã).

Ao mesmo tempo, a decisão unilateral de Berlim teve enormes efeitos colaterais. Em primeiro lugar, sobre a União Europeia. Para além das fortes tendências centrífugas já existentes, foi acrescentada uma outra crise profunda entre os Estados-Membros. Ainda não está resolvida.

Depois de alguns meses, no entanto, outras consequências problemáticas também apareceram quando, na véspera de Ano Novo 2015-2016, várias centenas de mulheres foram vítimas de assédio sexual, que foi atribuído a migrantes Maghrebi frente   à Catedral de Colónia. A partir desse momento, desencadeou-se um enorme retrocesso, um voltar atrás. O governo federal implementou todo um pacote de medidas que colocaram a política de migração alemã de volta ao resto da Europa Ocidental. O número de requerentes de asilo passou de 890.000 em 2015 para 722.370 em 2016 e para  198.317 em 2017. [2] O gesto humanista de Setembro de 2015 é agora sentido  como perda de controlo- e com razão.

Crise no sistema político e viragem à direita

Entretanto, o clima político no país tinha mudado drasticamente. A cultura de acolhimento foi colocada na defensiva e é agora marginalizada. Os problemas relacionados com a imigração em massa estão em primeiro plano no discurso público. Os desenvolvimentos em torno da migração serviram de catalisador para acelerar uma mudança geral da sociedade para a direita. A hegemonia sócio liberal que o país viveu nas últimas décadas está cada vez mais em erosão, o que está agora a ter um efeito dramático no sistema político:

– Com a AfD (“Alternativa para a Alemanha”), um partido de extrema-direita a entrar no Bundestag pela primeira vez desde o fim da guerra. Este partido  representa o maior grupo de oposição do país. Está representada em todos os parlamentos dos Länder. Na Saxónia, é mesmo o partido  mais forte. O seu tema central é a migração.

– A CDU de Merkel passou  de 40% dos votos no passado para uma média de 30%. A sua ala bávara, a CSU, perdeu a sua maioria absoluta no Parlamento de Munique após meio século de dominio. A maioria das suas perdas foram a favor da AfD e, incidentalmente, para os Liberais (FDP). Entretanto, Angela Merkel teve de se demitir do seu cargo de líder do partido e não está claro se continuará a ser chanceler até ao final da legislatura. Dentro da CDU, há um conflito agudo entre o conservadorismo iluminado representado por Merkel e a ala direita do partido. O resultado da luta é incerto.

– O SPD, o mais antigo partido social-democrata do mundo, segue a tendência de todos os social-democratas que se tornaram neoliberais: está em crise existencial. Depois de atingir 40% com Schröder em 1998, situa-se atualmente entre 14% e 18% nas sondagens . Este é o nível mais baixo desde 1887 [3] , com as maiores perdas de eleitores a favor da AfD e dos Verdes.

– Depois da AfD, os maiores vencedores destas  convulsões são os Verdes. Enquanto se situavam atrás do Partido de Esquerda (9,2%) nas eleições federais de 2017 com 8,9%, eles atualmente representam 18% a 20% nas sondagens.

– A percentagem de eleitores no Partido da Esquerda estagna entre 8% e 10%. No entanto, por trás da fachada das estatísticas há uma mudança profunda na base eleitoral. Nos novos Länder do Leste, onde o partido tradicionalmente tinha as suas fortalezas, está a perder massivamente para a AfD, enquanto ganha terreno nos centros metropolitanos do Ocidente.

    – Apenas o FDP neoliberal está relativamente estável no momento, com um percentual de votos de 8% a 10%. Nas eleições para o Parlamento Europeu, espera ganhar influência através do partido de Emmanuel Macron, que aderiu ao grupo liberal ALDE.l’Ouest.

A instabilidade do sistema político é acompanhada por uma intensificação e polarização do clima geral de opinião no país. Insegurança, polémica, incomodidade  e agressividade no debate público estão em ascensão numa ampla frente.

No entanto, é de salientar que estas perturbações não podem ser atribuídas simplesmente ao afluxo de migrantes. Eles são, acima de tudo, a expressão de problemas mais profundos que se têm estado a desenvolver desde há  muito tempo sob a capa  da estabilidade. No entanto, o debate sobre a migração realçou-os e contribuiu para a sua intensificação.

Aprofundamento  da crise da esquerda

A esquerda alemã existe. [4) É ativa, discute, publica,  organiza ações, está presente nas lutas locais e nos movimentos sociais. Se tomarmos como indicador os resultados das eleições, estes permaneceram estáveis entre 8% e 10% na última década. Ao mesmo tempo, as sondagens mostram  repetidamente que segmentos crescentes da população estão cada vez mais insatisfeitos com as condições sociais, económicas e políticas. A incerteza e os receios sobre o futuro estão a aumentar. De facto, os grandes desafios ecológicos, económicos, sociais e políticos exigem uma esquerda forte.

