Risco de cauda: Como as histórias podem ajudar a explicar os pontos de forte expansão e contração das economias. The Economist

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Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Risco de cauda: Como as histórias podem ajudar a explicar os pontos de forte expansão e contração das economias

Uma vez que uma narrativa se instala, ela pode impulsionar os mercados

Editado por logo-the-economist em 10 de outubro de 2019 (aqui)

44 Risco cauda

Todos sabem, ou pensam que sabem, a história do engraxador de sapatos de Wall Street. Em 1929, Joseph Kennedy, patriarca do clã político Boston-Irlanda, teve um enorme pressentimento do que iria passar na bolsa enquanto lhe estavam a engraxar os seus sapatos. Quando o rapaz que engraxou os sapatos lhe ofereceu dicas sobre e ações, percebeu que o mercado de ações estava prestes a implodir. Kennedy prontamente vendeu todas as suas ações e tomou uma posição curta, apostando que o mercado iria cair. Quando o mercado caiu naquele mês de outubro isso gerou estragos devastadores.

No seu novo livro, “Narrative Economics”, Robert Shiller, prémio Nobel da economia, relata-nos este conto como exemplo de uma narrativa contagiosa que se torna parte da sabedoria popular. Uma história não precisa de ser precisa para se espalhar. Robert Shiller procurou nos arquivos de jornais da época, e não encontrou dela nenhum registo. Mas encontrou uma história similar no Minneapolis Morning Tribune. O mercado de ações, dizia, não poderia ainda ter atingido o pico porque “nós não ouvimos as empregadas de quarto e os engraxadores que fazem a limpeza e engraxam os sapatos das gentes afortunadas que jogam aos jogos da sorte”. Essa história foi publicada em 1915.

Qualquer que seja a sua proveniência, diz Shiller, importa é saber que tipos de narrativas são contagiosas e porquê. As que estão na moda e que têm o poder de captar a nossa atenção têm o poder de influenciar os comportamentos. As histórias influenciam as decisões de contratar ou de despedir; de comprar ou vender; de gastar ou poupar. Estas escolhas individuais, de grande envergadura, têm o poder de mover os mercados e de conduzir o ciclo de negócios. Fundamentais da economia como preços e lucros são apenas uma parte do cálculo. As histórias que as pessoas contam a si próprias e aos outros têm pelo menos a mesma importância.

Para exercer uma tal influência, as narrativas económicas devem primeiro tornar-se populares. A Epidemiologia oferece um modelo sobre a forma como elas se implantam. As epidemias de doenças têm forma de corcunda quando traçadas num gráfico. Na fase ascendente, a taxa de aumento de pessoas recém-infetadas (a taxa de contágio) é mais rápida do que a taxa de recuperação mais a taxa de mortalidade. Quando a taxa de recuperação excede a taxa de contágio, a epidemia cai. O mesmo acontece com as histórias. Um número crescente de pessoas “infetadas” espalha a narrativa; mais tarde vem um período de perda de interesse e esquecimento.

As narrativas económicas mais contagiosas impulsionam os ciclos de expansão e contração. Tais narrativas têm características comuns. Elas tendem a ser modelos demasiado simplificados da realidade e, portanto, cativantes. O seu sucesso pode dever-se a um “super-difusor”, talvez uma celebridade, capaz de infetar muitas pessoas. E muitas vezes fazem parte de um agrupamento narrativo, o que acrescenta peso à sua plausibilidade. O boom do mercado de ações da década de 1990 foi impulsionado por uma série de histórias: o triunfo do capitalismo; a ascensão da internet; o declínio da inflação; e assim por diante.

Algumas das narrativas mais contagiosas são variantes mais recentes e resistentes das antigas. Por detrás de cada boom imobiliário está uma mutação da narrativa eterna sobre o valor da escassez de terra. “Quem poderia pensar em cultivar ou contentar-se com uma centena de acres de terra, quando milhares de acres no amplo oeste estavam à espera de serem ocupadas”, diz um tratado documentando as loucuras do boom imobiliário americano dos anos 1830. O boom imobiliário global que levou à Grande Recessão de 2007-09 foi impulsionado por narrativas que persuadiram as pessoas a pensar nas suas casas como investimentos especulativos em terras escassas.

Uma ciência das narrativas económicas, do tipo a que Shiller apela, exigiria dados de alta qualidade. Precisaria de inquéritos regulares concebidos para extrair as justificações das pessoas para as suas decisões económicas.

Mas interpretar até mesmo bons dados seria complicado. As narrativas tendem a ser ignoradas pelos economistas porque as suas ligações com os eventos são complexas e variáveis – como o próprio Shiller observa. Qualquer dado oficial sobre narrativas, uma vez publicado, certamente se tornaria parte da própria narrativa.

As narrativas económicas mais proeminentes hoje em dia não são alegres. Uma pesquisa mensal realizada pelo Bank of America revela que dois quintos dos gestores de fundos esperam uma recessão no próximo ano. A mesma proporção acha que a disputa comercial entre a América e a China nunca será resolvida. Além da guerra comercial, os gestores de fundos citam a impotência dos bancos centrais e uma bolha nos mercados de obrigações como as suas maiores preocupações.

Pegue nestas mensagens, acrescente-lhes os inquéritos sombrios  sobre a confiança das empresas em todo o mundo, e o leitor pode decidir preparar-se para uma tempestade vindoura. Se assim for, o leitor ainda pode ser perturbado por uma dúvida incómoda, uma sensação de que a história não está a bater certa.

A habitual euforia de fim de ciclo, que leva as empresas a fazer investimentos imprudentes e que atrai os investidores neófitos para ativos especulativos, não está à vista.

As empregadas de quarto e os engraxadores desapareceram.

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