PORQUE CORBYN PERDEU? UM POST-MORTEM SOBRE AS ELEIÇÕES INGLESAS, por SLAVOJ ŽIŽEK

OBRIGADO A SLAVOJ ŽIŽEK, ARTUR RENZO E BLOG DA BOITEMPO

 

Porque Corbyn perdeu? Um post-mortem das eleições inglesas, por Slavoj Žižek

Blog da Boitempo, 17 de Dezembro de 2019

Tradução de Artur Renzo

 

Há uma série de fatores por trás da recente derrota do Partido Trabalhista do Reino Unido. Eis a minha versão dos três principais motivos pelos quais isso ocorreu.

 

Há uma série de fatores por trás da derrota do Partido Trabalhista do Reino Unido nas eleições de dezembro. Eis a minha versão dos três principais motivos pelos quais isso ocorreu.

Visto que, de certa forma, as eleições giraram em torno do Brexit, o primeiro elemento que salta aos olhos é a assimetria na posição dos dois grandes partidos frente a essa questão. Se por um lado os tories reiteraram em alto e bom som seu lema “Get Brexit done!” [Faça o Brexit acontecer!], a postura do Partido Trabalhista foi a pior possível: plenamente ciente de que seus eleitores são quase simetricamente divididos entre os remainers (que votaram a favor da permanência na UE) e os leavers (que votaram a favor do Brexit), o partido ficou com medo de escolher um dos dois lados e assim perder os eleitores do lado oposto. Mas, como diz o ditado, se você tentar sentar se em duas cadeiras ao mesmo tempo, você acabará caindo no vão que as separa.

O que tornou as coisas ainda piores foi o fato de que a verdadeira posição de Corbyn nesse quesito era mais ou menos sabida: ele era a favor de um Brexit, só que de um Brexit diferente. Ele queria que o Reino Unido se livrasse das regulações financeiras etc. da União Europeia a fim de poder levar a cabo transformações mais radicais de esquerda. Independentemente de qual for a nossa avaliação a respeito dessa escolha – há bons motivos a favor e contra o Brexit –, o ponto é que o Partido Trabalhista se esquivou de promover um debate aberto a respeito dessa questão e mascarou sua indecisão com uma fórmula catastrófica – a saber: “Nós vamos deixar o povo decidir!”. Por que catastrófica? Porque as pessoas não querem que os políticos repassem a elas as decisões duras; elas esperam que os líderes políticos as apresentem um caminho claro, que eles as indiquem quais são as escolhas que elas deveriam fazer. Foi isso que os tories claramente fizeram.

O segundo motivo foi a campanha bem orquestrada de assassinato de reputação de Corbyn, que chegou a ser eleito o maior antissemita de 2019 pelo Centro Simon Wiesenthal (ranqueado à frente de verdadeiros terroristas!) – um caso de intervenção estrangeira no pleito eleitoral quase tão forte quanto a interferência russa nas últimas eleições estadunidenses. Eu mesmo acabei sendo arrastado nessa campanha: ataques ferozes chegaram a ponto de me descrever como “um grande articulador filosófico do antissemitismo europeu”. Não há nada de particularmente novo aqui. Trata-se apenas de uma pequena parte da ofensiva global cujas vítimas são também muitos judeus críticos à política israelense, como o “propagandista a favor do Hamas” Gideon Levy, que escreveu no Hareetz no dia 8 de dezembro:

“Leis tachando antissionismo de antissemitismo e rotulando o movimento anti-ocupação de antissemita são aprovadas com maiorias esmagadoras. Por ora, estão favorecendo os interesses de Israel e do establishment judaico, mas podem muito bem vir a deflagrar antissemitismo quando surgirem questões a respeito da dimensão da sua interferência.”

Gideon Levy, “A partir de agora, todo palestino é um antissemita”, Hareetz, 8 dez. 2019.

Considero Levy um verdadeiro “israelense patriota”, como ele certa vez se referiu a si mesmo. Ele prevê acertadamente que a equiparação precipitadada entre a crítica à política israelense e o antissemitismo poderá ensejar uma nova onda de antissemitismo. É possível ver claramente onde essa aproximação eventualmente vai dar… Como o marxismo nos ensinou, o antissemitismo é anticapitalismo transposto: ele projeta a causa dos antagonismos sociais produzidos pelo capitalismo na figura de um intruso externo (os “judeus”). A tentação aqui é que se dê o fatídico passo adiante e que se passe a denunciar qualquer forma radical de anticapitalismo como uma forma de antissemitismo. Sinais desse processo já estão se multiplicando em todo o mundo. Será possível imaginar uma forma mais perigosa de incitar antissemitismo?

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