2009-2019, Uma Década Infernal. Por Júlio Marques Mota

Imagem da serie The decade From Hell

2009-2019, Uma Década Infernal

 

Dedicatória

 

Dedico o trabalho de edição da série 2009-2019, Uma Década Infernal, e sobretudo o texto A vida sob o Algoritmo, a um amigo de Trás-os-Montes, meu antigo aluno e meu amigo desde então, o F.N. de Alijó. Trata-se de alguém que o sistema sistematicamente ejeta como sendo um cidadão descartável, a ser privado de direitos, do direito a estar bem, do direito a um salário condigno e a ser ganho em condições condignas, porque sem isso não há felicidade, porque sem isso não há realização pessoal e sem esta, Kaputt. E esta é a situação deste meu amigo, situação esta que em Portugal e do meio da escala salarial para baixo é cada vez mais comum. No seu caso, felicito-o pela sua enorme capacidade de rejeitar continuamente o destino que o sistema, a sociedade, absurdamente lhe tem estado a impor, apesar de até agora não ter conseguido sair da situação de precariedade iniciada no período da Troika e mantida de emprego para emprego, onde a constante é sempre a mesma: precariedade na duração do posto de trabalho, precariedade nas condições de trabalho e precariedade nas suas remunerações. No fundo, este meu amigo, bem representado no artigo de Gabriel Winant e intitulado Vida sob o Algoritmo, bem poderia fazer uma crónica equivalente à escrita por Matt Farwell intitulada A minha própria e privada década infernal , pois a sua própria década pessoal tem sido objetivamente um inferno. Uma crónica exaustiva desta sua década de precariedade e dos sentimentos que os acontecimentos lhe motivaram daria garantidamente uma crónica exemplar e útil para explicar o que foi esta década infernal para milhões de portugueses. O seu caso não é único, muito longe disso. E tal como Matt Farwell, este meu amigo tem a enorme coragem de não perder a esperança, tem a enorme coragem de nunca desistir . Esta parece, pois, ser a sua divisa ,e ainda bem que assim é.

Na verdade somos um pais de contas certas mas um país de destino incerto, onde se faz sistematicamente da verdade mentira e da mentira a verdade, onde se vive a tornar irrelevante o que é relevante e a tornar relevante o que é irrelevante. Se dúvidas há, veja-se então:

1. O que se passa com o concurso público para empregos do Estado que irá decorrer no próximo sábado e que, para meu espanto, é apenas noticiado pelo Correio da Manhã :

“Há candidatos do processo de recrutamento centralizado do Estado que têm duas provas de conhecimento marcadas para o mesmo dia, à mesma hora e em locais diferentes.

Assim, por falharem um dos testes, os candidatos acabariam excluídos desta bolsa de emprego em que o Estado pretende ir recrutar mil técnicos superiores, com um salário bruto de entrada de 1201,48 euros.”

Foi um engano, como é evidente, do qual ninguém é responsável, como é também agora evidente, mas é um engano que não poderia nunca, mas nunca mesmo, acontecer. E a sua correção a escassos dias da prova não anula esta minha posição. Este erro ou significa incompetência total do funcionário responsável e alguém acima teria de ter dado a cara ou então significa, o que é igualmente grave, falta de pessoal na Administração Pública, para as contas de Centeno darem certas. E este erro que não poderia acontecer, mas aconteceu, só é noticiado por um jornal como o Correio da Manhã. Onde estão então os jornais de qualidade deste país?

2. A negociação do Orçamento, onde cada ato seguinte com a correspondente decisão para a sua aprovação foi planeado com a antecedência devida, isto é planeada logo na sua elaboração, para que no fim se possam todos os partidos do arco de esquerda afirmar como ganhadores. E a democracia terá ganho! Tem razão Vicente Jorge Silva quando considera tudo isso uma peça orquestrada e encenada por Mário Centeno, com um conjunto de atores a representar uma verdadeira comédia, a comédia da aprovação do Orçamento. É esta prática, esta perversão da democracia, este fazer da democracia um palco onde se representa e se simula a existência do poder de decidir o que já está antecipadamente decidido algures nos bastidores, na sombra, que torna a Democracia um jogo de marionetes e coloca as nossas sociedades em perigo, privando-as de uma verdadeira sustentabilidade democrática.

