Os problemas da ordem monetária global são mais profundos do que Trump. Por Claire Jones

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Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Os problemas da ordem monetária global são mais profundos do que Trump

Claire Jones.jpg Por Claire Jones

Publicado por FTimes  , Alphaville, em 27 de agosto de 2019 (ver aqui)

Republicado por Gonzallo Rafo  (aqui)

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Uma das coisas que mais me lembra dos meus tempos de estudante de economia é algo que ouvi durante a nossa primeira conferência sobre macroeconomia.

Foi-nos mostrado um gráfico do PIB mundial ao longo dos últimos 150 anos. Era para servir como um lembrete dos fantásticos avanços no crescimento de uma economia global movida pela industrialização, mas havia um grande ponto fraco nesta linha de progresso: o final da década de 1920 e o início da década de 1930.

Depois de ter sublinhado este ponto, o conferencista disse confiante: “Mas não se preocupem, sabemos como resolver esse problema, não voltará a acontecer.

O sentimento em 2000, quando ouvimos essa palestra, foi de que Robert Lucas e a irmandade macroeconómica haviam feito da escassez de procura agregada uma coisa do passado. Sabíamos como combater outra Grande Depressão.

Era uma época em que os bancos centrais de todo o mundo estavam a ganhar independência para fixar as taxas de juros como bem entendessem, apoiados por uma doutrina que dizia que enquanto a inflação fosse mantida a um nível baixo e as taxas de câmbio fossem flexíveis, o crescimento global permaneceria estável. A política orçamental desapareceu em grande parte da cena, com o sentimento de que bastaria estabelecer estabilizadores automáticos para moderar as explosões e as recessões, mas não muito além disso. Quanto aos bancos? Bem, eles seriam mantidos sob controle pela teoria de que os mercados são eficientes e que, num mundo estabilizado monetariamente, um pânico financeiro simplesmente não iria nunca acontecer.

A arrogância desse mundo foi claramente revelada pela crise de 2008. E, no entanto, quando os futuros historiadores económicos tentarem identificar em que ponto a arrogância se tornou insuportável, poderão escolher a conferência de Jackson Hole durante os últimos dias do Verão de 2019 como o exemplo do último prego pregado no caixão da velha maneira de pensar.

Quando lemos pela primeira vez o discurso de Jay Powell na sexta-feira à noite, pensamos que dizia pouco porque não oferecia nenhuma informação nova sobre o que o Fed poderia fazer a seguir. Na verdade, o facto de que a orientação da política monetária do banco central mais importante do mundo seja tão incerta diz muito sobre a ansiedade dos formuladores de políticas.

A angústia destes formuladores provém de duas fontes sobrepostas.

A primeira é que em muitas partes do mundo as metas de inflação não têm sido atingidas há anos e a maioria dos bancos centrais sabe que restam poucas munições para lhe fazer face. Pode-se (se se tiver sorte) fazer alguns cortes de taxas normais. Se não puder descer abaixo do limite de taxas zero e passar a território negativo, pode comprar mais obrigações, mas em algum momento os seus comportamentos tornam-se extremamente controversos ou estão sujeitos a retornos decrescentes. Ou ambos os casos- tão desconhecido é o território que nós realmente não sabemos como é que as coisas se passam a seguir.

A segunda é que estão assustados com a pura imprevisibilidade do comportamento de Donald Trump. Os bancos centrais são um clube global cujos membros são seguidores de uma disciplina académica que muitas vezes exige que os seus profissionais suspendam a sua descrença e ajam como se as pessoas e os mercados sejam racionais. Eles não conseguem entender porque é que Trump imporia tarifas comerciais e desafiaria a independência do banco central – ambas as políticas que eles vêem não como um jogo de soma zero, mas como destrutivas para todos os envolvidos. Para eles, Trump não é apenas enlouquecedor mas é simplesmente louco.