No entanto, a esquerda alemã ainda não conseguiu aproveitar as oportunidades decorrentes das mudanças verificadas. Por trás da fachada de estabilidade, há diferentes processos de crise. Ela está a ter dificuldade em lidar com as rápidas mudanças no capitalismo, as mudanças sociais e mentais na sociedade e a nova confusão no sistema internacional. Fica atrás da dinâmica do desenvolvimento social e a sua orientação  estratégica é opaca. O resultado é um pratica na ação feita de rotinas  que durante muito tempo escondeu  a impotência, a fragmentação e a formação de diversas correntes.

O afluxo de imigração caiu nesta situação em 2015. Ele agudizou de forma  acentuada  as contradições dentro da esquerda, e especialmente trouxe o Partido de esquerda para a beira de uma  divisão aberta. As linhas da frente cruzaram a liderança do partido. Um campo era liderado por Sahra Wagenknecht, co-presidente do grupo parlamentar do Bundestag e figura pública mais proeminente do partido. Do outro lado, Katja Kipping, co-presidente do Partido.

O partido é composto por   cinco ou seis correntes, que também são oficialmente reconhecidas como tal e formalmente constituídas. Mas o debate sobre migração levou a uma polarização binária que às vezes degenerou em agressão odiosa. Por um lado, registou-se um aumento acentuado das comparações nazis e acusações de racismo. Por outro lado, os respetivos adversários têm sido descritos como marionetes  do neoliberalismo. Por conseguinte, ambas as partes afirmam estar comprometidas com os valores fundamentais da esquerda. Nestas condições,  cada discussão é altamente carregada de efeitos que inevitavelmente os levam ao confronto e à dinâmica sectária.

O conflito irradiava para toda a esquerda, mesmo que raramente assumisse formas tão dramáticas.

Atualmente, o conflito no seio do Partido da Esquerda acalmou um pouco. A principal razão prende-se com as próximas eleições a nível de vários Länder. Especialmente no Leste, Brandeburgo, Saxónia e Turíngia, as apostas são altas. Em Brandeburgo, o partido e o SPD formam o governo, na Turíngia até o primeiro-ministro vem do partido de esquerda. Em ambos os casos, existe o risco de perder o lugar do governo e abandonar ainda mais votos para a AfD.

O que também contribui para uma redução das tensões é a redução drástica do número de migrantes. Num ompromisso no final de 2018, a posição programática básica do partido também foi alterada. No programa adotado em 2011, afirmava-se ainda: “Exigimos a abertura das fronteiras para todos. [5] Esta foi a posição inicial do campo de Kipping, que também está representado em muitos sectores da esquerda extraparlamentar. No contexto do afluxo de imigrantes em 2015 e 2016, o campo de Wagenknecht criticou esta posição como uma utopia irrealista, que não poderia ser alcançada nas condições de uma sociedade de classes.

Mais do que um conflito sobre migração

Entretanto, chegou-se a um compromisso com a fórmula que defende uma política de migração generosa e humana, livre de interesses económicos utilitários, mas, ainda assim, regulada pela política. O “sem fronteiras”, o slogan do programa para 2011, já não é mencionado. Não é certo que este compromisso se mantenha a longo prazo. Porque os problemas subjacentes ainda não estão resolvidos.

Entre estes problemas, há, em primeiro lugar, a questão da base social da esquerda. As atitudes anti-imigrantes são encontradas em maior grau em grupos subordinados da população, entre aqueles que se sentem ameaçados pela perda do seu estatuto social e que não se sentem reconhecidos pela política. Por exemplo, a proporção de sindicalistas da DGB que votam na AfD está significativamente acima da média. Estes três fenómenos aplicam-se particularmente aos alemães de Leste. . Isto explica o grande sucesso da AfD, por um lado, e as perdas da esquerda, por outro, nos novos Länder. O campo de Wagenknecht quer reconquistar, pelo menos em parte, os antigos eleitores do partido e salienta que, especialmente no domínio do emprego precário e do sector dos baixos salários, um grande número de migrantes não qualificados tornar-se-ia um concorrente dos trabalhadores locais.

No campo de Kipping, argumenta-se que é racismo opor os interesses dos trabalhadores locais  aos migrantes, e que as atitudes anti-migrante dos trabalhadores alemães devem ser combatidas de forma ofensiva como forma de racismo. Este argumento é reforçado pelo facto de que as perdas eleitorais a Leste   são parcialmente compensadas pelo ganho  de grupos jovens e instruídos nas grandes cidades a Ocidente.

A controvérsia faz parte de um quadro analítico que tem vindo a mostrar   desde há algum tempo uma divisão sócio estrutural das sociedades ocidentais em sectores ditos comunitários e cosmopolitas. Ao nível da estratégia política, isto corresponde à diferenciação entre políticas identitárias , por um lado, e política social e de classe, por outro. [6]

Naturalmente, para uma estratégia de esquerda, a consequência óbvia é combinar as duas, que é também o que está a ser tentado. Interseccionalidade é uma palavra-chave aqui. [7] Mas construir um conceito teórico é uma coisa, a sua realização prática é outra. Especialmente quando os laços com a comunidade já foram cortados, a divisão cultural é muito grande e em que ocorreu uma perda de confiança ao longo dos anos.

