A CRISE DO COVID 19 E A INCAPACIDADE DAS SOCIEDADES NEOLIBERAIS EM LHE DAREM RESPOSTA – IX – UM GRANDE NIVELADOR, por BRANKO MILANOVIC

 

A great equaliser, de Branko Milanovic

Social Europe, 9 de Março de 2020

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

Branko Milanovic escreve que o coronavírus está  a recordar a  alguns dos privilegiados do mundo o que é experimentar os seus estigmas diários.

 

A história económica mostra que as epidemias são grandes equalizadores. O exemplo mais citado (para o qual também temos mais dados) ainda é a Peste Negra, que atingiu a Europa por volta de meados do século XIV. Em alguns lugares, ela matou até um terço da população.

Mas ao reduzir a população, tornou o trabalho mais escasso, aumentou os salários, reduziu as desigualdades e levou a mudanças institucionais que, para alguns historiadores económicos, como Guido Alfano, Mattia Fochesato e Samuel Bowles – tiveram implicações a longo prazo no crescimento económico europeu.

De acordo com estes autores, o poder crescente do trabalho foi controlado no sul da Europa por restrições ao seu movimento e outras restrições extraeconómicas impostas pelos senhores feudais  locais. No norte da Europa, porém, onde as instituições feudais não eram tão fortes, depois da Peste Negra  o trabalho tornou-se  mais livre e mais caro, o que lançou as bases para o progresso tecnológico e, eventualmente, para a revolução industrial.

Um pouco mais de dois meses de coronavírus já provocaram mudanças económicas. Muitas serão facilmente reversíveis se a epidemia for rapidamente contida e detida. Mas se não, a situação pode endurecer muito mais. E, como em qualquer evento extremo, as epidemias de repente lançam luz sobre certos fenómenos sociais que conhecemos nebulosamente, mas que muitas vezes se tendem a ignorar ou a preferir-se não pensar neles.

“Discriminação estatística”

 

Considere a cidadania e a “discriminação estatística”. Até cerca de um ano atrás, uma viajante que entrasse no Reino Unido poderia entrar numa fila mais curta se fosse cidadã do Reino Unido ou de outro país da União Europeia – ou esperar numa fila muito mais longa, caso contrário. A distinção fazia sentido porque a circulação da mão-de-obra dentro da UE era livre. Contudo, desde há cerca de um ano, as regras mudaram de tal forma que a via rápida se aplica, para além dos cidadãos britânicos (o que é óbvio), aos cidadãos da UE, Estados Unidos, Canadá, Austrália, Nova Zelândia, Japão, Singapura e Coreia do Sul.

A princípio, uma pessoa fica chocada com uma tal variedade de países: não corresponde a nenhuma entidade política ou critério único. Não existe uma organização política que inclua todos estes países e apenas estes países

A decisão sobre quais os nacionais a  serem despachados  rapidamente baseou-se claramente em critérios de rendimento (produto interno bruto per capita) e na baixa probabilidade de os cidadãos desses países tentarem encontrar um emprego ou permanecerem ilegalmente no Reino Unido. Assim, a premissa foi baseada na “discriminação estatística”: indivíduos de outras nacionalidades serão investigados mais detalhadamente, não porque eles próprios possam ser mais suspeitos, mas porque um grupo do qual eles são membros é inerentemente “suspeito”.

Aqueles que beneficiam de tais regulações  geralmente dão-lhes pouca atenção – especialmente os europeus que têm sido servidos,  graças ao Acordo de Schengen, e podem  viajar entre países sem documentos e noutros lugares, na sua maioria sem visto, e ser recebidos (graças ao seu elevado rendimento) de braços abertos. Como Zygmunt Bauman argumentou, o direito de viajar tornou-se um bem de luxo. Se o leitor  passar anos a enfrentar  obstáculos próximos de zero na sua viagem, tenderá a assumir que isso é algo normal e que deve durar para sempre. Da mesma forma,  dificilmente iria pensar  nos outros ou assumiria que isso se deve ao facto deles pertencerem de um grupo intrinsecamente “suspeito”.

