CARTA DE BRAGA – “de clicks e utopias” por António Oliveira

A utopia está no horizonte. Ando dois passos, ela afasta-se dois passos. Ando dez passos e o horizonte afasta-se também dez passos. Por muito que ande nunca a vou alcançar. Então para que serve a utopia? Serve só para isso, para andar

Eduardo Galeano

Esta frase, do celebrado escritor e jornalista uruguaio, anda há muitos anos a martelar-me a cabeça.

Corri pensadores, escritores, artistas, religiosos e nada encontrei que pudesse substituir a notável singeleza da afirmação de Galeano, a simplicidade que fez dele um dos mais conhecidos contadores da gente e de estórias das ruas.

Cioran que, talvez arraste algumas exclamações de surpresa pelo seu pessimismo, aplica-o bem numa possível interpretação e talvez consequência daquela frase ‘tendo abandonado a realidade pela ideia, a ideia pela ideologia, o homem derivou na direcção de um mundo de subprodutos, em que a ficção adquire as virtudes de um dado primordial’.

Subprodutos que, aparentemente, já estão hoje a definir e marcar os passos do homem. O ‘clickactivismo’ instalou-se, talvez de maneira definitiva, as pessoas já nem dão passos nenhuns, só carregam nas teclas dos smartphones, para ‘chamar’ o que desejam – pessoas, juízos, boatos, tweets, mas… e os sonhos onde estão, se ainda estão?

Como se poderá combater os efeitos tóxicos deste mundo ‘hiperconectado’, onde parece também, tudo está a ser feito para banir o termo ‘pensar’, por demorar muito tempo, por terem de se ler muitas páginas, por não caberem nos 140 clicks de um tweet, tão simples, tão fácil e nem obriga a sair do sítio?

Ao mesmo tempo e como consequência, instituiu-se o individualismo, onde é cada vez mais difícil ‘pensar’ para além do umbigo de cada um, frente a problemas globais, o clima, a poluição e a sacralização de valores como o nacionalismo e o patriotismo, a arrastar outros conflitos políticos, globais também, como a emigração e o racismo.

Terá sido a ‘verdade’ de Cioran a ganhar? A ficção é primordial?

A potenciar talvez isto tudo, é bem visível como a informação já não tem qualquer valor, por só a experiência contar, não a própria mas a do grupo, a do Facebook, do Instagram ou do Whatsapp, onde estiverem os que pensam o mesmo, por só assim saberem e conseguirem somar.

Uma das consequências, a pior com toda a certeza, será ‘o poder do texto e imagem, ter sido ultrapassado pela força da Internet, que acabou por meter a política num charco com uma infinidade de rãs, que se dedicam a encher as redes de impulsos irracionais, tóxicos e sem controlo’.

É assim o mundo de hoje, a poder ser definido pelo espaço entre estas duas frases, notáveis pela simplicidade, a segunda da autoria de Manuel Vicent, também jornalista e escritor.

Ainda haverá (será) tempo para utopias?

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

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