EM VIAGEM PELA INDOCHINA (3) – por ANTÓNIO GOMES MARQUES

Obrigado a John Moen e ao worldatlas

 

II – CAMBOJA – Religião

 

Quando falamos das religiões orientais temos de ter consciência de que a concepção de religião nada tem a ver com a visão que nós, ocidentais, temos quando abordamos o tema. A espiritualidade nas duas culturas, oriental e ocidental, tem muitas diferenças.

No que à religião se refere, temos no Ocidente, o Cristianismo, o Judaísmo e o Islamismo; no Oriente, temos, também como principais religiões, o Hinduísmo, o Budismo, o Taoísmo e o Xintoísmo.

No contexto destas religiões, podemos dizer que as religiões orientais se caracterizam por uma espiritualidade introspectiva, o divino sente-se de dentro para fora; nas religiões ocidentais, a espiritualidade é expansiva, procurando Deus que está no céu (1).

«O significado do termo “religião”, com origem na palavra latina religio, e que atualmente se entende como um sistema de crenças incorporado por uma comunidade, sofreu um processo de transformação ao longo dos tempos. O seu significado começou por ser equivalente ao de “piedade”, na tradição europeia onde se desenvolveu. Apenas depois dos ânimos dos grandes reformadores terem arrefecido nas disputas teológicas abstratas do século XVII, a noção de religião enquanto sistema de crenças começou a se desenvolver.

A essa noção juntou-se o conceito das populações humanas que professam essas doutrinas, de modo que, século XVII, as “religiões” eram entendidas como sistemas de crenças alternativos, incorporados em várias comunidades mutuamente exclusivas ideologicamente. O século XIX trouxe uma dimensão histórica à questão e à percepção dos fenómenos hoje chamados islamismo, hinduísmo, cristianismo, budismo etc., como organismos complexos, cada qual com sua longa história, que os académicos dos séculos XIX e XX estudaram e detalharam em todas as suas crescentes particularidades.

Como parte dessa visão histórica, os cristãos ocidentais habitualmente eram forçados a inventar um nome para as religiões a partir das quais esperavam converter os outros povos do mundo. “Hinduismo” e “budismo”, por exemplo, são termos de origem ocidental para descrever a vida religiosa da Índia e aqueles que são profundamente influenciados, respectivamente, pelos Vedas e por Buda.

Os viajantes ocidentais ficavam muitas vezes desconcertados ao descobrir que na China uma pessoa podia “pertencer” a três religiões ao mesmo tempo – confucionismo, budismo e taoismo – e apenas gradualmente começavam a perceber que os chineses não as viam, de acordo com a óptica ocidental, como religiões alternativas, mas como algo mais semelhante a três campos de força interpenetrantes da vida religiosa chinesa. As evidências mostram que no Oriente os povos nunca aplicaram naturalmente o conceito de religião, com o seu nome próprio, à sua fé, e mesmo a tradição cristã ocidental apenas começou a ser tratada dessa forma com o surgimento do ceticismo e da descrença no período moderno.» (2)

Façamos ainda uma longa transcrição para que as diferenças entre os conceitos de religião no Oriente e no Ocidente se tornem mais claras:

 

«Visão Histórica

Oriental:

  • Visão cíclica da história, isto é, a história se repete num ciclo eterno e o mundo dura de eternidade em eternidade.

Ocidental:

  • Visão linear da história, isto é, tem um começo e um fim; o mundo foi criado num certo ponto e um dia irá terminar.

Conceito de Deus

Oriental:

  • O divino está presente em tudo. Ele se manifesta em muitas divindades (panteísmo), ou como uma força impessoal que permeia a tudo e a todos.

Ocidental:

  • Deus é o criador; Ele é Todo-Poderoso e é único. O monoteísmo é tipicamente ocidental.

Noção de Humanidade

Oriental:

  • O homem pode alcançar a união com o Divino, mediante a iluminação súbita e o conhecimento.

Ocidental:

  • Há um abismo entre Deus e o ser humano, entre o Criador e a criatura. O grande pecado é o homem desejar se transformar em Deus, em vez de se sujeitar à vontade de Deus.

Salvação

Oriental:

  • A salvação é se libertar do eterno ciclo da reencarnação da alma e do curso da ação. A graça vem por meio de atos de sacrifício ou do conhecimento místico.

Ocidental:

  • Deus redime o ser humano do pecado, julga e dá a punição. Existe a noção de vida após a morte, no céu ou no inferno.

Ética

Oriental:

  • Os ideais são a passividade e a fuga do mundo.

Ocidental:

  • O fiel é um instrumento da ação divina e deve obedecer à vontade de Deus, abandonando o pecado e a passividade diante do mal.

Culto

Oriental:

  • Meditação, sacrifício.

Ocidental:

  • Orar, pregar, louvar.» (3)

Foram Michel Hulin e Lakshmi Kapani os primeiros que, há mais de 20 anos, me chamaram a atenção, no seu texto «O Hinduísmo» (4), para as profundas diferenças entre os conceitos de religião no Ocidente e no Oriente quando escreveram “Antes de assinalar as características específicas da minha religião relativamente às outras, uma advertência se impõe. Tivesse eu em vista outras religiões da Ásia, incluindo o islão, também ele presente na Ásia, e as minhas respostas seriam diferentes das que vou propor. (…) É, portanto, antes de mais nada relativamente à ideia que geralmente se tem da religião no Ocidente cristão que eu tento evidenciar aqui as especificidades do hinduísmo.

Antes de mais, não existe em sânscrito um equivalente exacto do termo «religião». Se se pretender perguntar a um viajante que tenha aterrado na Índia, ou até a um indiano, qual é a sua religião. Diz-se-lhe em inglês: «What is your religion?», ou em hindi: «Âp kâ dharma kyâ hai?» —e, segundo os casos, ouvir-se-á uma resposta que significa: sou cristão, muçulmano, hindu, etc. Contudo, aquilo a que se chama o hinduísmo (palavra criada pelos Ingleses por volta de 1830) não corresponde a um domínio separado da vida social, como nos nossos dias acontece com a religião no Ocidente. O hinduísmo é essencialmente e indissoluvelmente um sistema sócio-religioso. A palavra adoptada em sânscrito, tal como em hindi, bengali, etc., é dharma, o que, sem contradizer a ideia de religião, significa mais precisamente o fundamento cósmico e social, a norma reguladora da vida. Trata-se de uma lei imanente à natureza das coisas, inscrita simultaneamente na sociedadde e no fundo de cada um de nós. Colocar a um hindu a questão: «Qual é a sua religião?» equivale, portanto, a perguntar-lhe: «Qual é o seu way of life?»”

Ora, os cuidados a ter com o hinduísmo, são os cuidados que deverão ter-se com as outras religiões orientais, como o budismo, religião oficial do Camboja, como está determinado na Constituição do país. (5)

Presume-se que 90-95% ou mais da população cambojana seja budista, mas ninguém pode garantir ser essa a percentagem correcta, pois, como nos avisa Jean-Noël Robert, «o carácter multiforme do budismo desafia toda a colocação em estatísticas». Também se diz que as duas religiões com mais seguidores são o Cristianismo e o Budismo, mas dificilmente, pelas razões apontadas nos textos referidos na nota 5 deste capítulo, é impossível saber-se o número exacto de budistas no mundo. Voltando ao Camboja, pelo que me foi dado observar, o nascer khmer define a sua pertença à religião budista, mas pude saber, nos contactos que tive, que nem todos são praticantes, embora ninguém me tenha dito que não era budista. Qual a percentagem dos não praticantes? A pergunta pode ser feita, mas ninguém espere uma resposta. Admito que nos meios académicos possa haver algum esclarecimento, mas não posso garantir. Aquando do regime instaurado pelos Khmers Vermelhos a religião foi reprimida; terminado este período ditatorial, o budismo teve um natural renascimento.

Entrando no estudo, mesmo não aprofundado do budismo, devemos ter em conta que a «… palavra buda é um particípio passado que significa «despertado», «desabrochado», de uma raiz verbal que designa a acção de despertar, de compreender, de reconhecer; não é de modo algum um nome próprio, mas um epíteto daqueles que chegaram à inteligência suprema; conota um paradigma, diriam os pedantes.» (6) Devemos também reter que a palavra Buda significa “aquele que despertou”.

Com raríssimas excepções, os budistas reconhecem como fundador da sua fé o Buda Śākyamuni, a sua vida como modelo a imitar pelos monges, embora ninguém tenha a certeza de como essa vida foi realmente, sendo aceite como o Buda histórico (sobretudo no Budismo Mahayana), devendo o seu nome ao facto de se aceitar ter nascido em Śākyamuni (aparecendo muitas vezes escrito Shakyamuni, quer o  nome do Buda, como da localidade).

Devemos também ter presente que há muitos budas no budismo, havendo, como no Cristianismo, vários grupos, cada um dos quais se considerando como o principal e o mais autêntico.

De todos os budas, considera-se o mais importante o nascido com o nome Gautama Siddhârta (ou Siddhattha ou Sidarta Gautama), situando-se o seu nascimento nos séculos VI-V antes da nossa era (a. n. e.) (566-486), embora o ramo budista Theravâda —o que é seguido no Camboja— não tenha dúvidas sobre as datas, afirmando que nasceu no mês de vesâkha (7) do ano 624 a. n. e., morrendo em 543 a. n. e., com 80 anos de idade.

Terão sido constituídos 18 grupos ou em volta de um mestre que tenha ganho proeminência ou em diferentes localidades. Segundo os textos antigos do budismo, 4 foram os grupos mais influentes: os Sarvastadines, como atestam muitas das suas escrituras hoje à nossa disposição; os Samntiyas, com pontos de vista não ortodoxos sobre a natureza do “eu”; os Mahasanghikas, de onde deriva o nome Mahāyāna (8), e, por fim, o quarto grupo, os Sthaviras ou, na língua páli, os Theras ou anciãos, conhecido como a Escola Theravada, o único grupo com o cânone completo.

Este ramo do budismo, Escola Theravada, é o mais antigo do budismo e o que é seguido no Camboja, sendo as suas escrituras em língua páli, sendo o seu texto mais famoso, o Dhammapada —caminho dos ensinamentos de Buda—, constituído por 423 estrofes, divididas em 26 secções, absolutamente indispensável a qualquer estudante do budismo.

Aproveitemos o texto que temos estado a seguir, para fazer uma longa transcrição (9):

«Devemos extrair do chamado Cânone em Páli o conhecimento do Budismo puro, ou seja, do Budismo livre de ingredientes posteriores não hindus. Este cânone, que se divide em três partes, denomina-se Tripitaka. Escritos em folhas de palmeira, foram guardados em cestos para evitar que a umidade da estação das chuvas os destruísse. Por isto, é também chamado de “Três Cestos”. Suas divisões são as seguintes:

  1. o Vinaya Pitaka, que contém os ensinamentos relativos à prática da moralidade e da conduta dos discípulos de Buda;
  2. o Sutta Pitaka (em páli) ou Sutra (em sânscrito), ou “os livros dos ensinamentos” e;
  3. o Abhidharma Pitaka, ou “os livros sobre filosofia e psicologia”.

Cada uma das três coleções, por sua vez, subdivide-se em várias partes. Os textos mais importantes estão reunidos no Sutta Pitaka, que se compõe de cinco Nikayas, ou coleções, a saber:

  1. Digha Nikaya: coleção longa (discursos extensos);
  2. Majjhima Nikaya: coleção média (discursos médios);
  3. Samyutta Nikaya: coleção ordenada de grupos afins;
  4. Anguttara Nikaya: coleção ordenada em número crescente;
  5. Khuddaka Nikaya: coleção menor à qual pertencem vários livros como Dhammapada, Thera Gatha e Theri Gatha, Jatakas, etc.

A prática do Hinayana ou Pequeno Veículo, ou ainda a prática individual do ser humano se resume em dois grandes princípios:

  1. A observação de uma ética que evita tudo aquilo que possa prejudicar os outros, e;
  2. A compreensão da vacuidade do indivíduo, ou seja, seu “não-eu”.

Por este caminho, todas as paixões, desejos, raiva, ódio, orgulho e ciúmes desaparecem e, por este motivo, a mente permanece em total absorção da vacuidade. O estado mental obtido denomina-se Arhat, ou seja, o “vencedor dos inimigos ou das paixões”, o ser perfeito ou realizador solitário. Este estado é, realmente, um grau de libertação que traz muito bem-estar e felicidade à pessoa que consegue atingi-lo. Porém, este não é o “despertar supremo ou último”. O Arhat pode permanecer muito tempo em um estado de profunda calma e felicidade individual, mas não é o definitivo. Chega um momento em que o Buda emite um raio de luz que toca o Arhat e desperta nele o sentimento da grande compaixão, motivando-o a continuar seu caminho até o “despertar perfeito”».

Vamos limitar as transcrições, para não cansar o leitor. Quem pretender aprofundar o estudo do budismo, tem nos textos aqui por mim referidos fontes importantes e, julgo, suficientes para uma completa informação sobre esta religião. Quem quiser tornar-se seguidor do budismo, tem de tomar consciência de que não será budista se não cumprir o determinado no Cânone, que acima se refere, e retenhamos mais uma transcrição do texto que temos estado a seguir (conforme nota 9), com a qual esse mesmo texto se encerra:

«“O homem não é justo se julga com rapidez; justo é aquele que sabe estabelecer entre o eqüitativo e o injusto. Um homem não é douto porque sabe muito. Aquele que é paciente, que está livre do ódio e do temor, a este se pode chamar de douto. Um homem não é versado em Dharma porque sabe muito; aquele cujo conhecimento do Dharma é limitado, mas que experimentou a Verdade, é certamente versado em Dharma, ou seja, não é negligente em relação a este.

Nem a verbosidade florida nem a bela aparência física fazem com que os invejosos, avaros ou falsos sejam dignos de respeito. Porém, aquele que desraigou de si estas imperfeições, a este se pode chamar de respeitável.

O homem indisciplinado e mentiroso não se converte em discípulo de Buda -como pode ser discípulo de Buda se está dominado pelo desejo e a cobiça? Aquele que destruiu as más ações sejam elas grandes ou pequenas, a este se pode chamar de discípulo de Buda. Um homem não é um monge porque vai a busca de esmolas. Não basta receber a ordenação e sair em busca de esmolas – – é preciso viver a doutrina. Aquele que sobrepujou a ambos, o bem e o mal, que é puro e vive neste mundo com claro discernimento, a este se pode chamar de discípulo de Buda.”

Se alguma pessoa pedir que sintetizemos o Hinayana em um poema curto, de apenas quatro linhas, Sidarta Gautama já o fez:

“Parem de fazer o mal;

Aprendam a fazer o bem;

Limpem vosso coração.

Este é o ensinamento de todos os Budas.”»

O budismo tem uma característica que não existe nas outras religiões. Tem um fundador, Buda. Como nos diz Môhan Wijayaratna —ver nota 5, pág. 443—, “… esse fundador não foi uma encarnação divina ou um mensageiro de Deus, mas um ser humano que expôs uma disciplina mental que já pusera em prática com êxito e uma verdade que compreendera ao desenvolver as suas capacidades interiores. Por isso as Escrituras canónicas utilizam sempre o passado quando se referem a este homem: «quando o Buda era vivo»; «o Buda dizia assim»; «depois do parinibbãna (10) do Buda, os seus discípulos reuniram-se», etc. Os budistas, portanto, não dirigem qualquer oração ao seu mestre desaparecido; apenas devem seguir-lhe os conselhos.”

O Deus, Criador Supremo, tem lugar nas religiões monoteístas, não no budismo. Como também o Buda não se preocupava com discussões acerca da origem do Mundo, considerando-as mesmo uma inutilidade.

Voltando ao texto de Môhan Wijayaratna (pág.447 da o. c.), “os ensinamentos do budismo a propósito da vida, da existência, etc., dizem respeito «a todo o mundo», incluindo os deuses, os brahmâ, os espíritos famintos e até os animais. Por isso é que a doutrina fala dos «seres vivos» (sattâ), e não simplesmente dos seres humanos (manussâ): assim, quando o budismo fala da felicidade, trata-se da felicidade para todos os seres vivos.”

Ainda segundo o mesmo autor (pág. 449 da o. c.), “O ensino do Buda é muitas vezes resumido nestas quatro explicações: 1. Dukkha (11): a análise da condição do indivíduo; 2. a causa de dukka: a tomada de consciência da causa; 3. a cessação de dukka: libertação; 4. a via que conduz à cessação de dukka: o caminho para chegar à libertação. Cada «verdade» diz respeito a um dever a cumprir pelo indivíduo tocado e interessado; a primeira verdade diz respeito a um fenómeno que deve ser entendido correctamente (pariññeyya): a doutrina do Buda apresenta-se assim como uma mensagem destinada a todo o indivíduo que estiver pronto a encarar o nascimento, a velhice, as doenças, a morte, a infelicidade, as lamentações, a dor, o desgosto, a tristeza – em suma, os cinco agregados do apego – como sendo verdadeiramente a própria manifestação de dukka. A segunda verdade fala da causa do fenómeno de dukka que deve ser eliminada (pahâtabba). A terceira verdade indica um estado diametralmente oposto a dukka e com o objectivo de o atingir (sacchikâtabba). Por fim, a quarta verdade corresponde ao projecto a que recorrer (bhâvetabba) para atingir o que se anuncia na terceira verdade.”

No budismo, os leigos —homens e mulheres— tornam-se doadores de alimentos, vestuário, alojamento, medicamentos e defensores da comunidade monástica; esta, por sua vez, «alimenta» os leigos espiritualmente. Assim vivem num acordo mútuo leigos e religiosos ou renunciantes, ou seja, os que fizeram uma renúncia total e que, sem o contributo dos leigos, não poderiam sobreviver.

Voltemos a Môhan Wijayaratna (pág. 462 da o. c.): “A doutrina do budismo antigo assenta em três pilares, chamados as «três jóias»: o Mestre (Buda), o seu ensino (dhamma) e a sua comunidade (sangha) de discípulos (leigos e religiosos) que atingiram os mais altos cumes da libertação. Este budismo, ao mesmo tempo simples e autêntico, denominado o Theravâda (literalmente: a «tradição dos Antigos»), continua difundido na Birmânia, no Camboja, no Sri Lanka, no Laos e na Tailândia. (…)

Porém, ao contrário do que por vezes se afirmou, o Theravâda não diz exclusivamente respeito aos monges. As doutrinas do budismo são efectivamente comuns aos monges e aos leigos; as teorias e as práticas são as mesmas para toda a gente; e também não existe uma diferença entre os resultados obtidos por um monge e os obtidos por um leigo.”

Não há mártires no budismo, o que não significa que não tenham sido perseguidos os seus praticantes e, ao contrário do fanatismo islamita, quem não está de acordo com o budismo ou professa outra religião não é, para os budistas, um ser diabólico. A tolerância religiosa faz parte das Escrituras canónicas do budismo.

O budismo também não pretende qualquer submissão do Estado à sua religião, de acordo com o que Buda pede aos seus seguidores nas Escrituras canónicas para respeitarem as leis do país, promulgadas por quem tem poderes para isso. O budismo não tem a preocupação de contribuir para a existência de reis budistas, mas sim para que existam bons reis. Não há religiosos budistas em quaisquer funções do Estado, sejam administrativas ou legislativas, nunca tendo havido monges a desempenhar, por exemplo, cargos de juízes.

Claro que os budistas pretendem algumas contrapartidas quando o budismo é seguido pela maioria da população de um determinado Estado, ou seja, os budistas pretendem ver as suas instituições religiosas protegidas pelo Estado assim como os lugares nobres da história da sua religião.

Entre as minorias religiosas no Camboja, contam-se os islamitas com cerca de 2,1%, dos quais os sunitas são a maioria. Os cristãos —católicos, baptistas, metodistas, testemunhas de Jeová, a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias— representam 1% dos religiosos do Camboja, dos quais os católicos são cerca de 20.000.

Junto a uma estátua de Buda, das muitas que podem admirar-se em Angkor

Junto a uma estátua de Buda, das muitas que podem admirar-se em Angkor

 

(CONTINUA)

NOTAS

Religião

 

  1. in http://www.gamati.com/2017/07/25/diferencas-entre-cultura-ocidental-e-oriental/;
  2. in https://pt.wikipedia.org/wiki/Religi%C3%B5es_do_Oriente;
  3. in https://www.mitografias.com.br/2009/04/ocidental-x-oriental/;
  4. in «As grandes Religiões do Mundo», sob a Direcção de Jean Delumeau, Editorial Presença, Lisboa, Lisboa, Novembro de 1997, pág 361;
  5. Vou seguir os textos de Jean-Noël Robert, «O Budismo – História e Fundamentos», pgs. 429-442, o deMôhan Wijayaratna, «O Budismo nos Países do Theravâda», pgs.443-476, in o. c. na nota anterior, assim como Paul Carus, «Evangelho de Buda», Ésquilo – Edições e Multimédia, Ldª, Lisboa, Março de 2007, para além da Wikipédia;
  6. Robert, Jean-Noël, o. c. na nota anterior, pág. 433;
  7. Vesâkha é o segundo mês do calendário budista. Nos países de tradição Theravâda, como o Camboja, Vesâkha é um feriado público, juntando-se as pessoas nos templos para meditar e honrar o Buda com várias cerimónias (in https://www.buddhisma2z.com/content.php?id=443);
  8. Mahāyāna: «o grande veículo da salvação. Nome do conceito de Budismo do Norte, que compara a religião com um grande barco no qual o homem pode atravessar a corrente do samsara para atingir a margem do Nirvāna, que, por sua vez, significa «a extinção do ego; de acordo com o Hīnayāna;
  9. http://www.jardimdharma.org.br/2015/apostilas/3_hinayana.pdf;
  10. Conforme nota do autor: cessação completa; o fim da série das existências
  11. Conforme nota do autor, “Dukka: no seu sentido habitual, esta palavra designa o sofrimento, a dor, a tristeza. Mas no seu sentido filosófico designa ao mesmo tempo os conflitos, a impermanência, o mal, a calamidade, o absurdo, a não-substancialidade e a insatisfação da vida e o estado de insatisfação que reside em todas as coisas condicionadas, mesmo até na felicidade. É neste sentido que é utilizada nas quatro Nobres Verdades do Buda.

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