Luzes e sombras do processo de destituição de Trump – 4. Porque é que Trump está a disparar uma barragem de ameaças. Por David A. Graham

Impeachment de Trump luzes e sombras

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

4. Porque é que Trump está a disparar uma barragem de ameaças

David Graham por David A. Graham

Editado por The Atlantic em 2 de outubro de 2019 (ver aqui)

 

A nova estratégia do presidente para combater o impeachment? Aumentar o custo do processo acima daquilo que os democratas estão dispostos a pagar.

4 Porque é que Trump está a disparar 1

KEVIN LAMARQUE / REUTERS

 

Embora os seus aliados insistam que os democratas têm andado à procura de uma desculpa para destituir Donald Trump desde o dia em que ele foi eleito, o presidente foi apanhado de surpresa há duas semanas quando a presidente da Câmara Nancy Pelosi anunciou um “inquérito oficial de impeachment“.

A Casa Branca continua a lutar para montar uma máquina para combater o impeachment, mas lentamente, a partir de uma série de tweets enfurecidos e declarações de assessores de Trump, uma central de mensagens está a começar a aparecer: Se alguém quiser perseguir o presidente, vamos tornar isso muito, muito caro para quem o queira fazer – e para a nação.

Essa ameaça aplica-se a indivíduos, incluindo o denunciante sem nome que apresentou uma queixa sobre a chamada telefónica de Trump ao presidente da Ucrânia, bem como a membros do Congresso, especialmente ao deputado Adam Schiff. E também se aplica ao país como um todo, quando Trump adverte sobre uma “guerra civil”, sugerindo que o custo de investigar as suas ações será o da destruição da ordem social – ou, dito de outra forma, será uma promessa de que se ele cair, levará o país com ele.

Para começar, Trump tentou intimidar o denunciante e sugeriu retaliação, uma medida que também serve para silenciar qualquer pessoa que possa apresentar evidências de abuso de poder presidencial. Falando à Missão dos EUA nas Nações Unidas na semana passada, Trump sugeriu que o denunciante deveria ser executado.

“Quero saber quem é a pessoa que deu as informações ao denunciante – quem é a pessoa que deu a informação ao denunciante, porque isso é quase um espião”, disse o presidente. “Todos sabem o que costumávamos fazer nos velhos tempos em que éramos inteligentes? Certo? Com espiões e traição, certo? Costumávamos lidar com eles de maneira um pouco diferente do que fazemos agora.”

No domingo, ele exigiu “conhecer não apenas o meu acusador”, mas também outros que “ilegalmente” deram a essa pessoa informações sobre as suas ligações telefónicas. Esta é uma perversão do processo do denunciante, que é um processo legal – ao contrário das acusações de Trump de violação da lei – e é projetado para proteger as pessoas com informações prejudiciais de intimidação e retaliação. Na segunda-feira, Trump disse: “Estamos a tentar descobrir um delator”.

Trump e os seus aliados, tanto na sua equipa como nos media, também passaram à ofensiva contra o Congresso. O principal alvo disso é Schiff, o democrata da Califórnia que é o presidente do Comité de Inteligência da Câmara. No início do testemunho da semana passada do diretor interino de Inteligência Nacional Joseph Maguire, Schiff fez uma paráfrase um pouco exagerada da ligação de Trump em 25 de julho com o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky.

Desde então, Trump atacou Schiff repetidamente no Twitter e em comentários. “Rep. Adam Schiff leu de maneira fraudulenta no Congresso, com milhões de pessoas a assistirem, uma versão da minha conversa com o Presidente da Ucrânia que não existe”. “Portanto, Adam Schiff mentiu ao Congresso e tentou fraudar o público americano”. “Quero Schiff questionado ao mais alto nível por Fraude e Traição”. “O Rep. Adam Schiff fez ilegalmente uma terrível e falsa declaração, pretendendo que era minha a parte mais importante da minha chamada ao Presidente ucraniano e leu em voz alta para o Congresso e para o povo americano. Não tinha nenhuma relação com o que eu disse na ligação. Prisão por traição?” ”Porque é que o congressista Adam Schiff não está a ser acusado de fazer uma declaração fraudulenta e lê-la no Congresso como se essa declaração, que era muito desonesta e desprestigiante para mim, fosse feita diretamente pelo Presidente da Estados Unidos?” “O congressista Adam Schiff deveria renunciar”. Etcetera.

Isto é um absurdo. Primeiro, Schiff estava a brincar, embora a sua piada fosse mal aconselhada; ele reconheceu na mesma audiência que as observações foram feitas como satíricas. Além disso, a transcrição foi divulgada publicamente para quem quisesse lê-la. Mesmo que Schiff estivesse tentando passar a paráfrase como genuína, não é “fraude” ou ilegal fazê-lo, e as observações dos membros do Congresso são amplamente protegidas pela cláusula de discurso e debate da Constituição. Embora Trump tenha rotulado várias coisas que ele não gosta como traição, não é preciso dizer que nada disso está perto de se estar a trair o país. Isso também é bom para o presidente, porque se inventar mentiras elaboradas fosse traição, ele estaria preso numa prisão agora mesmo.

No entanto, a única resposta mais consistente de Trump à investigação de impeachment nos últimos dias foi esse ataque a Schiff. À primeira vista, isso não faz nenhum sentido. Comparativamente, poucos americanos viram a declaração de Schiff, e é tão longe do centro da história que o leitor precisa de um telescópio para a identificar. Mas o verdadeiro objetivo de Trump não é levar a cabo acusações de traição a Schiff. Esta é uma jogada de antecipação, ameaçando Schiff e qualquer um que possa imitá-lo a pedirem contas ao Presidente de que Trump irá concentrar a sua potente máquina de atenção sobre eles.

O mundo de Trump também vai atrás do Congresso. O advogado pessoal de Trump, Rudy Giuliani, que está profundamente implicado no escândalo da Ucrânia, está a ameaçar com  processos judiciais contra o Congresso. Ele disse à minha colega Elaina Plott que quer processar “O Pântano” e, apenas um pouco mais coerentemente, colocou no Tweeter : “Estamos a considerar cuidadosamente as nossas opções legais para procurar obter reparação contra o Congresso e contra alguns membros individualmente considerados. Por se envolverem num esforço organizado que excedeu os seus poderes limitados, sob a Constituição, e por atropelarem os direitos constitucionais dos cidadãos ao envolverem-se em vários planos ilícitos, realizados por meios ilegais, para destituir o Presidente dos EUA, sob acusações intencionalmente falsas.” Até mesmo Laura Ingraham, uma incondicional defensora do Trump, parecia confundida.

Hoje, Trump colocou uma citação de um convidado da Fox News que disse, “Nancy Pelosi e os Democratas não cumpriram os padrões de impeachment. Eles têm nesta matéria que ter muito cuidado “. Mas cuidado com o quê?

Considerado em conjunto, isto parece muito parecido com obstruir a justiça. Os democratas começaram a chamar a atenção para isso. “Este é um esforço flagrante para intimidar uma testemunha”, disse Schiff hoje. “É um incitamento à violência”. Schiff também disse que qualquer um que tente impedir a cooperação com o Congresso pode estar a obstruir a sua investigação, ecoando um aviso numa carta enviada ao Secretário de Estado Mike Pompeo ontem. Isso é especialmente arriscado para Trump porque ele escapou com dificuldade das repercussões por obstruir a justiça na investigação da interferência russa na eleição de 2016.

Mas a Casa Branca está a utilizar um jogo semelhante ao que usou para combater a investigação do Conselheiro Especial Robert Mueller. Trump não tentou refutar Mueller, mas em vez disso trabalhou para convencer o país de que a prova estava enviesada e era tendenciosa, como sendo uma caça às bruxas. Agora, Trump não está a tentar bater a prova do impeachment num campo de jogo equilibrado; ele está a tentar fazer uma investigação tão desagradável que os investigadores decidam que não vale a pena, e que o público se volta contra o processo.

Trump já tentou esta manobra antes no governo, em situações de menor risco. Isso funcionou bem contra os ex-funcionários do FBI Peter Strzok e Andrew McCabe, sobre quem Trump foi capaz de usar informações prejudiciais para dar cabo das suas vidas e de forma menos eficaz contra o ex-diretor do FBI James Comey. Ele tem repetidamente ameaçado com processos judiciais – contra ex-assessores, contra autores, contra organizações de notícias – embora raramente tenha seguido em frente.

Mas é um método que Trump dominou no setor privado, onde se tornou uma ferramenta para a Organização Trump, contra contrapartes grandes e pequenas. Trump era desmedidamente litigioso. Ele era extremamente duro para com  as pequenas empresas por serviços prestados, reconhecendo que o custo de lutar contra a Organização Trump em ações judiciais era demasiado grande para suplantar os benefícios da disputa judicial. Em vez disso, os empreiteiros tinham de se contentar com pequenas quantias ou mesmo nada.

Trump foi atrás de grandes empresas desta maneira, também. Depois de uma série de fracassos financeiros, Trump ficou a saber na década de 2000 que a maioria dos bancos não estavam dispostos a emprestar-lhe dinheiro. A única exceção foi o Deutsche Bank. Em 2008, essa relação também começou a azedar. Trump entrou em incumprimento de um empréstimo de US $ 334 milhões, e, em seguida, processou o banco. No final, o Deutsche Bank acabou por chegar a um acordo.

As apostas nestes casos eram grandes para os envolvidos: às vezes uma questão de se uma pequena empresa sobreviveria, às vezes uma questão de centenas de milhões de dólares. Mas no esquema em grande plano, eles não eram tão importantes. Trump está agora a jogar com forças muito maiores e mais perigosas. Num tweet no domingo, ele invocou a ameaça de uma guerra civil para advertir os democratas que tentam destituí-lo. Trump, como um ignorante histórico que ele é, provavelmente não compreende o horror da Guerra Civil. Esse tipo de retórica carrega o perigo de se autorrealizar, mas o propósito de Trump aqui não é realmente fomentar uma guerra de tiros, mas assustar os seus críticos para acreditarem que ele está disposto a sacrificar até mesmo o país para salvar a sua presidência.

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O autor: David A. Graham é membro da equipa de redação do The Atlantic, onde cobre a política dos Estados Unidos e notícias de todo o mundo.

 

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