CARTA DE BRAGA – “dos refugiados e da beleza” por António Oliveira

Jared Diamond é membro da Academia de Artes e Ciências dos EUA, biogeógrafo e prémio Pulitzer e, um dia do passado Dezembro, afirmou a um jornal daqui ao lado ‘Em breve os EUA deixarão de ser uma democracia. Dói-me e é o meu maior medo. Em democracia todos podem votar, mas hoje estão a amentar as vozes que querem privar do direito de voto a largos sectores sociais.

-Está a assinalar o presidente Trump?

-Se Trump revalida o seu mandato, dentro de cinco anos o meu país deixará de ser uma democracia. É muito possível. Se fosse trinta anos mais jovem, ir-me-ia embora’.

Para Diamond apenas a Europa poderia assumir a liderança mundial, mas só se conseguir resolver o seu principal problema, o populismo localista. Lá ‘se um líder diz à sociedade que o malvado vem de fora, faz-se notar como incompetente e populista e se alguém o votar é cúmplice do populismo. São assim os votantes de Trump, que culpa de todos os males os emigrantes, os intelectuais e os jornalistas de Washington: isto funciona nas urnas e mata a democracia!

Também está a acontecer nesta ‘velha’ Europa, a viver a mesma situação que já viveu nos anos 30, tal como conta Hannah Arendt em ‘As origens do totalitarismo’ em que todos os debates em volta dos refugiados se resumiam a uma pergunta ‘Como deportá-los?

E agora, tal como naquela altura, estão a gastar-se milhões para os despojar da nacionalidade, despojar cada emigrante de qualquer vínculo jurídico a um país que possa responder por ele, até a uma qualquer organização que o possa defender nos direitos que possui em todas as situações.

É o renascer do ‘Homo Sacer’ como o definiu Giorgio Agamben, quando os totalitarismos do passado e do presente, ‘produzem’ vidas nuas, pessoas que podem ser rejeitados radical e socialmente, por razões económicas, culturais e ou religiosas e, no limite, aniquilados, sem que tal acção seja passível de pena (a ver e ler, pelo menos, o que diz Bolsonaro).

E gastam-se mais milhões para ‘legitimar’ os espaços de excepção onde se possam acantonar, mas não nos isentam do perigo que ‘depois dos de fora venham, no final, a ser usados com os de dentro’, afirma com preocupação uma especialista em migrações do Barcelona Centre for International Affairs.

Não podemos esquecer, como dizia Shakespeare, ‘o passado é um prólogo’ e o poeta grego Agaton ia mais longe ao afirmar ‘Apenas isto é negado a Deus: o poder de desfazer o passado’.

Nem devemos esquecer o que o poeta francês Renée Char disse do campo de concentração nazi onde esteve prisioneiro ‘Na nossa escuridão, não há lugar para a beleza. Todo o lugar é para a beleza’.

Triste realidade!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

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