A CRISE DO COVID 19 E A INCAPACIDADE DAS SOCIEDADES NEOLIBERAIS EM LHE DAREM RESPOSTA – XVII – FOI O VÍRUS QUE FEZ ISTO, por MICHAEL ROBERTS

 

It was the virus that did it, por Michael Roberts

Michael Roberts blog, 15 de Março de 2020

Brave New Europe, 16 de Março de 2020

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

Michael Roberts escreveu : “Tenho a certeza de que quando este desastre terminar, a economia mainstream e as autoridades vão afirmar que foi uma crise exógena que não tem nada  a ver com quaisquer falhas inerentes ao modo de produção capitalista e à estrutura social da sociedade.  Foi o vírus que”.  Este foi o argumento dos economistas do  mainstream após a Grande Recessão de 2008-9 e será repetido em 2020.

Enquanto escrevo a pandemia do coronavírus (como está agora oficialmente definida) ainda não atingiu um pico.  Aparentemente começou  na China (embora haja algumas evidências de que pode ter começado noutros lugares também), e agora  espalhou-se por todo o mundo.  O número de infeções é agora maior fora da China do que dentro.  Os casos da China pararam; noutros lugares ainda há um aumento exponencial.

 

Esta crise biológica criou o pânico nos mercados financeiros. As bolsas de valores mergulharam até 30% no espaço de semanas.  O mundo imaginário e fantasista do aumento  crescente de cada ativo financeiro financiado por custos de empréstimo cada vez mais baixos acabou.

A COVID-19 parece ser um “incógnita desconhecida “, como o crash financeiro global do tipo “cisne negro” que desencadeou a Grande Recessão há mais de dez anos.  Mas a COVID-19, tal  como esse crash financeiro, não nasceu na verdade do nada  – um chamado ‘choque’ para uma economia capitalista que de outra forma cresceria harmoniosamente.  Mesmo antes da pandemia atingir, na maioria das grandes economias capitalistas, seja no chamado mundo desenvolvido ou nas economias “em desenvolvimento” do “Sul Global”, a atividade económica estava  a reduzir o seu ritmo, com algumas economias já em contração na produção e  no investimento nacionais, e muitas outras à beira do colapso.

A COVID-19 foi o ponto de viragem.  Uma analogia é imaginar a formação de um montículo de areia a formar-se até ao pico; chegados  aí e a partir daí  os grãos de areia que se adicionem começam a deslizar ; e então chega uma altura em que com mais  uma partícula de areia adicionada, todo o montículo se desfaz . Se o leitor é um pós-keynesiano, talvez prefira chamar a este fenómeno de “momento Minsky”, segundo  Hyman Minsky, que argumentou que o capitalismo parece ser estável até que o  não  seja, porque a estabilidade gera instabilidade.  Um marxista diria que sim, há instabilidade, mas que a instabilidade se transforma numa  avalanche periodicamente por causa das contradições subjacentes no modo de produção capitalista para o lucro.

Também, de outra forma, a COVID-19 não era uma “incógnita desconhecida”.  No início de 2018, durante uma reunião na Organização Mundial de Saúde em Genebra, um grupo de especialistas (o Projeto de R&D) cunhou o termo “Doença X“: Eles previram que a próxima pandemia seria causada por um novo patógeno desconhecido que ainda não tinha entrado na população humana. A doença X provavelmente resultaria de um vírus originário de animais e surgiria em algum lugar do planeta onde o desenvolvimento económico leva  as pessoas junto  a  mundo selvagem. .

A doença X seria provavelmente confundida com outras doenças no início do surto e  espalhar-se-ia rápida e silenciosamente; explorando redes de viagens e comércio humano, alcançaria múltiplos países e frustraria a contenção. A doença X teria uma taxa de mortalidade mais elevada do que uma gripe sazonal, mas propagar-se-ia tão facilmente como a gripe. Abalaria  os mercados financeiros mesmo antes de atingir o estatuto  de pandemia. Em poucas palavras, a Covid-19 é a Doença X.