É nesta perversão da Democracia que se insere a situação do meu amigo F.N. e de muitos, muitos outros portugueses, que vão desde o professor universitário a ganhar 14 euros por hora lecionada, quando cada hora lecionada exige pelo menos mais duas de preparação, que com uma carga horária de 10 horas por semana se vê obrigado a funcionar de motorista da Uber à noite para tentar com dificuldade chegar ao fim do mês, ao empregado de um McDonald qualquer a ganhar 3 euros e meio à hora, sem horário fixo diariamente e sem nenhuma garantia de ter emprego no mês seguinte, desde uma minha conhecida a trabalhar num call-center ligado as telecomunicações cerca de 50 horas por semana para ganhar brutos 590 euros……, até à empregada do café que habitualmente frequento, M.C., onde entra habitualmente ao serviço pelo meio-dia até às 8 horas da noite, percorrendo quilómetros nestas horas de serviço, depois de ter estado a limpar casas e escadas das 8 às 11 horas da manhã, entre outras tarefas alternativas como cuidar de pessoa idosa ou em trabalho de ama. E a sua vida é assim para poder chegar ao fim do mês com as contas arrumadas e manter com o esforço do seu corpo, em que este já acusa alguns sinais de desconforto, a sua filha na Universidade. Uma vida dura e difícil para uma mulher que intelectualmente tem hoje como principal alimento as pequenas mas muito importantes alegrias que a filha lhe leva para casa. Não tem tempo, não tem vida que lhe permita poder usufruir de muito mais! Uma mulher na força de vida que deixou de votar… porque isso não dá em nada, é o que me disse e de que discordo em absoluto! Mas há muita gente na mesma situação e tudo aponta para que venha a haver muita mais ainda.

Tudo isto ajuda a criar uma situação que a continuar assim, e nada mostra que vá mudar por estes tempos mais próximos, nos faz lembrar um poeta que conheci recentemente, W.H. Auden, de que aqui deixo parte de uma estrofe do seu poema intitulado 1 de setembro de 1939:

Uncertain and afraid

“As the clever hopes expire

Of a low dishonest decade:

Waves of anger and fear

Circulate over the bright

And darkened lands of the earth,

Obsessing our private lives;”

W. H. Auden

Coimbra, 13 de janeiro de 2020

Júlio Marques Mota

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Razões para editar uma série de textos intitulada 2009-2019, Uma Década Infernal

julio-marques-mota Por Júlio Marques Mota

em 13 de janeiro de 2020

 

O ano de 2019 terminou. Uma década entre 2010 e 2019 concluiu-se e com ela uma série de balanços sobre a década que agora terminou irá ocupar muitos dos jornais e revistas e igualmente até mesmo muitos blogues.

Iremos fazer o mesmo, editando uma série de textos sobre o que se chama uma Década Infernal [1], década a que se dá este nome porque começou sob os ventos de uma grande esperança, a esperança de Obama que tomou posse em 2009, uma esperança à escala planetária como há décadas não se via, e que acaba em 2019 num fiasco total, com uma cavalgada para o desespero, talvez para o inferno, sob a direção de Trump. E o gravíssimo aumento de tensão que agora se verifica com a agressão ao Irão não augura nada de bom para a década que se segue, cuja dinâmica irá assentar sobretudo nas linhas de força criadas na década que agora termina. De resto, num registo não muito diferente do nosso, o Financial Times sob a mão de Gideon Rachman refere no seu artigo 2019: the year of street protest, de 4 de janeiro de 2020:

“Acima de tudo, como os últimos 12 meses têm demonstrado, a agitação social está agora repetidamente a irromper em lugares inesperados, por razões imprevistas.

Portanto, embora 2019 já se qualifique para ocupar um lugar nos anais dos protestos de rua, é possível que o ano  verdadeiramente agitado do mundo possa vir a ser 2020.”

Procurar perceber então a década que agora se concluiu é procurar perceber a raiz das múltiplas tensões económicas, sociais e políticas que irão direta ou indiretamente moldar muito do nosso quotidiano na próxima década, razões estas que os fumos mediáticos irão sistematicamente tentar esconder-nos. Esta é, pois, a razão de ser da série que iremos começar a editar.

A década de 2009 a 2019 é balizada por dois pontos extremos, o de uma extraordinária esperança com Obama e o de uma não menos extraordinária desesperança com Trump e, por isso mesmo, tomemos os Estados Unidos como exemplo emblemático deste período para procurarmos perceber as razões que nos conduziram de um extremo a outro. Só assim poderemos perceber o Que Fazer coletivamente para que no ano de 2020 esta cavalgada não venha a cair num verdadeiro precipício onde seremos todos arrasados. E esse precipício tem um nome, chama-se reeleição de Trump ou de alguém que lhe possa ser considerado equivalente. E candidatos na corrida com essa característica há vários e em que, para o efeito, o dinheiro escorre aos milhões.

Pode parecer uma posição de pessimismo extremo a afirmação sobre Trump ou de alguém que lhe possa ser considerado equivalente., mas esta afirmação tem como base os seguintes pontos:

1. Tal como na campanha de 2016, o partido Democrata tem como principais inimigos a Senadora Elisabeth Warren e o senador Bernie Sanders.

Com efeito desde Abril de 2019, segundo noticia o New York Times (ver aqui), têm-se organizado jantares à porta fechada com os principais doadores (financiadores) do Partido Democrata para delinear a estratégia que possa barrar o caminho a Bernie Sanders. Diz-nos o jornal:

WASHINGTON — Quando Leah Daughtry, um ex-alto-quadro do Partido Democrata, se dirigiu a uma reunião à porta fechada de cerca de 100 doadores liberais ricos em São Francisco no mês passado, bastou-lhe citar as regras para as primárias de 2020 para os assustar.

Os democratas provavelmente entrarão na sua convenção no próximo verão sem terem chegado a acordo num candidato presidencial, disse Daughtry, que dirigiu as convenções do seu partido em 2008 e 2016, as duas últimas vezes em que a nomeação foi contestada. E o senador Bernie Sanders de Vermont está bem posicionado para ser um dos últimos candidatos a manter-se de pé, declarou ela.

“Acho que os assustei”, lembrou Daughtry com um risinho, uma avaliação que foi confirmada por outros três participantes. E não estão sozinhos.

Desde as campanhas de angariação de fundos na Costa cheias de canapés até aos vestiários de Washington, os principais doadores e os altos quadros democratas estão cada vez mais preocupados que o seu esforço para derrotar o Presidente Trump em 2020 possa ser complicado pela presença de Bernie Sanders como candidato, num cenário político que faz lembrar como o próprio Donald Trump conseguiu a nomeação republicana em 2016.

(…)

A sua [de Bernie Sanders] força à esquerda dá-lhe uma perspectiva real de ganhar a nomeação democrata e pode torná-lo competitivo para a presidência se a sua mensagem de justiça económica ressoar tanto no Midwest como os apelos do Sr. Trump ao nacionalismo de vanguarda em 2016. E para muitos apoiantes de Sanders, as ansiedades dos democratas de establishment não são uma preocupação.

Essa perspetiva é assustadora para os democratas alinhados com o establishment político, alguns dos quais estão preocupados com que a sua nomeação possa atrair um outro centrista para o campo eleitoral. E também está a criar tensões sobre o que, deveria ser feito, se algo pode ser feito, para barrar o caminho a Sanders.

(…)

Os principais doadores também manifestaram o receio de que o Partido não venha a dispor de um candidato suficientemente forte para vencer o presidente Trump.

