EM VIAGEM PELA INDOCHINA (2) – por ANTÓNIO GOMES MARQUES

Obrigado a John Moen e ao worldatlas

 

 

II – CAMBOJA – História

 

Deixemos a pré-história, que poderá ser reivindicada por qualquer dos países do Sudeste Asiático, podendo começar a história do Camboja no século IX, quando o jovem rei Jayavarman II se declarou rei absoluto do povo Khmer, unificando os pequenos estados independentes, estabelecendo assim «as bases de um dos mais poderosos impérios do Sudeste da Ásia.»(1), tendo reinado de 802 a 835.

Estabeleceu a capital do império em Phnom Kulen, 50 km a Nordeste de Angkor, região esta que orla o Grande Lago e que tem neste a razão da sua fertilidade.

Mas temos que começar um pouco mais atrás, o império não nasceu de repente.

As investigações arqueológicas mostraram que, nos primeiros tempos da era cristã, os chineses iniciaram as trocas comerciais pelo Sudeste Asiático, então constituído por cidades-estado, normalmente em guerra umas com as outras, havendo também um pequeno reino, o Reino de Funan (2), dado a conhecer em meados do século III por textos históricos chineses, da autoria de dois diplomatas do Reino de Wu Nanking, que viajaram por este reino, que ocupava uma boa parte do actual Camboja e que havia crescido à volta do delta do rio Mekong. Este reino obteve uma enorme importância estratégica por dominar, naturalmente, as rotas marítimas do delta do rio Mekong, mas também do golfo da Tailândia. «…, controlava o istmo de Kra —o ponto mais estreito da península malaia— que fazia comunicar a Ásia Oriental com a Índia. Foi efectivamente o comércio que deu aos Khmers os seus primeiros contactos culturais com a Índia e que fez introduzir entre eles o hinduísmo e o budismo. As crenças religiosas dos Khmers, a iconografia, a arte e a arquitectura, tudo tem origem na Índia e isso teve uma profunda influência no desenvolvimento da sua civilização.» (3)

Mapa do Sudeste Asiático, cerca do ano 900, mostrando, a vermelho, o território do Império Khmer, bem maior do que o actual Camboja (in https://pt.wikipedia.org/wiki/Camboja)

Os reis dos Khmers, nos séculos VI e VII, foram conquistando a parte Khmer do Reino de Funan e foram deixando a sua marca construindo mais templos. Içanavarman I, um dos reis deste período e que subiu ao trono em 615, mandou «construir o templo de Sambor Prei Kuk (sul), que caracteriza o primeiro dos estilos da arquitectura pré-angkoriana.» (4); no entanto, há que lembrar que o primeiro estado Khmer, ainda longe do império Khmer, terá sido o Reino Chenla, constituído por volta de 550, durando até 802, dando então lugar ao império, como já se disse, com o rei Jayavarman II. Este reino, para além do território hoje correspondente ao actual Camboja, incluía também parte do actual Vietname do Sul, mas havia sido um estado vassalo do Reino de Funan até 550 e por um período de 60 anos. Libertou-se da vassalagem e, ainda no século VI, conquistou o Norte do Reino de Funan e, no século seguinte, acabaria por vencer o que faltava do Reino de Funan, conquistando, assim, todo o seu território, aumentando consideravelmente o território do primeiro Estado Khmer, já com características de Império, dividido em dois estados: o do Norte, Chenla da Terra, compreendendo a região central do Sudeste Asiático até ao Sul do Laos, a actual Champassak, e o Sul, Chenla do Mar, ocupando o Delta do Mekong e o litoral. Já no século VIII (715), todo o território foi dividido em pequenos estados até que, o rei Jayavarman II, se declarou rei absoluto do povo Khmer, como atrás se refere.

Angkor – cidade khmer (in folheto distribuído aos visitantes)

O Autor junto a uma parede de baixos relevos, das muitas que podem ver-se em Angkor

Com a absorção do Reino de Funan pelo Estado Chenla, o hinduísmo tornou-se a religião oficial do reino, substituindo o budismo mahayana, o que mostra a influência da Índia, mantendo-se este domínio do hinduísmo até ao século XIII. No entanto, a influência no Camboja não foi apenas da Índia, mas também da China, atingindo outros territórios do Sudoeste Asiático, como Myanmar, Leste da Tailândia, Sudoeste do Vietname e Laos.

A partir do séc. XIII, os prestigiados monges do Sri Lanka, sempre presentes à volta dos templos, provocaram o aparecimento e, depois, o domínio do budismo teravada, destronando a influência do budismo Mahayana e do hinduísmo, o que, provavelmente, terá contribuído para o declínio do Império Khmer, embora o seu poder se tenha mantido até ao séc. XV.