Para sair da  estagnação, Wagenknecht fundou um movimento extraparlamentar – “Aufstehen” (De  pé) – em setembro de 2018. Mais de 150.000 apoiantes se ligaram através da Internet. Inspira-se no movimento britânico Momentum , que desempenhou um papel decisivo na rutura do Partido Trabalhista com o neoliberalismo. A direção do  partido e muitos dos seus membros interpretaram isto como uma preparação para a fundação de um novo partido. No entanto, até agora, “Aufstehen” com dificuldade está a ir um pouco para além da sua presença na Internet.

Outra área de conflito estende-se a temas como “Heimat”[8] nação, Estado-nação, nacionalismo, soberania ou, por outro lado, internacionalismo, cosmopolitismo, europeísmo ou supranacionalismo. Isto também afeta as questões da globalização e da integração no quadro da UE. Aqui, a esquerda alemã ocupa uma posição especial em comparação com a esquerda de outros países: no contexto da história do século XX alemão, é particularmente anti-nacional e considera-se, pelo contrário, particularmente cosmopolita e internacionalista. Nos debates sobre  a migração, a corrente que defende sem fronteiras refere-se, portanto, explicitamente ao internacionalismo de esquerda. Por outro lado, uma vez que a AfD é obviamente nacionalista, muitas pessoas receiam reforçar a extrema-direita se não se posicionarem contra as fronteiras enquanto tal, o Estado-nação e a soberania. Esta atitude reflete-se também no debate sobre o futuro da UE. Uma maioria, embora em declínio, considera que o supranacionalismo da UE é, no fundo, um projeto progressista e defende o aprofundamento da integração.

Face a  todas essas questões complexas, seria necessário encontrar formas, espaços e métodos que permitissem trabalhar as diferenças de forma produtiva para evitar o agudizar  das contradições e uma rutura completa. Mas ninguém pode dizer, neste momento, se isto será bem sucedido.


Notas

[1] Un bon compte rendu en anglais, accessible par internet se trouve dans :. « The Night Germany Lost Control », Die Zeit, n° 36/2016.

[2] Bundesamtes für Migration (2019) : Migrationsbericht 2016/2017 : Zentrale Ergebnisse. Nürnberg. p. 2

[3] Com exceção, naturalmente   dos anos da Grande Guerra e do fascismo ,emq eu não houve nenhumas eleições.

[4] Neste texto, a esquerda é entendida não só como o Partido de Esquerda (Die Linke), mas também como as partes dos sindicatos, da sociedade civil organizada e dos movimentos sociais que se opõem às políticas neoliberais. Isto também inclui os vestígios  da ala esquerda da social-democracia e da ala esquerda dos Verdes, embora eles sejam agora amplamente marginalizados.

 [5] Programm der Partei DIE LINKE

[6] Uma boa análise geral destes conceitos : Merkel, Wolfgang (2016) : The Political Sociology of Cosmopolitanism and Communitarianism. Dans : WZB Mitteilungen, Heft 154, Dezembro 2016. Berlin. Merkel (sem nenhuma relação com a chanceler) é diretor  do programa  de investigação  Roturas  – cosmopolitismo, communitarismo e a democracia em   Wissenschaftszentrum Berlin : https://www.wzb.eu/en/research/completed-research-programs/cosmopolitanism-and-communitarianism

[7] Ver também  : Butler, Judith (2003) : Das Unbehagen der Geschlechter, Frankfurt/M.

[8] Em francês, “pays natal” está próximo do significado alemão, sem que o traduza  completamente. Uma dimensão do Heimat é realmente a região em que nasceu e onde foi cresceu enquanto criança.  Uma vez que a Alemanha só se tornou um Estado-nação muito tarde, as particularidades regionais, dialetos, etc., duraram muito mais do que em França. Heimat, portanto, desempenha um papel mais importante na psicologia coletiva. Mas o conceito vai além do país natal  e pode ter um significado mais amplo e abstrato. Por exemplo, na obra principal do filósofo marxista Ernst Bloch, Prinzip Hoffnung, ele estabelece uma ligação entre Heimat e a utopia socialista/comunista. A obra termina com a frase: Heimat, é onde ninguém ainda  foi. O abuso do termo pelos nazis desacreditou-o. Em resposta à incerteza causada pela globalização neoliberal, o termo renasce na sociedade alemã e tornou-se um terreno contestado na luta pela hegemonia.


O Sexto texto desta série será publicado amanhã, 05/09/2019, 22h


Tradução de Júlio Marques Mota – Fonte aqui

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