CARTA DE BRAGA – Um conto para este Natal: “O senhor Andrade” por António Oliveira

Há muitas maneiras de ouvir música, ensinou-me o senhor Andrade, um chofer de táxi com paragem na zona da Politécnica.

Um homem antigo, simpático até dizer chega, de dar um ‘bom dia!’ a toda a gente, a conhecer bem os que ali passavam, já reformado e que ‘fazia’ o táxi para ter dinheiro para os seus ‘intervalos’.

 Um dia precisei de ir à Avenida da Igreja, tinha uns trocos a mais no bolso e apanhei-o na paragem de táxis de S. Mamede e Boa tarde! Preciso ir à Avenida da Igreja!

O senhor desbarretou-se, entrou no carro e entrei para o lugar da frente ao lado dele.

-Você é estudante, não é?

-Porque pergunta isso?

-Desculpe tratá-lo por você, mas é ainda um menino ao pé de mim e não me cai bem tratá-lo por senhor!

-Não há nenhum problema, até prefiro assim, mas porque perguntou de ser estudante?

-Tenho-o visto passar por aí com uns livros e sempre na direcção da Faculdade de Ciências!

-Vou mais para a frente, mas é verdade que sou estudante.

-Tem muita pressa em chegar ou está com dinheiro a mais?

-Mais isso, pois também deve estar uma rapariga à minha espera.

Não disse mais nada, o trânsito estava lento e acende o rádio na música clássica.

Deve ter gostado muito da música onde acertou porque, logo a começa a acompanhar com aquele assobiar leve feito com a língua no céu-da-boca e Gosta dessa música?

-Só ouço desta, nem sempre ligo o rádio porque há gente que quase me insulta, mas você tem cara de bom rapaz!

 

Ouvi interessado o concerto feito por ele a acompanhar a música do rádio, até chegar ao meu destino.

Ia pagar mas ele Vá lá ver se a rapariga está! Se lá estiver não paga a viagem e volto para a minha paragem, que o carro é meu. Se não estiver você paga-me um café e ficam as contas saldadas! Ok?

Espantado com a proposta entrei na pastelaria, ela não estava, voltei a sair e fiz sinal ao senhor para ir ter comigo.

Chamava-se Andrade, era avô, tinha um filho funcionário superior num banco, o neto mais velho estava a terminar Farmácia, a neta mais nova tinha entrado em Letras, a senhora sua esposa trabalhava em casa como modista para a família e as amigas e ele tinha sido viajante de uma empresa estrangeira ligada aos produtos químicos.

-Então precisa do táxi para quê?

-O carro já era meu, preciso ter o tempo ocupado, trabalho quando quero e posso e ganho uns trocos para os meus intervalos, para ir à música!

-Ir à música?

– Sim vou muitas vezes ao S. Carlos ouvir ópera e ao Coliseu e outras salas onde haja música clássica, mesmo que seja fora de Lisboa. Quando a minha patroa me quer acompanhar fazemos dois dias de férias extra e é essa a música por que continuo a trabalhar.

Passámos um bocado da tarde ali na pastelaria, bebemos duas cervejas que fiz questão de pagar, embora ele tivesse sido ele a chamar o empregado e Volto para a paragem de S. Mamede. Quer vir ou fica à espera da pequena?

– Vou com o senhor! Assim ando de táxi e não volto aqui mais porque, penso que quem me falta à primeira, voltará a fazê-lo mais tarde ou mais cedo. Além disso ainda vou poder ouvir falar um pouco mais de música!

Sorriu, esperou que eu entrasse e fechou-me a porta antes de ir para o seu lugar e fiquei a perguntar-me porque me teria ele feito aquilo, mas não lho perguntei.

O trânsito estava desimpedido, num instante estávamos em S. Mamede, agarrou-me o braço antes de eu sair e Foi um bocado muito agradável! Se não se importar, dê-me o seu número de telefone que, um dia destes faço-lhe uma surpresa!

-Mas porquê tudo isto senhor Andrade?

-Você é quase igual ao meu filho, é educado como ele, mas ele está em Lisboa e preciso de conversar com alguém que não fale só de futebóis. Não falámos disso uma única vez durante este tempo todo!

– Obrigado senhor Andrade, mas quando ligar peça para me chamarem porque somos uns tantos dentro daquela casa! E muito obrigado por tudo!

O senhor ligou-me quase quinze dias depois a saber se poderia passar pela ‘Alsaciana’ a pastelaria ali mais próxima, para tomarmos um café.

Cheguei à hora marcada por ele e Como está? Hoje pago eu! Vamos ali para uma mesa!

Sentámo-nos e o senhor Andrade começou logo por me fazer uma proposta, Daqui a uns dias vai estrear uma ópera no D. Carlos. Queria que fosse comigo, não à estreia, por ser muito caro e já não haver bilhetes, mas uns dias depois, lá nas bancadas de cima, naquilo a que chamam galinheiro. Convido eu e é uma boa oportunidade para ouvir música de que eu gosto!

-Mas, senhor Andrade, isso será uma despesa bem grande e eu não percebo nada dessa música! Tenho medo de que venha a ser uma coisa horrorosa.

-Se for tem sempre a possibilidade da sair, mas vai gostar com certeza. É uma ópera de Johann Strauss, que tem por nome ‘O Morcego’ e há dois cantores portugueses, o Carlos Guilherme e o Luís Rodrigues. Vamos acompanhar tudo por um libreto, onde estão todos os textos para a poder entender. Que me diz?

-Digo que sim, só tenho de saber como hei-de ir vestido, porque é uma ópera e por aquilo que às vezes vejo nos jornais e na televisão, é preciso ir bem arreado!

-Isso não é lá para cima! Lá vai gente simples, que gosta de música, que não tem nada para mostrar. É gente de todas as condições, só juntas ali por gostarem de boa música. Vá como anda todos os dias. Ah, connosco vai também um motorista que contratei para me fazer umas horas no táxi, porque já começo a ficar cansado, mas ainda é cedo para o vender e ele precisa de dinheiro. É um rapaz sério e trabalhador e logo vemos o que se pode fazer com ele e com o carro.

-Por mim não há nenhum problema, só preciso de saber o dia.

Fomos os três, foi uma noite fantástica e o senhor Simão, assim se chamava o motorista, era uma pessoa simples, atenta e interessada e senti-me bem.

Também passei a ouvir música daquela sempre que podia, até comprei um radiozito numa casa de penhoras não longe do sítio onde morava e onde uma vez, já tinha ‘entregado’ um sobretudo pelo de camelo.

Depois, acompanhei o senhor Andrade e, às vezes, o senhor Simão a concertos da banda da GNR no Jardim da Estrela, a outros concertos no Coliseu, sempre nas bancadas, mas onde apareciam maestros importantes, nacionais e estrangeiros.

Um dia, conversando numa pastelaria da Álvares Cabral, disse-lhe da minha maneira de ouvir aquela música, Deixar que aos violinos me acalmem o espírito e depois tentar perceber os instrumentos que estão a tocar.

-Então tente ouvir as músicas da mesma maneira que eu faço e não percebo nada de música, nunca a estudei e nunca toquei um instrumento! Naquele tempo era coisa para gente com dinheiro e posição e, lá em casa, as mãos só serviam para arranjar trabalho, porque era preciso sustentar a catrefada de filhos que os meus pais trouxeram ao mundo, doze e todos a comerem bem!

-Poça!

-Pode dizê-lo, mas estão todos mais ou menos bem, cá, no Luxemburgo, no Brasil e na América.

-Mas como é que ouve a música?

-Deixo sempre que ela entre bem cá dentro! Umas vezes sinto-a como se estivesse na praia a ouvir o mar, fecho os olhos e deixo que ela me invada, sem eu fazer nada para a conter. Outras vezes, sinto-a como se estivesse no campo ou na serra com um céu limpo e deixo que a música esvoace como fazem os gaviões, lentos e solenes. Também a vou ouvindo crescer quando anuncia borrasca e, depois, sinto que ela derrama sobre mim raios e coriscos, tempestades de trompas e tambores no máximo, para voltar a acalmar, depois de me ter acachapado onde estiver acoitado e encolhido perante a beleza dos sons! E, se tem uma voz a cantar, representando o que se passa, fico a saber como sou pequenino, mas algo ou alguém permitiu que tenha ouvido ou assistido e, termino muitas vezes agradecendo-lhe a magia da beleza e da música. Sou assim, apenas um modesto viajante de produtos químicos, promovido a chofer de táxi!

É raro o dia que não agradeço ao senhor Andrade, apesar de já cá não estar para me dizer que concertos vão haver na época de Natal que aí vem!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

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