CARTA DE BRAGA – “os alcatruzes da memória” por António Oliveira

Sentámo-nos na borda do estradão de xisto onde estava edificada a capela.

O xisto era a marca de origem do lugar, embora fossem notórias as aportações da passagem e avanço dos tempos, mas a autoridade local tudo fazia para manter a traça original.

Assim se sucediam as casas, as pracinhas todas pequenas e ligadas por ruas imaculadas de branco, alguns vasos pendurados ou a ladear portas de entrar e de nem apetecer sair, de certeza a dar para salas e quartos de luz coada por lindas rendas a fazer de cortinas.

Tínhamo-nos conhecido (encontrado) na venda do outro lado da rua, ela à procura de conduto para o pão e eu à procura de remédio para a sede. Ela olhou para mim como se fosse um neto e eu vi-a como se fosse a minha avó, abalada havia muitos anos.

Não tardámos a conversar sobre o tempo e sobre o lugar – começam sempre assim as falas de nos contarmos, principalmente quando há necessidade de sermos ouvidos também!

Não é fácil viver sozinha nestas terras sempre à espera de Agosto, para voltar a ver os filhos e os netos, desandados à procura de lugar melhor para se viver

Tenho a certeza de esta ser uma transcrição literal daquelas suas palavras, por ter fixado bem aquele ‘desandados’ que passei a integrar no meu vocabulário habitual.

Aproveitando a abertura proporcionada por aquela frase, propus continuar a conversa na rua e ‘aqui o Manel não quer pôr mesas lá fora, como já lhe disse muitas vezes mas… vamos ali para o degrau grande da borda da igreja. E tu Manel, vais lá pôr qualquer coisa, se der vontade à gente!’ disse a olhar para o tal Manel que sorriu.

Estivemos por ali um bom bocado, eu bebi uma cerveja e ela uma garrafa de água e acabámos a ‘saltar lá para trás’ sob comando dela.

Comando aceite de bom grado, por ser ela dona das memórias que ali deslindou e eu nem gravei por ali estar sem essa intenção.

E contou da família vinda do outro lado do Tejo, nas migrações das ceifas e da apanha da azeitona, acabaram por ficar e ‘só já sei o nome da terra de onde vieram, nunca lá fui para a conhecer!

E falou de coisas que os pais lhe tinham contado, do que teriam feito por lá os franceses de um tal Junot, mas ‘não sei se teria sido mesmo assim, mas os meus avós e os meus pais não iam mentir!’ e não se encolheu no acrescentar ‘aqueles franceses não seriam como os de hoje, que só cá vêm em Agosto, com bons carros e dinheiro no bolso!

Quando se levantou sem avisar ‘tenho de me ir embora!’ deu-me um beijo na testa e nem tive tempo para mais nada e os alcatruzes da vida fizeram que só ali voltasse muitos anos depois e… até a venda já nem era!

Mas recordo muito bem a grandeza de uma senhora que nem me deu tempo de lhe saber o nome e por me ter dito, falando daquele e de outros sítios parecidos, ‘os lugares como este, pequenos e com gente que os outros dizem pequena e a fazer bem coisas pequenas, até podem vir a mudar o mundo!

Onde teria aprendido ou quem lhe teria ensinado coisas assim?

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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