Com o surto do vírus, os EUA pararam ou reduziram o tráfego aéreo para alguns países expostos e colocaram numa lista especial os viajantes vindos da China, Irão, Coreia do Sul e Itália, ordenando-lhes que entrassem em quarentena durante as primeiras duas semanas: “Não tome transporte público, táxis, ou boleias.  Evite lugares lotados (como centros comerciais  e cinemas) e limite as suas atividades em público’, disse o anúncio. Os organizadores de uma conferência em que eu deveria participar em Washington, há apenas alguns dias, enviaram 24 horas antes do seu início o seguinte aviso: ‘Pedimos que qualquer participante convidado que tenha visitado um país do CDC Nível 3 (atualmente China, Irão, Itália e Japão) nos últimos 14 dias … se abstenha de participar de qualquer reunião’. Mais recentemente, regras semelhantes foram estendidas por Israel a cidadãos da França, Alemanha, Espanha, Áustria e Suíça.

A China e o Irão estão frequentemente nas listas negras dos EUA que, ao que parece, os legisladores americanos gostam de elaborar à mais pequena oportunidade. Mas a Coreia do Sul e, o que é ainda mais extraordinário, a Itália foram acrescentos surpreendentes. Alguns dos meus amigos italianos, ou pessoas que acabaram de voltar da Itália, expressaram incredulidade perante tal “discriminação estatística”.  De repente, eles pareceram juntar-se novamente a esta outra lista de cidadãos de países que são “estatisticamente discriminados” de tempos em tempos ou, como é o caso dos africanos que viajam quase para qualquer lugar, quase rotineiramente assim.

‘Parar e revistar’

 

Uma “queda a partir do estado de  graça” é sempre um choque e, além de tentarmos voltar de novo ao estado de  graça, faz-nos questionar a lógica de discriminações estatísticas semelhantes em outros casos.  A ordem “Parar e revistar” introduzida em Nova York pelo então prefeito Michael Bloomberg, é uma dessas políticas.

“Parar e revistar ” foi baseado no perfil racial. A sua lógica era a mesma que a dos controlos fronteiriços do Reino Unido: a proporção de crimes cometidos por afro-americanos é significativamente mais elevada do que a sua quota da população de Nova Iorque. Por isso, vamos embarcar numa política cujo objetivo será o de nos concentrarmos mais em verificar e deter os afro-americanos do que outros.

Como deve ser evidente, as três políticas de controlo fronteiriço, restrições relacionadas com vírus e “parar e revistar” – partilham a mesma ideia. A primeira e a terceira são, em grande medida, dirigidas contra os membros mais pobres. A segunda é, em princípio, aplicada igualmente e depende de onde o vírus é particularmente virulento. É por isso que a sua aplicação repentina àqueles que normalmente não estão sujeitos a discriminação estatística semelhante foi um choque tão grande. O vírus nivelou o campo de acção e fez alguns de nós pensar sobre a validade geral das políticas que utilizam informações estatísticas sobre grupos para visar indivíduos.

As políticas de “discriminação estatística” são atualmente, penso eu, quase inevitáveis: poupam tempo às autoridades (como no caso dos controlos fronteiriços), supostamente levam à redução do crime (embora a diferença em Nova Iorque  tenha sido, na realidade,  a intervenção policial extra) ou restringem (esperemos) a transmissão de um vírus como o corona. Mas devemos pensar sobre a justificação moral de tais políticas e como elas substituem a responsabilidade coletiva por responsabilidade individual – ou mesmo impor uma culpa coletiva implícita.

 

Pode ler este artigo no original clicando em:

https://www.socialeurope.eu/a-great-equaliser

https://www.ips-journal.eu/regions/global/article/show/a-great-equaliser-4135/

 

This article is a joint publication by Social Europe and IPS-Journal

About Branko Milanovic

Branko Milanovic is a Serbian-American economist. A development and inequality specialist, he is visiting presidential professor at the Graduate Center of City University of New York (CUNY) and an affiliated senior scholar at the Luxembourg Income Study (LIS). He was formerly lead economist in the World Bank’s research department.

About joaompmachado

Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

Deixar uma resposta

%d bloggers like this: