BRASIL – SUL21 – A FARSA DA POLARIZAÇÃO, por CÉLI PINTO – seleccionado por CAMILO JOSEPH

 

Foto: Guilherme Santos/Sul21

 

Desde as eleições de 2018, um falso discurso da polarização política no Brasil tem sido construído pela grande mídia. De um lado estaria uma extrema-direita, nunca realmente chamada assim; de outro, uma extrema-esquerda, posição ocupada pelo PT. Acrescente-se a esta caracterização o discurso de ódio recíproco, que separa os brasileiros em dois grandes grupos inimigos.

Isto é falso e convenientemente construído pelos grande derrotados das eleições de 2018.

O discurso de ódio circulante no Brasil é protagonizado pelo governo Bolsonaro, por grupos de apoiadores da sociedade civil e por setores das igrejas, tanto a católica como as pentecostais.

Em todos os lugares de enunciação, este discurso apela para a emoção, se antagoniza à razão e até mesmo ao bom senso. Possui alguns enunciadores privilegiados: o presidente da república; os ministros Damares, Weintraub, Ernesto Araujo; alguns deputados e deputadas, alguns pastores, blogueiros e youtubers. Nele há muito pouco do que se poderia chamar de político, de defesa de posições políticas, mesmo as mais radicais. Seu objetivo é atingir os sentimentos e emoções, articular-se aos conteúdos que vinham perdendo protagonismo nos corações e mentes dos brasileiros ao longo dos anos vividos em uma democracia, mas que permaneciam como resquícios e estão sendo reativados.

Duas características deste discurso são especialmente fortes: o machismo primário e o anticientificismo/anticultura.

O presidente abusa de um vocabulário machista chulo, para dizer o mínimo. Responde à pergunta de um repórter sobre a desaparecida figura de Queiroz dizendo: “está com sua mãe!”. Sobre a Amazônia, outro dia, declarou que não estava interessado na “porra da árvore”. A ministra Damares Alves, entre as barbaridades que tem dito, afirmou, em encontro de um grupo estadunidense de extrema direita em São Paulo: ‘Faz 24 horas que estou aqui e nenhuma mulher enfiou um crucifixo na vagina.”. As fantasias sexuais desta senhora desafiam a imaginação de qualquer roteirista de filme pornô, mas dão a medida do radicalismo fundamentalista irracional. Em respeito ao leitor e à leitora, não citarei a fala de Eduardo Bolsonaro, idealizador do evento, sobre as mulheres feministas. Tal discurso de ódio tem endereço certo: as mulheres em geral e a comunidade LGBT, consideradas inimigas da família cristã – composta de homem, mulher, filhos e pets – e defendida pela mesma ministra em Budapeste, no ultra conservador Congresso de Demografia, há algumas semanas.

O discurso de ódio também se coloca contra a ciência, a cultura e as artes. Num país como o Brasil, em que a educação é precária e mesmo os escolarizados, até com nível superior, são culturalmente pobres, tanto como cidadãos quanto como agentes do conhecimento, há um caldo de cultura para a construção do ódio às universidades, às artes plásticas, ao cinema, à literatura ou ao teatro. O ministro da educação, Abrahan Weintraub, corta verbas e despreza das universidades, mas se presta – e isto não é de menor importância – para o papel de bufão, ao chamar os docentes das universidades de “zebras gordas”. O Diretor da FUNARTE, Roberto Alvim, ofende a maior atriz de teatro brasileira, a nonagenária Fernanda Montenegro, chamando-a de sórdida. Já vi muitas homenagens à atriz pelos seus 90 anos na mídia brasileira, mas não vi qualquer manifestação de repúdio a Roberto Alvim, o que é sério, muito sério. Isto faz lembrar uma história recorrente na Alemanha pré Segunda Guerra . “eu estou vendo o racismo diário contra judeus no meu trabalho mas fico quieto, pois continuo amigo do judeu que vive na minha rua”. A omissão é sempre política e diz muito de quem se omite.

Agora pergunto: onde está o discurso de ódio do outro lado, o que daria forma à polarização? Quando, no Brasil, durante os governos de FHC e de Lula/Dilma, houve perseguição à ciência, apesar da penúria que o governo do sociólogo condenou às universidades federais? Quando houve perseguição às artes, às manifestações culturais em geral? Quando exposições foram proibidas? Quando foram definidos temas para apoiar o cinema? Alguma Igreja foi proibida de funcionar e ou se manifestar?

O maior líder da esquerda brasileira, Luiz Inácio Lula a Silva, está preso desde abril de 2018. Nos últimos meses, concedeu inúmeras entrevistas. Alguém viu Lula destilar ódio? Alguém ouviu Lula dizer uma única expressão chula? Alguém viu Lula exortar seus seguidores à violência?

Mataram Mariele. Houve muitas manifestações de repúdio a sua morte. Muitas. Mas ninguém saiu para rua pedindo vingança. Mandando matar. As manifestações tem sido todas para que a lei seja cumprida.

Se o leitor tiver paciência, vá aos diários do Congresso Nacional e busque um único pronunciamento de deputados de esquerda que estimule a radicalização. As universidades estão sendo ofendidas e desmoralizadas pelo ministro da educação. Como tem sido a resposta? Mostrando dados, expondo as pesquisas científicas realizadas para a sociedade civil, fazendo demonstrações públicas a favor da educação e da ciência nas ruas, sem incitação à violência, todas absolutamente pacíficas.

Portanto, não há polarização entre uma extrema-direita e uma extrema-esquerda no Brasil, é falso o discurso da polarização. Mais do que isso, é uma farsa montada pelos grandes derrotados de 2018. Os grandes derrotados não foram os que tiveram seu mais importante líder na cadeia, os que enfrentaram uma justiça na qual o juiz era o principal acusador e fake news foram propagadas com recursos até hoje não explicados. Os derrotados foram aqueles que montaram o golpe que derrubou Dilma Rousseff: o PSDB, o PMDB e a grande mídia. Eles apostaram, desde as manifestações de 2013, em afastar o PT do poder e assumir o governo do país. Deu errado. A nova investida agora é construir a farsa dos dois discursos, dois lados extremistas, para poderem se cacifar como os pacificadores do país.

Não há uma polarização de extremismos, há um governo extremista, reacionário, entreguista, ignorante, atrasado, fundamentalista, policialesco, antipopular, profundamente vulgar e chulo. O resto é farsa. Mais uma que está sendo montada, tijolo sobre tijolo. Cabe reagir.

(*) Professora Titular do Departamento de História da UFRGS.

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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