JEREMY CORBYN, UM POLÍTICO QUE SE DISTINGUE PELA SUA SERIEDADE – GRÃ-BRETANHA: AS RAZÕES DE UMA DERROTA – INTRODUÇÃO: CORBYN TROPEÇA NO BREXIT, por STATHIS KOUVÉLAKIS

 

Introduction: Corbyn trébuche sur le Brexit, par Stathis Kouvélakis

Contretemps, 16 de Dezembro de 2019

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

 

Neste terrível verão de 2015, o inesperado sucesso de Jeremy Corbyn, eleito líder de um partido do qual foi durante várias décadas uma figura isolada, corajosa e estoicamente acampado numa esquerda marginalizada, foi um dos raros raios de sol para a esquerda europeia, atingido no coração pela capitulação de Tsipras e do seu governo à Troika. A emergência de Corbyn e Sanders, ou mais precisamente a emergência das forças que lhes permitiram sair das margens da vida política em que estavam há muito confinados, foi sem dúvida o único sinal de esperança para a esquerda nos países ocidentais nos anos que se seguiram. É por isso que o fracasso do Partido Trabalhista sob Corbyn assume um significado completamente diferente para a esquerda radical e anti-capitalista do Ocidente do que qualquer fracasso passado desse mesmo partido ou desse tipo de força política.

A perda de bastiões históricos do Trabalho

O mapa desenhado pelos resultados das eleições de 12 de dezembro é inequívoco. A célebre “muralha vermelha”, os históricos redutos trabalhistas do Norte de Inglaterra e das Midlands, o antigo coração industrial do país devastado por décadas de neoliberalismo e pelo domínio do capitalismo financeiro, cedeu e voltou-se em grande parte para os conservadores. Os lugares ocupados desde a década de 1930 pelo partido fundado na viragem  do século por Keir Hardie e os sindicatos, no coração das comunidades mineira e operária, passaram para as mãos dos conservadores, herdeiros e continuadores do campo monárquico e da ordem imperial e aristocrática. No centro desta mudança totalmente sem precedentes na história do país está a questão Brexit, que tem dominado a agenda política desde o referendo de junho de 2016.

A maioria destes círculos eleitorais tinha de facto votado esmagadoramente a favor de Brexit, incluindo, não obstante os clichés, aqueles com grandes comunidades de imigrantes da classe trabalhadora pós-colonial. Nas eleições de 2017, os trabalhistas, apesar de terem feito campanha em 2016 para se manterem na União Europeia (UE) [posição de permanência, dita Remain], conseguiram mantê-los no seu seio, adotando uma posição de respeito pelo resultado do referendo. Corbyn tinha mesmo insistido que deixar a UE facilitaria a implementação de partes fundamentais do seu programa, tais como a nacionalização total dos caminhos-de-ferro e o restabelecimento de um monopólio público no fornecimento de eletricidade. No entanto, nos dois anos seguintes, sob crescente pressão dos apoiantes do Remain  dentro e fora do seu partido, Corbyn teve de concordar relutantemente em mudar a posição do partido em favor do Remain. Na votação, os Trabalhistas comprometeram-se a renegociar o acordo de Brexit entre Boris Johnson e a UE e a submeter o novo acordo a um referendo que deverá incluir também a opção Remain. Embora Corbyn tenha afirmado ser “neutro” quanto às opções sujeitas a tal referendo, colocando-se numa posição de facto não entendível (como é possível não querer defender um acordo que ele próprio teria renegociado?), quase todos os líderes do partido e a maioria dos seus representantes eleitos já se tinham comprometido em defender Remain, incluindo John McDonnell, o braço direito de Corbyn responsável pela política económica no “gabinete sombra” trabalhista, que tinha colocado todo o seu peso para conseguir a posição de um segundo referendo (incluindo a opção Remain) adoptada no congresso do partido[1].

