CARTA DE BRAGA – “da sinagoga a Xangai” por António Oliveira

George Steiner foi uma das maiores figuras da cultura das últimas dezenas de anos. Erudito, filósofo, escritor e crítico de literatura, nunca renegou a sua condição de judeu e, a propósito da sua fé, escreveu um pequeno conto, sobre a estória de um rabino que encontra Deus num canto discreto e afastado da sinagoga onde tinha ido rezar.

Ajoelha-se e pergunta respeitosamente ‘Porque estais aqui Senhor?’ e Deus responde em voz baixa ‘Estou muito cansado rabino, cansado até à morte’.

Steiner que, se salvou dos nazis por muito pouco, considerava a selvajaria do homem o pior mal da humanidade e explicava esta curta estória como o cansaço de Deus, devido à selvajaria e à estupidez humana.

Aliás na última entrevista, dada ao filósofo italiano Nuccio Ordine, refere a enorme distância que o separava do irracionalismo actual, ‘a crescente barbárie dos media, e a cada vez maior vulgaridade dominante’.

Na realidade, somos prisioneiros de uma época incerta – a emergência climática converteu-se numa certeza iniludível, a precisar de um combate que envolva todos, a começar pelos ‘donos’ das guerras todas que por aí andam.

Ainda não acabaram os perniciosos efeitos de uma globalização dirigida por eles mesmos, visando o lucro para si próprios e para as trupes que os sustentam e, ao mesmo tempo, as tecnologias, tanto novas como as mais antigas, aceleram a mudança do mercado de trabalho.

Os desafios sociais, económicos e ambientais, dependentes disto tudo, precisam e requerem uma atitude conjunta, inovação, colaboração e, como disse Steiner, um apelo ‘À inteligência e à função educativa da História’.

Gilles Lipovetsky, numa entrevista dada no princípio de Fevereiro salientou bem ‘O humano é complexo! Vejo muitos investigadores, matemáticos, físicos e engenheiros de nível muito alto, a cantar em coros, ou inscritos em cursos de teatro ou de pintura. Não sei por quê, mas acontece. Não encontrarão com certeza, o sentido pleno do trabalho que fazem. Isso também é democracia! Não é ter só eleições livres, mas formar indivíduos que desfruem, sejam ricos nas suas aptidões e não apenas instrumentos de voto e trabalho! A democracia não pode ser só um instrumento de eficácia utilitarista!

O que aproximaria estes dois filósofos tão diferentes na formação e no trabalho, mas solidários na análise dos enormes problemas que nos tornam dependentes de gente como um trump, um boris, um jinping, um putin e, cereja em cima do bolo, um bolzo?

Mais próximo de nós, o professor e comentarista Viriato Soromenho Marques, escreveu no ‘DN’ de 29.01, ‘Por toda a parte, os discursos grandiloquentes de combate à emergência climática esbarram, duplamente, na ferocidade com que as megacorporações arriscam a segurança colectiva da humanidade para prolongar os seus lucros e, no imperativo partidário de ganhar a eleição seguinte, a qualquer custo’.

É uma verdade que a política, a cultura e até a arte se tonaram repetitivas. Os ecrãs, de todos os tamanhos, diminuíram-nas, banalizaram-nas e deixaram-nos intelectualmente pouco ou nada exigentes, o que afinal mostra e representa bem a actual decadência do espírito.

E li há dias um comentário a propósito, por vermos e lermos que ‘o mundo está a acabar, da mesma maneira que o rinoceronte de Sumatra ou o peixe-espada chinês, mas isso não importa muito…

…porque Kim Kardashan estreou sapatos novos e o futebolista Mbappé, pôs um like na foto de uma bela artista’.

Receio mas resta-me, como afirmou Michael O’Hara, o ‘herói’ de Orson Welles em ‘A Dama de Xangai’, ‘A única solução para não ter sarilhos é envelhecer! Vou concentrar-me nisso!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

2 comments

  1. C. Leça da Veiga

    Concentre-se antes naquilo em que demonstra ter muita aptidão. Ataque a actual decadência. Abraço do CLV

  2. António Oliveira

    E esta Carta não é isso?
    Abraço
    A.O.

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