A questão do que fazer com Bernie e o maior imperativo da unidade partidária têm pairado, por exemplo, sobre uma série de jantares democratas não divulgados em Nova York e Washington organizados pelo financiador de longa data do partido Bernard Schwartz. Entre os participantes nestes jantares à porta fechada estavam membros da ala moderada ou de centro-esquerda do partido, nomeadamente a presidente Nancy Pelosi, da Califórnia; o senador Chuck Schumer, de Nova York, líder da minoria; o ex-governador Terry McAuliffe, da Virgínia; o prefeito Pete Buttigieg, de South Bend, Ind., ele próprio candidato à presidência; e a presidente do Centro para o Progresso Americano, Neera Tanden.

“Sanders prestou-nos um mau serviço nas últimas eleições”, disse Schwartz, um apoiante de longa data de Clinton, declarado apoiante do ex-vice-presidente Joseph R. Biden Jr. nestas primárias. (Fim de citação do New York Times).

O artigo cita Neera Tandem, que é a atual diretora do Center for American Progress. Este Centro e o seu braço político irmão, o centro de reflexão e de pressão ThinkProgress, com um orçamento anual combinado de US$ 60 milhões e 320 funcionários, têm desempenhado um papel de destaque no Partido Democrata desde há quase duas décadas. Fundado em 2003 pelos principais assessores de Bill e Hillary Clinton, a organização tem procurado redefinir-se como um fundo de cérebros para a resistência anti-Trump.

As suas listas de doadores sobrepõem-se substancialmente às das campanhas e da fundação Clinton. O grupo de reflexão tem recebido milhões de interesses muitas vezes criticados por liberais, incluindo financeiros de Wall Street, grandes bancos, titãs do Sillicon Valley, governos estrangeiros, empresários privados do complexo militar e da indústria da saúde. Os doadores individuais podem pedir para permanecer no anonimato.

Curiosamente é com Neera Tandem que terá estalado recentemente uma enorme provocação desta e do Center for American Progress assim como de ThinkProgress ao candidato Bernie Sanders, o que levou este a responder, conforme excerto abaixo:

Introdução 1

Caros membros do Conselho de Administração do Center for American Progress e do CAP Action Fund:

Escrevo para expressar minha profunda preocupação e desapontamento com o papel destrutivo que o Centro para o Progresso Americano e o seu braço afiliado do Fundo de Ação estão a desempenhar na missão crítica de derrotar Donald Trump.

Na semana passada, publicaram um artigo no Think Progress criticando-me pela meu aparecimento como candidato e pelo que eu ganhei ao escrever um livro. Um dia depois, publicaram um vídeo que me atacou desonestamente por hipocrisia no meu esforço para resolver a desigualdade de rendimento na América – um vídeo que foi discutido entusiasticamente em muitos sites conservadores.

Infelizmente, eu não sou o único candidato no campo de 2020 que sofreu ataques pessoais da sua instituição. A minha amiga e colega Elizabeth Warren foi injustamente visada por um artigo de Novembro de 2017 no Think Progress que ecoou a má-fé de Donald Trump afirmando que ela estava a ser hipócrita sobre a sua ascendência. Esse ataque que estava ligado ao Relatório Drudge e imediatamente a mergulhou num debate bastante inútil. Novamente em outubro de 2018, vocês publicaram um artigo afirmando que ela estava a prejudicar o povo indígena americano.

E isto não é tudo. Em fevereiro deste ano, um artigo do Think Progress atacou outro amigo e colega meu, Cory Booker, por seguir numa direção progressista e se juntar a mim num projeto de lei de importação de medicamentos prescritos.

 

2. Mas na linha dos Clinton-Obama, devemos aqui referir o antagonismo existente entre Bernie Sanders e Obama, a relembrar o antagonismo existente entre o grupo Blair e Jeremy Corbyn, bem sintetizado no slogan “Tudo, excepto Corbyn” de Tony Blair, que na América de Obama e nas suas próprias palavras pode ser sintetizado como “Tudo menos Sanders”

Com efeito num artigo intitulado À espera de Obama -O establishment democrático está a contar com ele para travar e, talvez até, para também afastar Bernie Sanders. Mas a sua política cerebral poderá ainda galvanizar os eleitores numa época de extremos?, publicado pelo jornal eletrónico Politico (ver aqui), diz-se:

Publicamente ele [Obama] tem tornado claro que não intervirá nas primárias a favor ou contra um candidato, a menos que ele acredite que houve algum ataque flagrante. “Não consigo sequer imaginar o quão mau teria de ser o campo democrático para Obama dizer alguma coisa”, disse um seu conselheiro muito próximo. Em vez disso, ele vê o seu papel como guardião para evitar que o processo fique muito feio e para unir o partido quando for claro quem é o candidato. Há uma possível exceção: Quando Sanders parecia ser mais uma ameaça do que agora, Obama disse em privado que se Bernie caminhasse para a nomeação, Obama tudo faria para o impedir. (Questionado sobre isso, um porta-voz de Obama apontou que Obama disse recentemente que apoiaria e faria campanha por quem quer que fosse o democrata nomeado).”

Mais tarde, falando num clube de ricos doadores do Partido , diz-nos Obama tomando já parte na campanha para as primárias do Partido, de acordo com o New York Times (NYT de 15/11/2019, ver aqui):

Embora Obama não tenha destacado nenhum candidato primário específico ou apresentado nenhuma proposta política, advertiu que o universo de eleitores que poderiam apoiar um candidato democrata – democratas, independentes e republicanos moderados – não são movidos pelas mesmas opiniões refletidas em “certos textos de esquerda no Twitter” ou na “ala ativista do nosso partido”.

“Mesmo quando forçamos os limites e somos ousados na nossa visão, também temos de estar bem enraizados na realidade”, disse Obama. “O americano comum acha que não temos de demolir completamente o sistema e refazê-lo.”

E o jornal continua:

Reconhecendo que os candidatos devem “levar mais longe” as suas conquistas, Obama exortou os candidatos do seu partido “a não irem longe demais, pois exortou-os a adotarem uma mensagem que lhes permitisse competir em todos os cantos do país.

“Acho que não nos devemos iludir ao pensar que a resistência a certas abordagens das coisas é simplesmente porque os eleitores não ouviram suficientemente uma proposta ousada e se eles ouvirem algo tão ousado quanto possível, então imediatamente isso levá-los-á a aderir a ela”, disse ele.

Como se isto não chegasse na linha de oposição a Sanders e a Elisabeth Warren, mas sobretudo ao primeiro, disse Hillary Clinton recentemente à BBC que estava sob “imensa pressão” de “muitas, muitas, muitas pessoas” para se apresentar às eleições para a Presidência.

Vejamos exatamente o que é que Hillary Clinton afirmou à BBC (ver aqui):

“A ex-secretária de Estado, senadora de Nova Iorque e ex-primeira dama dos EUA respondeu: “Penso o tempo todo sobre que tipo de presidente eu teria sido e o que teria feito de diferente e o que eu penso que teria significado para o nosso país e para o mundo.

“Então, claro que penso nisso, penso nisso o tempo todo”. Ser capaz de fazer isso, e olha, quem ganhar da próxima vez vai ter uma grande tarefa a tentar consertar tudo o que foi desmantelado.”

Questionada se iria atirar o chapéu para o ringue no último minuto, respondeu Hillary Clinton: “Eu, como eu digo, nunca, nunca, nunca diga nunca.

“Vou certamente dizer-lhe, estou sob enorme pressão de muitas, muitas, muitas pessoas para pensar sobre isso.” (Fim de citação do texto da BBC)

 

3. Oposição a Sanders e a Warren, uma oposição frontal que pode ter como cabeças de lista do magnata Michael Bloomberg (fundador da Bloomberg e ex-prefeito de Nova Iorque de 2002 a 2014), ou o gestor de fundos de investimento Deval Patrick ou ainda o atual prefeito de South Bend (Indiana) Pete Buttigieg. Há muito dinheiro para gastar.

Quanto a Michael Bloomberg, a sua campanha começou com uma barragem de anúncios, saturando as ondas sonoras e as páginas web de todo o país. O orçamento para esta manobra inicial era de 37 milhões de dólares, gastos numa única semana, metade dos fundos angariados pelo seu rival democrata mais bem financiado (Bernie Sanders) em oito meses. Para dar uma ideia da magnitude deste primeiro bombardeamento publicitário, o recorde anterior da campanha semanal foi de 34 milhões de dólares, estabelecido por Hillary Clinton na última semana das eleições de 2016.

E isso é apenas o começo. Michael  Bloomberg planeia investir entre US$ 500 milhões e US$ 1 milhar de milhões. Pelo menos isso será necessário para convencer os eleitores democratas a votar num ex-republicano que fez campanha pela reeleição de George W. Bush em 2004, antes de implementar o controle ao fácies de forma sistemática  em Nova York.

Uma imagem direta de quem é Michael Bloomberg pode ser dada pela sua posição assumida como governador de Nova Iorque face ao Movimento Occupy Wall Street e à carga policial por si ordenada em 2011 contra este Movimento.

Com efeito, sobre este Movimento disse Michael Bloomberg em outubro de 2011 (ver aqui):

“Eu não aprecio estarem a denegrir todas as pessoas que trabalham arduamente e vivem aqui e pagam os impostos que sustentam a nossa cidade”, disse Bloomberg, numa conferência de imprensa em Bronx.

“A cidade depende de Wall Street. Não esqueçamos, são os seus impostos que pagam os nossos professores, os nossos policias, que pagam os nossos bombeiros. Esses impostos que recebemos dos lucros das empresas e dos rendimentos, são eles que financiam as nossas bibliotecas”.

Questionado sobre o que pensava sobre a marcha dos manifestantes de Occupy Wall Street junto das casas da Quinta Avenida de alguns dos mais ricos nova-iorquinos, incluindo Jamie Dimon do JPMorgan Chase, o prefeito mostrou-se fortemente a favor de Jamie Dimon. dizendo:

“Jamie Dimon é um dos grandes banqueiros”, disse Bloomberg. “Jamie Dimon trouxe mais negócios para esta cidade do que qualquer banqueiro dos dias de hoje. Ir aí implicar com ele, insultá-lo, eu não sei o que se ganha com isso. Jamie Dimon é uma pessoa honrada, trabalha muito, paga os seus impostos”, questionando-se igualmente “porque é que os manifestantes estavam a implicar com os banqueiros ricos e outros altos dirigentes das grandes empresas”.

Este comportamento de Michael Bloomberg é bem elucidativo sobre o que se pode esperar deste candidato que, para alguns analistas, é tão ou mais perigoso que o próprio Trump, mas é também elucidativo que seja ele um dos concorrentes às primárias do Partido Democrata, partido este que parece estar a tomar como slogan: “Tudo menos Bernie Sanders” ou “Tudo menos Elisabeth Warren”.

 

4. As principais forças responsáveis pelo desastre alcançado neste final de década vão continuar pois a ser dominantes na próxima década. Se foi importante perceber porque é que Trump chegou ao poder, é igualmente importante perceber porque é que o Partido Democrata continuou a insistir que foram apenas causas externas que levaram à vitória de Trump, neste caso os russos, e muito mais importante ainda, parece-me, é dissecar as razões que fizeram de uma década promissora uma década infernal, onde a contestação política se tornou a regra, desde Hong-Kong a Nova Iorque passando pela Europa, pela França ou outro país qualquer.

E por isso convidamos os visitantes deste blog a acompanharem-nos nesta viagem ao passado recente, a lerem os textos que iremos editar no quadro de uma série intitulada 2009-2019, Uma Década Infernal. Uma série que constitui uma viagem ao passado da década que agora terminou, a última, desejando que nela ninguém fique chamuscado, o que não será fácil, a começar por mim mesmo, dada a desmontagem de muitas das ideias que tomámos como verdades absolutas e que, afinal, não terão passado de uma verdadeira ficção.

Este é pois o objetivo principal da edição desta série de artigos que agora anuncio.

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Nota

[1] Iremos pois publicar uma série de artigos editados pelo jornal americano The New Republic intitulada The Decade From Hell cuja publicação se iniciou em 23 de Dezembro de 2019.

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