Em Angkor, durante o Império Khmer, foi-se centralizando o seu poder, como atestam os templos construídos durante este período, templos esses servidos por sacerdotes, engenheiros e dançarinas, cujo número, no total, atingia milhares de pessoas por templo, havendo mesmo templos a ultrapassar a dezena de milhar, a que se juntavam os exércitos do império e milhares de agricultores, onde predominava o cultivo do arroz. Foi a sede do poder, a grande capital do Império, tornando-se também numa das zonas com maior concentração de templos no Mundo, senão mesmo a maior.

Angkor Vat, que nos é apresentado como o maior templo religioso do Mundo, em Angkor (fotografia de AGM)

Angkor acabou mesmo por se transformar numa das maiores cidades do Mundo, no apogeu do Império, ou mesmo a maior cidade até à Revolução Industrial, chegando a um milhão de habitantes, sendo Angkor Wat, ao que parece e o guia cambojano afirmou-o várias vezes, o maior templo religioso do Mundo, sendo seguramente o maior dos templos khmers, formando «um rectângulo de 1500 m de Este a Oeste e de 1300 m de Norte a Sul» (5). Está bem preservado, como pudemos testemunhar, atendendo a que a sua construção se iniciou em 1140, reinando então Sûryavarman II (1113-1150).

O sistema de água que abastecia o templo sofreu graves danificações, primeiro uma enchente e, depois, por não terem reparado o que havia sido danificado e optarem por deslocar as pedras dos escombros para outras obras, o sistema de irrigação de Angkor Vat tornou-se muito mais vulnerável, vivendo mesmo períodos de secas nos séculos XIV e XV, contribuindo para enfraquecer o domínio do Império, facilitando as incursões inimigas, em especial dos tailandeses, mas também dos vietnamitas. Angkor foi invadida pelos tailandeses em 1430, a que se seguiu o saque, levando ao abandono da cidade em 1431, deslocando-se a corte imperial para Lovek, a nova capital, mais para Sul, perto da zona onde hoje está a capital actual do Camboja, Phnom Penh. No entanto, os monges budistas não abandonaram Angkor Vat, ali mantendo, portanto, as suas práticas, o mesmo não tendo acontecido com os outros templos da zona, os quais viriam a ser ocupados pela vegetação. Mas, na verdade, era o princípio do fim do Império Khmer.

Outro pormenor de Angkor Vat (fotografia de AGM)

Não vou falar de todos os templos que visitei; no entanto, não resisto a dizer algumas palavras sobre um dos templos que mais espanto me causou, não propriamente pelo templo em si, mas pela acção da natureza. Falo do templo Ta Prohm.

A sua construção foi iniciada no final do séc. XII, por decisão de Jayavarman VII, e terminada no século seguinte. Foi aumentado por determinação de Indravarman II.

Os templos foram «descobertos» por investigadores franceses no século XIX, era então o Camboja uma colónia francesa, de que falaremos um pouco mais à frente. Por decisão da Escola Francesa do Extremo Oriente, este templo foi deixado no «estado natural», permitindo uma visão de como foram encontrados os templos, mantendo alguma conservação de modo a não proporcionar novas ruínas e libertando a entrada para que as visitas sejam possíveis.

As raízes envolvendo as paredes (fotografia de AGM)

Fotografia de AGM

Outras fotografias poderiam ser mostradas, mas estas parecem-nos poder dar ao leitor uma ideia da acção da natureza sobre os templos abandonados, assim como o trabalho de limpeza em centenas de templos que hoje poderão ser visitados.

No já citado livro de Claude Jacques e Michael Freeman, há uma descrição pormenorizada dos templos que poderão ser visitados, obra que recomendo aos mais curiosos nesta matéria. O livro é ilustrado com centenas de fotografias.

Mas retomemos a história do Camboja, mas não deixemos de admirar mais uma fotografia deste templo, reproduzida na página seguinte.

Lovek tinha a vantagem de estar mais próxima da costa, assim como do Lago Tonle Sap, podendo assim a nova capital usufruir também do comércio marítimo.

Mas as guerras com os seus vizinhos não terminaram e Lovek acabaria por ser conquistada em 1594, o que levou a que o Império Khmer vivesse quase mais três séculos entre ser vassalo dos tailandeses e dos vietnamitas e alguns períodos de independência, embora relativa.

Fotografia de AGM

Na época do Segundo Império Francês, o regime monárquico bonapartista fundado por Napoleão III que durou cerca de 18 anos (1852-1870), o rei do Camboja, Norodom (6), assinou um tratado de protecção com a França em 1863, ficando com o estatuto de Protectorado Francês do Camboja, ou seja, o Camboja deixava assim de ser um vassalo do Sião (Tailândia) e a França encontrava uma espécie de tampão entre o Vietname do Sul e o Sião, dado ser este um aliado dos ingleses. O Camboja pensava conseguir também impedir as invasões vietnamitas na sua fronteira leste.