Como era de esperar, o eleitorado, e em particular as classes trabalhadoras das regiões mais pobres que apoiaram amplamente Brexit, sancionaram este desejo mal escondido de derrubar o resultado do referendo de 2016. . Isto parecia ser o que é, ou seja, uma negação da democracia. O trabalho com uma liderança corbinista deixou-se levar pelo discurso determinado pelo desprezo de classe das elites e das classes médias “liberais” para com  os plebeus ignorantes, supostamente motivados apenas pelos seus vil instintos xenófobos e racistas. Para além do Partido Trabalhista, os Democratas Liberais, que se fizeram passar por zelotas do Remain propondo-se simplesmente anular o pedido de abandonar a UE sem sequer passar por um segundo referendo, pagaram também o preço. As suas esperanças de vitória – a sua líder Jo Swinson abriu a campanha ao apresentar-se como futura primeira-ministra – foram rapidamente frustradas e reduzidas a um modesto ganho percentual de quatro pontos e a um único lugar no parlamento, com Jo Swinson a não conseguir sequer ganhar a reeleição no seu círculo eleitoral. Quanto aos Trabalhistas, de um saldo negativo de sessenta lugares, perdeu quarenta e três nos seus bastiões tradicionais nas Terras do Norte e Midlands e caiu globalmente em quase oito pontos, de 40% para 32,2% dos votos.  Uma parte destas perdas é certamente compensada por um afluxo de votos da classe média pró-Remain : o partido ganha assim 27% do eleitorado democrata liberal em 2017, e mesmo 8% do eleitorado conservador pró-Remain em 2017, o que explica porque é que, enquanto  a “parede vermelha” dos antigos bastiões operários se desmorona, ganha lugares  em círculos eleitorais de classe média como Putney ou Canterbury [2]. Mas, no final, a deserção de uma parte substancial do núcleo do eleitorado histórico revelou-se fatal, como ditaria uma “lei” bem conhecida dos especialistas em sociologia eleitoral.

Uma sociologia eleitoral sem precedentes

Não há dúvida de que foi o Brexit que permitiu aos Conservadores ganhar esta eleição com uma nova configuração eleitoral, nomeadamente absorvendo parte da base histórica e popular eleitoral do partido trabalhista. Não foi uma aposta de antemão segura. Na verdade, os Conservadores estão agora à frente do Partido Trabalhista em mais de 11 pontos (contra apenas 2,4% em 2017), com um aumento de apenas 300.000 votos – e 1,4% em termos percentuais em comparação com as eleições anteriores. Mas as grandes mudanças tiveram lugar dentro do seu próprio eleitorado. Porque a radicalização dos conservadores, sob a liderança de Boris Johnson, num partido pró-Brexit não terá sido uma boa notícia uma boa notícia para todos os conservadores. Os conservadores sofreram perdas significativas entre os seus eleitores de 2017, dos quais pouco menos de um terço tinha votado permanecer   na UE no referendo de 2016. No entanto, um terço deste eleitorado  pró-Conservadores  já desertou, na sua maioria para os Democratas Liberais (21%), e até 8% deles para o Partido Trabalhista. Estas perdas foram, no entanto, amplamente compensadas pela contribuição dos eleitores pró-Brexit  do Partido Trabalhista, ou, ainda mais significativamente, mas completamente ignoradas pelo discurso dominante, pelos eleitores pró-Remain que rejeitaram o questionamento do resultado do referendo de 2016. De facto, ao contrário do que os meios de comunicação e as campanhas pró Remain  têm repetido constantemente, as fileiras deste último grupo provaram ser muito mais numerosas do que as do eleitorado pró-Brexit de 2016, que se mudou  para o  campo Remain (13% contra 5%, respetivamente, no eleitorado britânico como um todo). Os Conservadores conseguiram assim atrair 25% do eleitorado pró-Brexit Labour em 2017, mas também 18% de todos os eleitores que votaram Remain em 2017, mas que queriam que o resultado do referendo fosse respeitado e implementado.