O discurso de Mark Carney no fórum incidiu sobre estes dois problemas e deixou claro que ambos são sintomáticos de uma questão muito mais profunda: uma confiança excessiva no dólar, que as metas de inflação e as taxas de câmbio flexíveis já não podem manter sob controle.

Há 20 anos, o tema deste simpósio foi “Novos Desafios para a Política Monetária”, e o meu antecessor, Mervyn King, foi um dos oradores. As suas reflexões foram sobre os méritos da meta de inflação e das taxas de câmbio flexíveis. As aplicações dos seus conhecimentos contribuíram muito para melhorar os resultados económicos em todo o mundo nos anos seguintes.

Mas durante esse mesmo período, as deficiências do [Sistema Monetário e Financeiro Internacional] tornaram-se cada vez mais potentes. Mesmo um conhecimento passageiro da história monetária sugere que este centro não vai resistir. Precisamos reconhecer os desafios de curto, médio e longo prazo que este sistema cria para as estruturas institucionais e para a condução da política monetária em todo o mundo.

 

O domínio do dólar sobre a economia global foi um desastre que se esperava acontecer muito antes de Trump, ou mesmo antes da crise financeira global. O seu uso no comércio e finanças tem, durante décadas, compensado massivamente a contribuição dos EUA para o PIB global – como ilustrado por este gráfico retirado do discurso de Carney.

18 Os problemas da ordem monetária global são mais profundos do que Trump

Quando os EUA estão em dessintonia com o resto da economia global, o Fed fixa taxas de juros que são inadequadas para mutuários fora do país – mas que, no entanto, são afetados por elas. Isto, por sua vez, enfraquece a economia dos EUA, pesando ainda mais no crescimento global e assim por diante.

Como diz Carney:

Há relativamente poucos desequilíbrios fundamentais em termos de restrições de capacidade ou endividamento que possam, por si só, pressagiar uma recessão. No entanto, a combinação de desequilíbrios estruturais no seio do próprio [Sistema Monetário e Financeiro Internacional] em conjunto com o protecionismo está a ameaçar a dinâmica global. A amplificação das repercussões pelo sistrema FMI é menos importante quando as expansões globais são relativamente sincronizadas ou quando a economia dos EUA é relativamente fraca. Mas quando as condições dos EUA justificam uma política mais restritiva do que em qualquer outro lugar, as tensões no sistema tornam-se evidentes.

O facto de que o sistema se tornaria tão irremediavelmente quebrado quanto hoje é definitivamente algo que o nosso professor de economia jamais pensou que iria acontecer. Jackson Hole mostrou que as velhas certezas quase desapareceram.

Mas o novo paradigma está longe de ser claro.

O domínio da China sobre o papel internacional do renminbi afrouxou, mas não na medida em que a moeda é amplamente utilizada nos mercados globais ou no comércio mundial. O euro não tem um mercado de ativos de rendimento fixo tão profundo e líquido quanto o dos títulos do Tesouro dos EUA, e é improvável que um título comum seja emitido tão cedo. Alguns sugeriram a criação de um banco central global como órgão para controlar esses excessos e coordenar a política monetária. Mas não podemos ver Trump entregar o poder de fixar as taxas de juros dos EUA a um grupo de tecnocratas em Basileia – embora se o fizesse, ironicamente ele poderia ver realizado o seu desejo de reduzir os custos dos empréstimos dos EUA. Outros, como Robert Pringle, que escreveu sobre os bancos centrais há mais de 40 anos, apela a uma moeda mundial ligada ao valor das ações globais. Carney quer uma moeda digital ligada a uma cesta de moedas globais – ou algo como a moeda Libra, ou algo emitido por bancos centrais globais. Do seu discurso (ênfase nosso):

A história mostra que a ascensão de uma moeda de reserva baseia-se na sua utilidade como meio de troca, reduzindo o custo e aumentando a conveniência dos pagamentos internacionais.