Vem a propósito lembrar que foi o governo da Tailândia que colocou Norodom como rei do Camboja e, ao rebelar-se contra os seus «protectores» tailandeses, ter-se-á sentido obrigado a pedir a protecção de uma das potências dominadoras, ou seja, a França, tendo o imperador tailandês cedido em troca de duas províncias do Laos, que foram cedidas pelo Camboja à Tailândia.

Em 1864, toda a Cochinchina foi considerada território francês. (7)

A relação França-Camboja nem sempre foi a melhor; o Camboja pretendia autonomia, mas a França manteve a monarquia pela sua importância cultural.

Os franceses viriam a criar por decreto, em 1887, a União da Indochina, constituída pela possessão francesa autónoma que era o Camboja e ainda três regiões do Vietname —Tonquim, Annam e Cochinchina—e, mais tarde (1893), com as habituais ameaças de quem tem poder, levaram o rei do Sião, Chulalongkom, a abandonar o Laos, anexando o correspondente território e, assim, aumentando a área da apelidada União da Indochina.

Em 1941, entra em cena uma figura que haveria de ficar célebre, Norodom Sihanouk, embora a escolha deste príncipe para rei do Camboja tenha sido feita por ele ser considerado um político inexperiente, como também por pertencer à mais fraca casa cambojana. Sendo assim, julgavam os franceses, mais fácil seria de dominar.

Em 1949, o Camboja viria a atingir um novo estatuto: Estado associado da União Francesa. O estatuto de protectorado foi abolido, o que não o libertou da influência francesa, continuando a ser parte da Federação da Indochina.

A II Guerra Mundial esgotou as capacidades francesas, a que se seguiu a guerra que opôs franceses e vietnamitas, estes sob a liderança de Ho Chi Minh, é bom notar, que soube aproveitar as debilidades francesas —de que falaremos quando abordarmos a visita ao Vietname integrada nesta viagem à Indochina—, tornaram-se acontecimentos fatais para a continuação do domínio da França sobre o Camboja, agora dirigido por Sihanouk, que, entretanto, se revelou um excelente governante ao estabelecer laços de amizade com outros países da região, explorando mais o interesse de todos eles do que a amizade, o que permitiu a este governante cambojano um maior domínio sobre o seu país.

Os esforços da França, após o fim da II Guerra Mundial, para voltar a dominar os seus antigos territórios indochineses teriam nos vietnamitas, com Ho Chi Minh a governar, o principal obstáculo às suas intenções, o que Norodom Sihanouk não deixaria de aproveitar, conseguindo uma enorme autonomia em relação à potência colonial em 1949, embora esta continuasse a dominar a economia e os militares.

Em 1953 N. Sihanouk denunciou o tratado de associação na União Francesa, com vista à proclamação da independência, a qual os Acordos de Genebra do ano seguinte vieram a confirmar.

No entanto, é bom lembrar que o objectivo principal da Conferência de Genebra, com início a 26 de Abril de 1954, visava resolver os problemas existentes sobre a península coreana e a unificação do Vietname —onde se salienta uma figura notável, Ho Chi Minh, que não posso deixar de referir e que, penso, tratarei aquando do texto que espero escrever sobre o Vietname, integrado nesta visita—, com a preocupação simultânea de instaurar a paz na Indochina.

As intenções parecem umas, as que são propagandeadas, e outras as que estão no pensamento de cada representante dos países intervenientes (União Soviética, EUA, França, Reino Unido e República Popular da China, para além de todos os países que enviaram tropas, através da ONU, para a Guerra da Coreia, e os países intervenientes na Primeira Guerra da Indochina, entre a França e o Viet Minh, de que este saiu vencedor). Aqui, o que nos importa de momento é que os acordos de cessar-fogo que envolviam o Camboja (assim como o Laos e o Vietname) foram assinados. A discussão sobre também esta última questão na Conferência de Genebra tinha sido decidida na Conferência de Berlim, acontecida em 18 de Fevereiro de 1954.

No ano seguinte, 1955, Norodom Sihanouk abdicou do trono em favor do seu pai, Norodom Suramarit —que manteve o título até à sua morte, em 1960—, para, assim, conseguir ter um papel activo na política do seu país. Fundou o Sangkum Reastr Niyum (Comunidade Socialista Popular), com o qual concorreu às eleições e obteve a vitória com uma votação quase unânime do eleitorado, tornando-se primeiro-ministro e, a partir de Junho de 1960, assumiu a chefia do Estado, após a morte do seu pai, tornando-se a primeira figura do Camboja. Confiante na tradicional reverência do povo cambojano perante a monarquia, aboliu todos os partidos rivais, fechou jornais que não lhe eram afectos, não hesitando em usar todos os meios para atingir os seus objectivos quando necessário, mas com o cuidado de avançar com meios violentos apenas quando sabia ter a aprovação popular.

A administração do Camboja era centralizada, sendo o país dividido em 17 províncias mais a capital, Phnom Penh, sendo competência do governo central a nomeação dos governadores das províncias. Cada governador de província supervisionava as administrações dos respectivos distritos, dos municípios, das cidades e das vilas.

Se foi graças à violência da sua governação que ganhou as eleições, foi também devido a esta brutal forma de governar que se manteve no poder até 1970, apesar do movimento comunista Khmer Vermelho, no final da década de 60 do século passado, ter iniciado uma guerra de guerrilha contra o governo de Norodom Sihanouk.

Durante a sua governação, Sihanouk definiu como principal objectivo da sua política externa a neutralidade na guerra do Vietname, opondo-se também à intervenção militar americana neste país vizinho, tendo a conferência de Genebra sobre a Indochina auxiliado essa neutralidade ao obrigar à saída das tropas vietnamitas do Camboja, mas, na verdade, essas forças vietnamitas não haviam deixado de desenvolver a sua acção no leste do Camboja nos últimos anos da década de 60 do século passado, para além de o Vietname continuar a ser fornecido de bens através do porto de Sihanoukville, despertando a atenção dos EUA para este facto, o que levou o Presidente Nixon a, secretamente, ordenar o bombardeamento na fronteira entre o Camboja e o Vietname.

Este «secretamente» merece uma reflexão. Nixon pretendia que os bombardeamentos fossem secretos para quem? Para os cambojanos, para os laosianos ou para os vietnamitas? É evidente que não, embora negasse as acusações que aos americanos eram feitas, sobretudo por aqueles que viam as bombas caírem-lhes em cima. O secretismo que a administração Nixon pretendia era para os próprios americanos. John Lewis Gaddis, no seu livro «A Guerra Fria», escreveu: O processo teve início na Primavera de 1969, quando Nixon ordenou o bombardeamento do Camboja numa tentativa de interditar os caminhos nesse país e no Laos pelos quais os Norte-Vietnamitas há anos enviavam tropas e abastecimentos para o Vietname do Sul. A decisão era militarmente justificável, mas Nixon não fez qualquer esforço para explicá-la publicamente. Em vez disso, autorizou a falsificação de registos da Força Aérea para encobrir o bombardeamento, continuando a afirmar vários meses depois que os Estados Unidos estavam a respeitar a neutralidade do Camboja. Mas o bombardeamento não era segredo, evidentemente, para os próprios Cambojanos, nem para os Vietnamitas e seus aliados chineses e soviéticos. Apenas os Americanos não deviam saber e a razão, como admitiu Nixon mais tarde, era para evitar protestos contra a guerra. «A minha administração tinha apenas dois meses e eu queria evitar ao máximo qualquer manifestação pública de desagrado no início», como pode ler-se nas memórias de Richard M. Nixon (RN: The Memoirs of Richard Nixon, Nova Iorque; Grosset and Dunlap, 1978). (8)

A neutralidade que Sihanouk dizia querer no conflito entre EUA e Vietname levou a uma crescente desconfiança entre uns e outros —e também em muitos outros países—, sem, ao menos, conseguir compreensão das forças internas.

Como seria inevitável, as relações entre os EUA e o Camboja deterioraram-se, a que não foi indiferente a decisão de Sihanouk que impedia os EUA de usar o espaço aéreo cambojano. Entretanto, nas políticas ambíguas que sempre o terão caracterizado, provavelmente as que julgava mais convirem ao seu país, Norodom Sihanouk enfrentava os conflitos internos entre a classe média, provocados por essa política ambígua, e a oposição dos chamados esquerdistas, levando-o mesmo a elaborar uma lista dos 34 subversivos, também já conhecidos como «khmers vermelhos» que incluía o que mais tarde viria a ser muito célebre por terríveis razões: Pol Pot. Provavelmente, com esta lista pretendia mostrar que queria banir os comunistas do seu país. Prendeu os subversivos e muitos dissidentes, com predominância dos comunistas, torturando muitos deles, o que provocou a fuga dos membros do Partido Comunista para o Leste do Camboja.

A China tinha a sua simpatia, enquanto mantinha más relações com a Tailândia, aliada dos EUA, o que o levou a renunciar à ajuda americana no final de 1963. Ao mesmo tempo, denunciou a actividade da CIA no Camboja, mostrando simpatia pelos vietnamitas, convencido que era essa a melhor solução para manter a independência do Camboja, que parece ter sido sempre o seu objectivo.

A acção da guerrilha dos Khmers Vermelhos intensificou-se, vendo-se obrigado a nomear, em 4 de Agosto de 1969, o general Lon Nol para chefiar o governo, o qual era conhecido como anticomunista e pró-americano, e que o viria a atraiçoar, como veremos de seguida.

A forma de governar utilizada por N. Sihanouk, não hesitando em usar a necessária violência quando pensava ser a medida necessária ao seu objectivo, não impediu que acabasse por ser derrubado em 18 de Março de 1970, por um golpe dos militares, sob o comando do general Lon Nol, formando governo, o qual, a 9 de Outubro de 1970, aboliu a monarquia e implantou a República Khmer, com o general Lon Nol como primeiro-ministro. Entretanto, Norodom Sihanouk exilou-se em Pequim. Muitos dos apoiantes de N. Sihanouk haviam-no abandonado, juntando-se aos Khmers Vermelhos, constituindo a NUF-Frente Nacional Unida.

Nova alteração em 1972, com Lon Nol a assumir-se como Presidente da República, dando início a uma governação por decreto.

A guerra civil intensificou-se, tornando-se destrutiva para a população que para isso não estava preparada e muito menos habituada, situação agravada pelos bombardeamentos americanos, despejando “540.000 toneladas de explosivos sobre as zonas de combate, metade das quais no decorrer dos seis meses anteriores à proibição dos bombardeamentos pelo Congresso (Agosto de 1973). Conseguiram atrasar o avanço dos Khmers Vermelhos, mas asseguraram-lhes um forte recrutamento rural provocado pelo ódio aos Estados Unidos, desestabilizaram um pouco mais a república através do afluxo de refugiados às cidades (sem dúvida um terço dos oito milhões de Cambojanos), permitiram mais tarde a sua evacuação quando da vitória dos Khmers Vermelhos e, finalmente, possibilitaram esta mentira grosseira, argumento recorrente da propaganda dos comunistas: «Vencemos a maior potência mundial, portanto venceremos qualquer resistência, da natureza, dos Vietnamitas, etc»” (9).

De facto, os khmers vermelhos, contrariamente à sua propaganda, não venceram os EUA, foi o Congresso deste país que impediu a continuação dos bombardeamentos, como também não venceram os vietnamitas, sendo estes a vencê-los: aos khmers vermelhos e aos EUA, como veremos mais à frente.

No seu exílio em Pequim, N. Sihanouk, com o apoio do NUF, formou um governo real de União Nacional.

Com a derrota americana, em 1975 (10), as tropas dos EUA retiraram-se do Vietname, levando à queda de Lon Nol e o NUF, após a guerra civil, conseguiu tomar o poder em 1975, sendo N. Sihanouk nomeado Chefe de Estado vitalício, mas tendo o poder ficado nas mãos de Pol Pot, líder dos khmers vermelhos, estudante da obra de Rousseau, em Paris, na década de 50 do século passado. A propósito, lembremos estas palavras de Philipp Blom, na sua obra «A Wicked Company», que transcrevo da sua versão espanhola (11): «Basicamente, os utópicos são sempre religiosos, e não é de surpreender que Rousseau tenha sido uma fonte direta de inspiração não apenas para Robespierre, mas também para Lenine e Pol Pot, que estudou a obra de Rousseau em Paris na década de 1950, antes de a sua campanha assassina ter levado o Camboja de volta à Idade do Ferro, fingindo criar uma sociedade de camponeses virtuosos isolados das consequências corruptas de uma sociedade superior.»

Quase um ano depois, o Camboja tinha uma nova Constituição com uma curiosa concepção «democrática»: previa a nova Constituição uma Assembleia de Representantes eleitos com 250 membros, sendo 150 em representação dos camponeses, 50 para representar os trabalhadores e 50 em representação dos soldados, mas todos os candidatos teriam de ter a aprovação do governo!

Cabia a esta Assembleia a nomeação do Presidente do Estado e de dois Vice-Presidentes. Norodom Sihanouk renunciou ao cargo de chefe de Estado, sendo nomeado como Presidente o ex-guerrilheiro Khieu Samphan.

O apoio dos EUA a Lon Nol permitiu às forças militares do Camboja passarem de 45.000, em 1969, para um número acima dos 200.000 militares em 1970, forças essas bem equipadas pelos americanos, enquanto os apoios da China e do Vietname do Norte ao NUF não possibilitaram umas forças militares superiores a 30.000 efectivos.

Com a vitória do NUF, já referida, o nacionalismo foi assumido em extremo, com uma hostilidade clara aos EUA, mostrando-se claramente ao lado da China e, no início, também favorável ao Vietname, mas não à União Soviética. (12)

As chacinas provocadas pelas forças de Pol Pot, cujos números tentei apurar em diálogo com alguns cambojanos, variam entre um milhão de mortos e quase três milhões. O guia cambojano, com quem conversei mais demoradamente, disse-me que os mortos teriam, quanto muito, atingido os dois milhões, entre os assassinados por ordem directa do poder, considerados opositores ao governo de Pol Pot, e os mortos pelas dificuldades criadas pelas decisões governamentais, entre elas a tentativa de criação de «uma sociedade de camponeses virtuosos» para usar as palavras de Philipp Blom, na obra acima referida, onde a fome teve um papel importante.

Pol Pot obrigou os citadinos e deslocarem-se para o campo e, ali instalados, a terem de providenciar a sua subsistência, deixando as cidades desertas, incluindo os hospitais citadinos, cujos doentes também foram obrigatoriamente transferidos e quase todos mortos nessa transferência, a maioria não de morte natural. Disse-me o guia: «Imagina um professor universitário que nunca tinha trabalhado a terra a ver-se obrigado, com a sua família, a transformar-se de repente num camponês e a produzir alimentos para a sua subsistência e dos seus». Claro que não foram apenas os professores universitários a serem deslocados para o campo, mas todos os profissionais liberais ou outros que sempre viveram na cidade e que da vida camponesa nada sabiam, ou seja, todos os residentes da capital foram evacuados. A fome foi inevitável, provocando milhares e milhares de mortos, num número que ninguém saberá calcular. (13)

Segundo Walter Scheidel (14), «A perda de vidas humanas foi enorme —talvez perto de 2 milhões de pessoas, um quarto da toda a população do Camboja. A mortandade centrou-se desproporcionadamente nos residentes urbanos: quatro anos depois, cerca de 40 por cento dos habitantes de Phnom Penh já morrera. Os antigos oficiais e soldados de patente mais elevada foram particularmente mal tratados. Ao mesmo tempo, o surgimento de uma nova elite era condicionado por crescentes purgas de quadros do partido. Por exemplo, 16.000 membros do Partido Comunista da Kampuchea acabariam por ser mortos na mal-afamada prisão de Tuol Sleng, um número impressionante, tendo em conta que em 1975 o partido não tinha mais de 14 000 filiados. Entre a população em geral, as causas do número excessivo de mortos dividiram-se de forma bastante igual entre a ruralização, execuções, o encarceramento, a fome e as doenças. Centenas de milhares de pessoas foram assassinadas longe da vista do público, geralmente espancadas até à morte com golpes na cabeça dados com barras de ferro, cabos de machados ou utensílios agrícolas. Alguns dos cadáveres foram usados como fertilizante.» (W. Scheidel serve-se do texto de Jean-Louis Margolin, «Cambodia: a country of disconcerting crimes», 1999).

A chacina dos cambojanos e as disputas fronteiriças com o Vietname, com a China, sem o declarar, a apoiar estas acções —do que fiquei convicto com algumas conversas com um antigo combatente vietnamita, do que penso tratar quando, sobre esta viagem à Indochina, escrever a parte relativa ao Vietname—, as forças vietnamitas intervieram no Camboja, com início em Janeiro de 1979, numa operação, como me disse um dos combatentes vietnamitas, prevista para três meses mas que em menos de um mês derrotou as forças de Pol Pot.

O comando das forças vietnamitas esteve a cargo do lendário General e ministro da Defesa, Vo Nguyen Giap, o qual, a 22 de Dezembro de 1978, colocou a força aérea a bombardear o Camboja durante três dias, com mais de quarenta investidas por dia, após o que deu início à invasão por terra no Leste cambojano, com uma força de 150.000 vietnamitas e 15.000 refugiados cambojanos, que haviam fugido das forças de Pol Pot. A cidade de Kratié (ou Kracheh), no Nordeste do Camboja, primeiro bombardeada, foi tomada a 30 de Dezembro pelas forças invasoras, que mataram todos os oficiais de Pol Pot que encontraram.

«Muitos chineses conselheiros que viviam no Camboja fugiram em barcos pelo Kompong Som. Porém, logo os vietnamitas avançaram para o sul e impediram as rotas de fugas pelo mar. Em janeiro, a capital cambojana, Phnom Penh, foi invadida. A cidade foi cercada por, aproximadamente, 5 divisões vietnamitas. Todos os conselheiros estrangeiros, que viviam nas embaixadas na capital, foram avisados para deixarem a cidade temporariamente e irem para Battambang. Dia 3 de Janeiro, as forças vietnamitas atingiram o Nordeste e continuaram seguindo até à fronteira com a Tailândia. Poucos dias depois, Kompong Spue, cidade com um grande depósito de munição, foi bombardeada por aviões vietnamitas. A cidade foi completamente destruída por centenas de explosões secundárias.

Sem o apoio do povo, os militantes do Khmer Rouge, a começar pelos seus líderes, fugiram quase imediatamente para a selva, no norte do Camboja, e atravessaram a fronteira da Tailândia.» (15)

Duas semanas depois de iniciada a invasão —7 de Janeiro, escreve Taís B. C. Soares, na Monografia de que é autor (16)—, Phnom Penh foi tomada. Era uma cidade desertificada da sua população, que havia sido expulsa para os campos pelos khmers vermelhos, como já referimos. «Havia talvez 40.000 pessoas em Phnom Penh que foram deixadas para cuidar de si mesmas. Não havia carros nem tráfego e apenas o zumbido de moscas e mosquitos quebrou o misterioso silêncio do que foi comparado a um cenário de filme sem atores. Pedaços de papel e dinheiro velho estavam soprando nas sarjetas. O Khmer Vermelho havia acabado com o dinheiro, o que também desaprovava. Havia um cheiro repulsivo dos esgotos porque o abastecimento de água da cidade não estava funcionando. (…)

Pol Pot in https://www.historytoday.com/archive/vietnamese-take-phnom-penh

Pol Pot e os outros líderes do Khmer Vermelho acreditavam que, uma vez que os vietnamitas tentassem ocupar o resto do país, eles seriam um alvo fácil para a guerra de guerrilhas e logo teriam que se retirar. “Quando todos estiverem dentro de nossas fronteiras”, disse Pol Pot, “vamos cortá-los em pequenos pedaços”. Ele estava errado. Os vietnamitas estabeleceram um governo fantoche em Phnom Penh e seu exército não deixou o Camboja até 1989. O Khmer Vermelho continuou uma campanha de guerrilha a partir de uma base na fronteira com a Tailândia. Pol Pot acabou sendo deposto por seus colegas em 1997 e mantido em prisão domiciliar até sua morte no ano seguinte. Havia suspeitas de que ele havia sido envenenado.» (17)

As provas das atrocidades dos khmers vermelhos no seu curto domínio no Camboja percorreram o Mundo, provocando algumas reacções que não podemos deixar de registar, nomeadamente as reacções de americanos, como a do embaixador norte-americano na ONU, numa declaração a jornalistas em Nova Iorque:

«Quase sempre penso que é errado um país transpor as fronteiras de outro, mas no caso do Camboja não me sinto terrivelmente transtornado. […] é um país que matou tantos de seu próprio povo, não sei se algum americano pode ter uma opinião clara sobre isso. […] É uma situação moral extremamente ambígua.» (18)

Lembremos que os americanos começaram por apoiar os khmers vermelhos por estes serem apoiados pela China, com a qual os EUA haviam reatado relações em 1979, sendo mais importantes os interesses americanos na China do que pôr fim ao genocídio do povo cambojano, para além de imperar ainda o vexame americano provocado pela derrota no Vietname. Entretanto, a permanência dos vietnamitas no Camboja começou a criar sentimentos de incomodidade entre os cambojanos, havendo, por um lado, o agradecimento por os terem libertado das atrocidades dos khmers vermelhos, por outro lado, derrotados os genocidas, não se justificava a permanência das tropas vietnamitas no seu país. Havia ainda o sentimento, entre alguns cambojanos, de que o Vietname tinha incorporado no seu actual território parte do antigo Império Cambojano e, portanto, o Vietname tinha feito o que havia a fazer e, agora, tinha de se retirar. (19)

Os ataques, acima já referidos, dos khmers vermelhos e as sanções económicas ao Vietname, dos EUA e de outros países seus aliados, a que se juntou a União Soviética diminuir o seu apoio ao Vietname, levou a conversações em Paris em 1989, que se mantiveram, terminando com o acordo de paz, em Outubro de 1991. A ONU conseguiu impor o cessar-fogo e o tratamento dos refugiados e do desarmamento.

Com a estabilidade política assim criada, nasceu uma democracia multipartidária, reconstituindo-se a monarquia constitucional, com Norodom Sihanouk de novo rei do Camboja em 1993, abdicando em 2004 em favor do seu filho Norodom Sihamoni, o novo rei. No entanto, algumas perturbações aconteceram com um conflito entre apoiantes da Funcinpec —a Frente Nacional Unida fundada por Norodom Sihanouk em 1981— e do Príncipe Norodom Ranariddh, de um lado, e, do outro lado, as forças do primeiro-ministro Hun Sem, que levou à expulsão do Príncipe acusado de tentativa de um golpe. Mais tarde, em 2008, o rei Norodom Sihamoni perdoou Ranariddh, que regressou ao Camboja. (20)

Quando se colocou a questão de suceder ao seu carismático pai, Norodom Sihamoni terá mostrado alguma relutância em aceitar ser rei —provavelmente, a sua paixão pelas artes e as suas experiências práticas neste mundo terão contribuído para essa relutância—, mas, com a aprovação dos nove membros do Conselho do Trono, acabou por aceitar.

Pelas conversas que mantive com alguns cambojanos, a sua popularidade é um facto, mostrando-se humilde e próximo do povo. As suas viagens de estado a outros países não o impedem de se deslocar às zonas rurais do Camboja, dialogando com a população sem grandes formalismos. Tem mostrado uma grande preocupação com a educação e com a saúde, assim como procura reactivar a vida cultural cambojana, como o guia teve o cuidado, direi mesmo o empenho, de me dizer. (21)

(CONTINUA)

NOTAS

História

  1. Jacques, Claude e Freeman, Michael, Angkor, «Cité Khemère», edição River Books, Bangkok, edição em francês de 2012, pág. 8;
  2. «Funan» é um nome nunca referido nos textos cambojanos, julgando-se que lhe tenham dado outro nome (in https://pt.wikipedia.org/wiki/Camboja);
  3. Jacques, Claude e Freeman, o. c., pág. 8;
  4. Idem, idem, pág. 9;
  5. Nota 1, pág. 47;
  6. in mtholyoke.edu/~marye20l/classweb/Cambodian%20History.html
  7. in https://en.wikipedia.org/wiki/French_colonial_empire#Napoleon_III:_1852-70
  8. Gaddis, John Lewis, «A Guerra Fria», pág. 179, Edições 70, Lda., Lisboa, Março de 2007;
  9. Margolin, Jean-Louis, «Comunismos da Ásia: entre «reeducação» e carnificina – A China, o Vietname, o Laos e o Camboja», in «O Livro Negro do Comunismo». Por Courtois, Stéphane; Werth, Nicolas; Panné, Jean-Louis; Paczkowski, Andrzej; Bartosek, Karel e Margolin, Jean-Louis, pg. 662, trad. De Maria da Graça Rego e Lila V., 2.ª edição, Quetzal Editores, Lisboa, 1998;
  10. Não posso deixar de lembrar um texto de Hannah Arendt, «O feitiço contra o feiticeiro», in «Responsabilidade e Juízo», tradução de Miguel Serras Pereira, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2004, de que transcrevo um longo parágrafo da notável reflexão de uma das grandes figuras do pensamento contemporâneo, que foi H. Arendt, reflexão essa motivada pela derrota americana no Vietname: “Penso que a maior parte dos que viram o pânico da debandada frenética que acompanhou o fim da guerra no Vietname pensou que aquilo que aparecia nos ecrãs da televisão eram cenas «inacreditáveis», como, de resto, é verdade que foram. Trata-se de um aspecto da realidade que não podemos antecipar nem através da esperança nem através do medo, e que celebramos quando a Fortuna nos sorri, e que amaldiçoamos quando o infortúnio nos atinge. Toda a especulação sobre as causas mais profundas foge do choque da realidade, refugiando-se no que parece plausível e pode ser explicado nos termos que os homens razoáveis consideram ser os do possível. Os que contestam os critérios da plausibilidade, os portadores de más notícias, que insistem em «dizer que as coisas foram como foram», nunca foram bem-vindos nem, por vezes, tolerados sequer. Se faz parte da natureza das aparências esconder as causas «mais profundas», faz parte da natureza da especulação sobre essas causas escondidas esconder-nos e fazer-nos esquecer a nua e crua brutalidade dos factos, das coisas como elas são.” (págs 236-237);
  11. Blom, Philipp, «Gente peligrosa -–El radicalismo olvidado de la Ilustración europea», Editorial Anagrama, Barcelona, Março de 2012, pg. 22
  12. Ver Colliers Encyclopedia, vol. 5, 1989, Macmillan Educational Company, New York/P. F. Collier, In., London and New York, Editorial Director William D. Halsey e Editor in Chief Bernard Johnston;
  13. Para mais pormenores, nomeadamente sobre a chacina de cambojanos, v. «O Livro Negro do Comunismo», referido na nota 8. Poderá também consultar-se Taís Baldez Carvalho Soares, «Intervenção Vietnamita no Camboja: Agressão ou Ato Humanitário?», tese apresentada para obtenção do título de bacharel em Relações Internacionais, Monografia – Centro Universitário de Brasília – UniCEUB, Brasília, 2008, disponível em https://repositorio.uniceub.br/jspui/handle/235/9539. Sobre Sihanouk ver:

https://www.sunsigns.org/famousbirthdays/d/profile/norodom-sihanouk/

  1. Scheidel, Walter, «A Violência e a História da Desigualdade – Da Idade da Pedra ao Século XXI», Edições 70, Lisboa, Outubro de 2017, págs. 319-320;
  2. Soares, Taís Baldez Carvalho, o. c. na nota 13, pg. 55, que cita bibliografia importante, e https://en.wikipedia.org;
  3. Informação retirada de Power, Samantha, «Genocídio: A Retórica Americana em Questão», 1.ª ed., São Paulo, Companhia das Letras, 2004, pg. 175;
  4. in: https://www.historytoday.com/archive/vietnamese-take-phnom-penh;
  5. Soares, Taís Baldez Carvalho, o. c., pg. 59. Informação retirada da obra de Power, Samantha, referida na nota anterior;
  6. Soares, Taís Baldez Carvalho, o. c., pgs. 58-60;
  7. https://pt.wikipedia.org/wiki/Hist%C3%B3ria_do_Camboja;
  8. in https://www.britannica.com/biography/Norodom-Sihamoni

Leave a Reply