O quadro torna-se ainda mais marcante se passarmos a uma análise do voto por categoria social. De acordo com a nomenclatura da estratificação social britânica, os Conservadores estão agora de 6 e de  20 pontos à frente dos Trabalhistas  nas categorias da parte baixa da escala, respetivamente nas categorias DE (desempregados, trabalhadores manuais qualificados e semiqualificados) e C2 (trabalhadores qualificados de colarinho azul). Em comparação com 2017, os trabalhistas caiem  nestas categorias em 9 e 6 pontos, respetivamente, e os Conservadores sobem 9 e 6%. É razoável supor que se os desempregados forem extraídos do grupo DE, a liderança dos Conservadores sobre os Trabalhistas seria ainda maior nesta categoria, na qual eles estão a alcançar  um avanço histórico de qualquer maneira.

A pontuação dos Trabalhistas  na categoria C2, ou seja, o coração do seu eleitorado na força de trabalho ativa, apresenta-se não  menos desastrosa. Distanciado por 20 pontos pelos conservadores, o seu desempenho aí é ainda ligeiramente inferior (30%) ao das classes altas (31%), do grupo AB de gestores seniores e médios e das profissões liberais. Dito de outra forma, o Labour pontua igualmente em todas as categorias sociais, em torno de sua média nacional de 32%. O seu desempenho é perfeitamente transversal as diferentes classes,  sem o menor sinal de voto preferencial nas classes trabalhadoras, em contraste com a votação de 2017, na qual onze pontos separaram o seu desempenho entre o topo e a base das categorias sociais (a favor desta última). Quanto aos conservadores, conseguiram o feito sem precedentes para um partido de direita da elite aristocrática, e cujo último executivo teve uma proporção sem precedentes de milionários, de fazer melhor na categoria central da classe trabalhadora (C2) do que entre as classes altas, o pilar tradicional do seu eleitorado (50% na categoria C2, 44% na AB).

Apenas a distribuição geracional proporciona uma visão inversa, e ainda mais clara. De facto, o Partido Trabalhista  ganha massivamente nos votos dos jovens (de 55% para 57% nos grupos etários 18-24 e 25-34 anos), embora em proporções muito menores do que em 2017, caindo 10 e 3 pontos, respetivamente, nos dois primeiros grupos etários. Esta diferença inverte-se na faixa etária 45-54 (8 pontos à frente para os conservadores) e torna-se verdadeiramente abismal entre os mais velhos (54 pontos à frente para os conservadores entre aqueles com mais de 65 anos).  Como os textos que se seguem apontam, o apoio dos jovens é sem dúvida uma formidável conquista do corbinismo, mas revelou-se insuficiente para ganhar eleições e compensar a perda das raízes de classe. Tanto mais que a abstenção é elevada entre os jovens, especialmente entre os jovens da classe trabalhadora, estimada em mais de 50%, o que, ao mesmo tempo, relativiza o significado do espetacular desempenho dos Trabalhistas  entre os eleitores destas faixas etárias.

A esquerda virada para a UE: crónica de um desastre

Deve ser salientado que esta configuração não é de forma alguma uma exceção ao excecionalismo britânico. A União Europeia é objeto de uma profunda e crescente rejeição por parte das classes trabalhadoras e populares do continente. Como alguém tão insuspeito do “anti-europeísmo” como Thomas Piketty salientou num recente texto de opinião baseada num estudo comparativo dos resultados eleitorais em vários países da UE, “os votos em torno da União Europeia ainda se caracterizam por uma divisão de classes muito  acentuada”. Rejeitando as explicações que atribuem esta rejeição à xenofobia e ao racismo supostamente inerente às classes trabalhadoras brancas, Piketty apresenta “uma explicação muito mais simples: a União Europeia, tal como foi construída nas últimas décadas, baseia-se na concorrência generalizada entre territórios, no dumping fiscal e social em favor dos atores económicos mais móveis, e funciona objetivamente em benefício dos mais favorecidos”[3].