As funções adicionais da moeda – como unidade de conta e reserva de valor – vêm depois, e reforçam a motivação dos pagamentos. A tecnologia tem o potencial de perturbar as externalidades de rede que impedem que a moeda de reserva global histórica seja substituída. As transações de retalho estão a ocorrer cada vez mais on-line em vez de serem feitas nas ruas principais, e através de pagamentos eletrónicos em vez de dinheiro.

E os custos relativamente altos dos pagamentos eletrónicos internos e transfronteiriços estão a incentivar a inovação, com novos participantes a aplicarem novas tecnologias para oferecer serviços de pagamento de retalho e mais convenientes e de menor custo. O perfil mais elevado destes serviços tem sido a Libra – uma nova infra-estrutura de pagamentos baseada numa moeda estável internacional totalmente apoiada por ativos de reserva num cabaz de moedas, incluindo o dólar dos EUA, o euro e a libra esterlina. Poderia ser trocada entre utilizadores em plataformas de mensagens e com retalhistas participantes.

Há uma série de questões fundamentais que a Libra deve abordar, desde a privacidade até à lavagem de dinheiro e o combate ao financiamento do terrorismo [AML/CFT] e resiliência operacional. Além disso, dependendo da sua conceção, pode ter implicações substanciais para a estabilidade monetária e financeira.

O Banco da Inglaterra e outros reguladores deixaram claro que, ao contrário das redes sociais, para as quais só agora estão a ser desenvolvidas normas e regulamentos, depois que as tecnologias foram adotadas por milhares de milhões de utilizadores, os termos de compromisso para qualquer novo sistema sistémico de pagamentos privados devem estar em vigor bem antes de qualquer lançamento. Como consequência, é uma questão em aberto se essa nova Moeda Hegemónica Sintética (SHC) seria melhor fornecida pelo setor público, talvez através de uma rede de moedas digitais do banco central.

 

Voltaremos a escrever sobre se a opção preferida de Carney de uma moeda digital do banco central é ou não uma boa ideia. Mas contar com o setor privado para preencher a lacuna parece não ser uma boa ideia. O lançamento de Libra tem sido um desastre (ouvimos dizer que muitos dos participantes do Jackson Hole ficaram bastante chocados com a razão pela qual Carney sugeriu a moeda estável do Facebook como uma alternativa viável para o dólar), o Livro Branco sobre a Libra colocando mais perguntas do que respostas.

Talvez também estejamos à procura de respostas no sítio errado.

Desde a era Greenspan, o ónus recaía principalmente sobre a política monetária para estimular o crescimento, na medida em que, desde a crise financeira, os bancos centrais, em economias como a da zona euro, se tornaram o único jogo da cidade. Mesmo em lugares como os EUA, onde houve um estímulo orçamental pós-crise e recapitalizações bancárias patrocinadas pelo governo, o Fed tem sido o ator dominante.

Em certo sentido, o professor de Alphaville tinha razão. Os banqueiros centrais desta geração aprenderam as lições da Grande Depressão, com Ben Bernanke – um estudioso da época – governador inflexível em que o Fed sob a sua administração manteria a liquidez barata e abundante. Isso, no entanto, também levou à flexibilização monetária devido às fissuras profundas nas economias nacionais e na ordem monetária e financeira global.

A nossa intuição é que o estímulo orçamental devia tornar-se novamente o foco principal da formulação de políticas económicas. Não apenas para estimular o crescimento, mas também para resolver os problemas que os bancos centrais, com as suas ferramentas contundentes e uma visão de mundo focada na inflação, não podem resolver. Pense na desigualdade ou na mudança climática.

Mas, para parafrasear POTUS, “….ONDE ESTÁ A LIDERANÇA ?”

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A autora: Claire Jones escreve sobre a economia da zona euro para o FT. Está sediada em Frankfurt e antes disso esteve em Londres, cobrindo o Banco de Inglaterra. Estudou filosofia e economia na London School of Economics.

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