CARTA DE BRAGA – “do latim e do papel, com J.M. Branco” por António Oliveira

Foi uma tragédia terem marginalizado o latim e o grego! Estruturam a mente para pensar bem! Sem as humanidades, aborregas-te: serás refém do primeiro demagogo que passe!

Esta dura sentença é do romancista Arturo Pérez Reverte e consta de uma entrevista com poucos dias ao “La Vanguardia”.

Folheando e lendo ‘Sem fins lucrativos’ um livro com muito interesse da norte-americana Martha Nussbaum, filósofa e professora na Universidade de Chicago, ‘Actualmente ocorrem mudanças radicais em relação ao que as sociedades democráticas ensinam aos mais novos, e estas mudanças não foram bem ponderadas. Obcecados pelo lucro nacional, os países e os seus sistemas de educação estão a descartar levianamente, competências que são necessárias para manter as vivas as democracias’.

Nussbaum discorre ainda sobre o ‘fabrico’ de bons produtores e não de cidadãos capazes de pensar por si próprios, de entender o sofrimento a as conquistas dos outros e assim ‘o futuro da democracia mundial permanece incerto’.

E, parece até de propósito, José Tolentino de Mendonça, o novo purpurado do Vaticano, escreve em ‘Uma beleza que nos pertence’, ‘se não tivermos a humildade e a verdade de trilhar um caminho consciente, multiplicar-se-ão as vias alternativas’.

Tudo parece dar razão ao Pérez Reverte e tudo parece estar de acordo com uma outra sentença que se vai afirmando e impondo, lenta mas seguramente, ‘tudo e todos estão contra o papel!

Estão a desaparecer os quiosques de jornais para se transformarem em quiosques ‘qualquer coisa’ para ajudar os proprietários a sobreviver (os das estações aguentam-se com o ‘euromilhões’), estão a desaparecer jornais e revistas e há já muitos anos acabaram os ardinas, (resta um, imóvel dia e noite, ao fim dos Aliados, no Porto).

E, por outro lado, cada um de nós pode constatar isso mesmo, já quase ninguém lê! Nos transportes públicos, nas salas de espera dos consultórios, nos cafés e todos os outros lugares frequentados por ledores, hoje só vemos adictos ao telemóvel e qualquer que puxe de um jornal ou um livro é olhado com espanto, até desprezo ou piedade!

Não por se necessitarem umas poucas de árvores para produzir umas míseras folhas de papel, mas porque num espaço idêntico que se pode ler em qualquer ecrã, conseguem injectar anúncios que podemos ler ou não, mas cuja imagem fica lá, na memória, para ser usada a breve trecho.

A revolução e a transmissão do conhecimento pelo ecrã e pela via digital são mais-valias nos tempos actuais, mas com a velocidade que por tal se impôs, desapareceu também o rigor de ‘procurar’ e de ‘investigar’, de tentar saber do ‘antes’ para ter consciência do ‘depois’.

E a maior parte dos estudos indica ‘na maioria das pessoas com um telefone inteligente e acesso à Internet, o índice de compreensão das mensagens escritas é decepcionante e as horas dedicadas à leitura com fins informativos, educação ou outro prazer estético, decresceram notoriamente’.

Leonardo Padura, escritor e autor da reflexão de onde tirei esta sentença, acrescenta a terminar ‘necessitamos pensar e aprender por nós mesmos, que o ‘Grande Irmão’ é capaz de adivinhar as nossas preferências e pensamentos, para bombardear os nossos muito modernos computadores e telefones que até dizem inteligentes’.

E José Mário Branco afirmou a Armando Carvalheda, no programa ‘Viva a Música’ da Antena 1, em Maio passado ‘O capitalismo fez essa coisa inteligentíssima – controlar as grandes massas por dentro da cabeça, em vez de ser com algemas e com grilhões’.

A terminar, alguém já há o afirmou um dia (Espinosa?) ‘As pessoas são ignorantes não por quererem, mas apenas por que as mantêm na ignorância’ e Hannah Arendt na ‘Condição Humana’ deixou escrito ‘Os homens, não o homem, vivem na Terra e habitam o mundo!

Por que esquecemos tudo isto ao depender de um telemóvel?

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

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