Pode-se dizer, portanto, que a derrota do projeto Corbyn, o único projeto de esquerda digno desse nome que provavelmente chegará ao poder governamental durante o último período nesta região do mundo, é o segundo desastre da esquerda europeia diante da União Europeia, depois do de Syriza, em 2015. Como mostram os textos dos ativistas britânicos que posteriormente publicamos, todos os participantes na empresa de Corbyn, este fracasso é o resultado de uma recusa em formular uma estratégia de rutura com a União Europeia “pela esquerda”, uma recusa que deriva de uma perda de contacto da esquerda com os seus trabalhadores históricos e a sua base social popular e a sua cultura de confronto com os pontos fortes da hegemonia do adversário e que, por sua vez, conduz inexoravelmente à sua amplificação. As tentativas de lançar um verdadeiro debate dentro do Partido Trabalhista, permitindo que uma campanha “Lexit” (posição Brexit esquerdista) se desenvolva, chocaram-se  por uma recusa frontal da direção do partido, incluindo parte do grupo Corbynista em torno de John McDonnell e Diane Abbott, apesar do apoio tácito do próprio Corbyn e da sua pequena equipa (o antigo jornalista do Guardian Seumas Milne e o sindicalista comunista Andrew Murray).

Agora torna-se ainda mais difícil negá-lo: uma tal recusa só pode levar ao fracasso garantido de qualquer tentativa de reanimar a “esquerda”, seja ela anti-capitalista ou “reformista de esquerda”, como Corbyn ou, de uma forma mais híbrida, Syriza. É completamente ilusório pensar que é possível recuperar qualquer credibilidade como força de contestação da ordem existente sem enfrentar a questão da estratégia de rutura com a UE e, digamo-lo claramente: de saída unilateral das suas instituições-chave, em primeiro lugar da zona euro para os países que dela fazem parte. Depois do desastre grego, que demonstrou a impossibilidade de conduzir uma política de esquerda (mesmo muito moderada) no quadro da UE, é completamente ilusório pensar que será possível recuperar o ouvido das classes trabalhadoras esmagadas e exasperadas sem uma clara posição de rutura clara  sobre esta questão. Não é menos ilusório pensar que será possível convencer para além das fileiras – muito minoritárias – dos já convencidos. Não é menos ilusório pensar que será possível convencer para além das fileiras – muito minoritárias – daqueles que já estão convencidos sobre as questões da política de acolhimento incondicional dos migrantes e não menos incondicional da defesa dos agrupamentos racializados sem uma verdadeira vontade de enfrentar a UE que é também, nunca o esqueçamos, esta “Fortaleza Europa” que envia todos os anos milhares de seres humanos para a morte no Mediterrâneo (e nos desertos do Sara) e forja incansavelmente uma identidade “europeia” diretamente herdada dos estereótipos “brancos” da era colonial.

Alguns, à  esquerda,  pensaram que poderiam enterrar o debate estratégico sobre a União Europeia, especialmente depois da normalização do Podemos e do recuo da França insubmissa sobre este assunto. As duras lições da Grã-Bretanha devem fazê-los pensar duas vezes. Pois, como a história nos ensina, sempre que o movimento operário e os ativistas da emancipação social se revelam incapazes de compreender as questões levantadas pela situação económica e pela evolução do sistema, são as forças da barbárie que se aproveitam delas e as fazem funcionar em seu proveito.

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[1] Sobre as clivagens internas dentro do Partido Trabalhista e do grupo dirigente corbynista, veja este relatório de Heather Brown no Guardian em 13 de dezembro: theguardian.com/politics/2019/dec/13/inside-labours-campaign-behind?fbclid=IwAR28aaWTOlXwaBu6YgX7Zcf4zqzclWw8iIqxUynv6%E2%80%A6

[2] Todos os dados sociológicos eleitorais provêm dos inquéritos “à saída das urnas” ” realizadas pelo Lord Ashcroft Institute em 2017 e 2017 numa amostra de aproximadamente 14.000 eleitores. Os resultados de 2017 estão disponíveis em :

lordashcroftpolls.com/2017/06/result-happen-post-vote-survey/ 

e os resultados de  2019 em lordashcroftpolls.com/2019/12/how-britain-voted-and-why-my-2019-general-election-post-vote-poll/

[3] Thomas Piketty, « L’Union Européenne et le clivage de classe », Le Monde, 11 mai 2019, lemonde.fr/idees/article/2019/05/11/thomas-piketty-l-europe-et-le-clivage-de-classe_5460762_3232.html

 

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Para ler no original clique em: https://www.contretemps.eu/grande-bretagne-corbyn-defaite/

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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