
Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

2. Banqueiros centrais repensam tudo em Jackson Hole
Os políticos debatem uma mudança de regime nas condições económicas globais na qual pouco é certo
Por Brendan Greeley
Publicado por
em 25 de agosto de 2019 (ver aqui)

Para os banqueiros centrais do mundo reunidos em Jackson Hole, havia uma sensação de que as coisas nunca mais seriam as mesmas.
O mundo desenvolvido havia experimentado uma “mudança de regime” nas condições económicas, disse ao Financial Times James Bullard, presidente do Federal Reserve de St Louis. “Algo está a acontecer, e penso que isso está a causar um repensar total do banco central e todas as nossas caras noções sobre o que pensamos que estamos a fazer“, disse ele. “Só temos que parar de pensar que no próximo ano as coisas vão ser normais“.
As taxas de juros não voltarão a subir tão cedo, o papel do dólar está sob escrutínio como ativo de refúgio assim como meio de troca, e a incerteza comercial tornou-se uma característica permanente da formulação de políticas.
Os decisores políticos reconheceram que chegaram a um ponto de viragem na forma como encaravam o sistema global. Não podem contar com as ferramentas que usavam antes da crise financeira para moldar o ambiente económico, e os EUA deixaram de ser considerados um ator previsível na política económica ou comercial – mesmo que não haja uma substituição iminente do dólar americano à vista.
A reunião em Wyoming aconteceu com o presidente dos EUA, Donald Trump, prometendo na sexta-feira aumentar as tarifas sobre o valor de $250 mil milhões de importações chinesas. A sua ameaça coroou um dia tumultuoso nos mercados financeiros mundiais que começou com Pequim a anunciar novos impostos sobre 75 mil milhões de dólares de importações dos EUA e viu Jay Powell, presidente do Federal Reserve, advertir que não era função do banco central executar a política comercial.
As resultantes vendas no mercado sugeriram que os investidores estavam a acordar para a realidade de que não haverá acordo entre as duas maiores economias do mundo e nenhum fim claro para o conflito comercial, apenas a continuação da incerteza.
“Eles apostaram que vai haver incerteza, vai haver tweets, vai haver ameaças e contra-ameaças“, disse o Sr. Bullard. “E é assim que vai ser“.
Ele disse que estava a ficar claro que houve duas mudanças de longo prazo no ambiente económico subjacente. A primeira é que os bancos centrais não serão capazes de voltar às políticas de que dependiam antes da crise financeira global. As taxas não voltarão a subir para 5% e os balanços dos bancos centrais não voltarão em breve a zero.
Este problema é pior para a Europa e o Japão do que para os EUA, mas, dada a interligação da economia global, é relevante em todo o mundo.
A segunda mudança salientada pelo senhor Bullard é que, para as empresas, para o Fed e para os banqueiros centrais mundiais, os EUA já não estão em negociações comerciais. Encontra-se num período de grande incerteza comercial, com consequências a longo prazo para o investimento empresarial.
Tanto o Sr. Bullard como Robert Kaplan, presidente do Fed de Dallas, apontaram a política comercial do Sr. Trump em relação ao México – mais do que em relação à China – como um motor crucial desta incerteza. Em maio, o Sr. Trump ameaçou com direitos aduaneiros sobre o vizinho dos EUA, um país com o qual já tinha negociado um novo acordo comercial para modificar o NAFTA.
Para as empresas do distrito de Dallas do Fed, com cadeias de abastecimento que atravessam a fronteira, o Sr. Kaplan disse, “a luz acendeu-se e eles mudaram de posição“.
“Temos de nos posicionar de forma a compreendermos que podemos acordar qualquer dia da semana e ter uma surpresa comercial mesmo com as pessoas com quem temos acordos – e isso não é apenas com a China“, disse ele.
Pela primeira vez em muitos anos, segundo o senhor Kaplan, os banqueiros centrais estão a lidar com um problema que a política monetária não causou e não pode resolver. “O fulcro do que está a acontecer e a direção da economia tem mais que ver com política comercial“, afirmou.
E há outro aspeto do papel dos EUA no sistema económico global que preocupou os participantes de Jackson Hole: o estatuto do dólar no sistema monetário internacional.
Os EUA representam apenas 10 por cento do comércio global e 15 por cento do produto interno bruto global, mas o dólar é utilizado para estabelecer o preço em metade das faturas comerciais e em dois terços das emissões globais de títulos, disse Mark Carney, o governador do Banco de Inglaterra. Ele argumentou que isso criou distorções no sistema monetário global que minaram a eficácia da formulação de políticas.
Maurice Obstfeld, antigo economista-chefe do FMI e atualmente na Universidade da Califórnia, em Berkeley, afirmou que, quando outros países podiam prever o comportamento dos EUA, estavam mais dispostos a ceder o controlo do sistema monetário mundial a Washington. Mas essa abordagem está a ser cada vez mais escrutinada. “Quando os EUA eram vistos como um líder responsável da economia mundial, havia menos preocupação“, disse ele.
Sebnem Kalemli-Ozcan, da Universidade de Maryland, disse que a política monetária dos EUA empurrou o investimento para dentro e para fora das economias em desenvolvimento de formas que os seus próprios bancos centrais não podiam controlar.
O senhor Carney fez a sugestão radical de que uma moeda digital privada ou estatal poderia servir de contrapeso global ao dólar. Mas ele e outros reconheceram que não existia um mecanismo realista para dissociar a economia mundial do dólar americano a curto prazo.
À saída de Jackson Hole, os banqueiros centrais ficaram com pouco espaço para que o estímulo monetário neutralizasse uma perspetiva comercial cada vez mais sombria que eles não podem controlar.
“A melhor [política] seria: livrem-se desta incerteza política”, disse Bullard. “Então, não teríamos esta questão.”
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O autor: Brendan Greeley, é licenciado em História pela Tulane University. É editor de economia do Financial Times nos EUA. Anteriormente trabalhou para Bloomberg, The Economist.
