A CRISE DO COVID 19 E A INCAPACIDADE DAS SOCIEDADES NEOLIBERAIS EM LHE DAREM RESPOSTA – IV – O CAPITALISMO VIVE UMA CRISE DE PARADIGMA E NAVEGA À VISTA, por ROBERTO ROMANO

 

 

Il capitalismo vive una crisi di paradigma e si naviga a vista, por Roberto Romano

Il Manifrsto. 14 de Março de 2020

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

A crise. Na tempestade perfeita, resiste a finança  que faz as bolsas de valores dançar com a  especulação. A  única a não sentir os efeitos da pandemia…

Ontem em Wall Street, 13 de Março de 2020 – Associated Press

 

Não podemos escolher a época em que queremos  viver, mas se pudéssemos, porque não escolher o tempo da “tempestade perfeita”? Porque não aceitar o desafio do nosso presente? A confiança  da classe dominante e a organização da sociedade, na esteira da crise económica e social que começou em 2007, continuou em 2011 e se precipitou com o coronavírus, pode levar a pensar que esta é incapaz de escapar ao abismo.

E  projetar-se,  assim , a essa altura vertiginosa que evoca o potencial para uma mudança radical.

Alguns países tinham acabado de recuperar em parte da crise de 2007 e 2011, mas o coronavírus faz-nos lembrar que acontece sempre qualquer coisa. A sensação é a de uma crise de época  da qual todos os dias encontramos uma nova confirmação; poderíamos defini-la como uma “crise de paradigma” que recorda a essência, a estrutura e as instituições do capital, ou seja, uma crise do “fazer” e uma crise do “pensamento”; não importa se  sublinhamos a estrita dimensão económica ou a sua contrapartida política: é a ausência de equilíbrios pelo menos temporários que constitui a bitola da derrota, o sinal da nossa navegação à vista.

Não é a PRIMEIRA vez que isso acontece, mas esta crise parece mais difícil de resolver, e provavelmente não apenas  porque é a crise  que está mais próxima de nós. O capitalismo evolui e, como tal, na crise reconstrói-se sobre novas bases. Retomando  novamente Marx, a história da economia, do trabalho e do capital, das grandes e pequenas crises, que certamente é escrita com a ajuda do capital e do trabalho, não se pode ignorar o papel crucial de cada uma das outras instituições. Caso contrário seria inconcebível considerar conceitos como a sociedade do bem-estar e o direito liberal (positivo) que mudaram o sinal e o conteúdo do capital.

Neste momento a Europa, mãe do direito positivo e do bem estar, está a tornar-se  pré-capitalista. Passar por uma época em que o papel do Estado tem apenas um lugar pontual, é desarmante. Infelizmente, não temos um Roosevelt europeu e uma contrapartida teoricamente coerente (Keynes).

No máximo, temos o pensamento neoliberal dominante que se autorreproduz.

A Finança representa bem  o estado da arte da sociedade. As bolsas não fecham – deveria ser uma escolha europeia e não de um só  Estado; a sociedade deste setor  não realiza os seus lucros  na base  “dar e receber” de um ano, mas na operação única, prefigurando um conflito entre capital e acumulação que é uma situação história sem precedentes e, de certa forma, um recuo do capitalismo que investiu em bens de capital para extrair, com o tempo, uma certa margem de lucro, explorando também a mão-de-obra assalariada. Este modelo talvez tenha entrado  em crise em 2007 e com o coronavírus de 2020 não  irá receber  o golpe de misericórdia; quando o preço das ações cai, alguém especula e ganha.

Alguns continuam a acreditar que estamos a viver um ciclo, passado ele que tudo voltará como antes, mas, provavelmente, estamos a viver a História. A História começa sempre com novas instituições de capital, embora embrionárias. Se este é o desafio da sociedade moderna, em contraste com a sociedade pós-moderna, todos os sujeitos sociais devem confrontar-se  com  esta nova e de alguma forma necessária consciência.

Capital, trabalho e a sua representação, o Estado de uma maneira diferente – difícil de imaginar um Estado-nação na situação dada , bem como as próprias instituições supranacionais – têm uma tarefa paradigmática, mas têm dificuldade em  compreendê-la.

Considerações semelhantes podem ser feitas no que diz respeito à política. Teoricamente teria um papel poderoso, mas é demasiado “ignorante” (ver Paolo Leon): flutua entre a esperança de sair da crise, preservando todas ou parte das instituições vindas de Reagan, e a possibilidade de um governo ao estilo keynesiano,  mas com representações que não fazem justiça nem a Reagan nem a Keynes.

Talvez fosse útil mostrar à Europa, ao país e ao trabalho a realidade como ela é, evitando soluções ao alcance da  mão. Se uma era económica e política acabou, e, entretanto, não há novas instituições coerentes com este capitalismo na  sua enésima metamorfose, é hora de nos libertarmos de preconceitos e expectativas pessoais. Só as ideias podem mudar o nosso tempo e o futuro que ainda nos pertence.

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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