Como argumentou o biólogo socialista Rob Wallace, as pragas não são apenas parte da nossa cultura; elas são causadas por ela. A Peste Negra espalhou-se pela Europa em meados do século XIV com o crescimento do comércio ao longo da Rota da Seda. Novas estirpes de gripe surgiram a partir da criação de gado. O Ébola, SARS, MERS e agora a Covid-19 tem estado ligada à vida selvagem. As pandemias geralmente começam como vírus em animais e em que transmitem-se às  pessoas quando entramos em contacto com elas. Estes vírus aumentam exponencialmente à medida que a nossa pegada ecológica nos aproxima da vida selvagem em áreas remotas e o comércio da vida selvagem leva a que se tragam  estes animais para os centros urbanos. A construção de estradas sem precedentes, o desmatamento, a limpeza de terras e o desenvolvimento agrícola, assim como as viagens e o comércio globalizado, tornam-nos  extremamente  sensíveis aos agentes  patógenos como os vírus corona.

Há uma discussão patética entre os economistas do mainstream sobre se o impacto económico da COVID-19 é um “choque de oferta” ou um “choque de procura”.  A escola neoclássica diz que é um choque de oferta porque para a produção; os Keynesianos querem argumentar que é realmente um choque de procura porque as pessoas e as empresas não vão gastar em viagens, serviços, etc.

Mas primeiro, como argumentado acima, não é realmente um ‘choque’, mas o resultado inevitável da procura de lucro do capital na agricultura e na natureza e do já fraco estado da produção capitalista em 2020.

E segundo, começa com a oferta, não com a procura, como os keynesianos querem reivindicar.  Como disse Marx: “Toda criança conhece uma nação que deixou de trabalhar, eu não direi por um ano, mas mesmo por algumas semanas, pereceria.” (K Marx para Kugelmann, Londres, 11 de julho de 1868).  É a produção, o comércio e o investimento que é interrompido quando lojas, escolas, empresas são fechadas a fim de conter a pandemia.  É claro que se as pessoas não podem trabalhar e as empresas não podem vender, então os rendimentos caem e os gastos caem e isso produz um “choque de procura”.  Na verdade, é o caminho com todas as crises capitalistas: elas começam com uma contração da oferta e terminam com uma queda no consumo – e não o contrário.

E segundo, começa com a oferta, não com a procura, como os Keynesianos querem reclamar.  Como disse Marx: “Toda e qualquer criança sabe que  uma nação que deixou de trabalhar, eu não direi por um ano, mas mesmo por algumas semanas apenas, pereceria.” (K Marx para Kugelmann, Londres, 11 de julho de 1868).  É a produção, o comércio e o investimento que é interrompido quando lojas, escolas, empresas são fechadas a fim de conter a pandemia.  É claro que se as pessoas não podem trabalhar e as empresas não podem vender, então os rendimentos caem e os gastos caem e isso produz um “choque de procura”.  Na verdade, é o caminho com todas as crises capitalistas: elas começam com uma contração da oferta e terminam com uma queda no consumo – e não o contrário.

Aqui está uma visão geral (e precisa) da anatomia das crises.

Alguns otimistas no mundo financeiro  argumentam  que o choque da COVID-19 nos mercados de ações acabará como  em 19 de outubro de 1987.  Naquela segunda-feira negra a bolsa de valores mergulhou muito rapidamente, ainda mais do que agora, mas dentro de meses inverteu a trajetória,  voltou a subir e a subir.  O atual Secretário do Tesouro dos EUA, Steven Mnuchin, está certo de que o pânico financeiro acabará como em 1987. “Sabe, eu olho para trás para as pessoas que compraram ações após a queda em 1987, pessoas que compraram ações após a crise financeira”, ele continuou. “Para os investidores a longo prazo, esta será uma grande oportunidade de investimento.”  “Esta é uma questão de curto prazo. Pode demorar alguns meses, mas vamos ultrapassar isto e a economia estará mais forte do que nunca”, disse o secretário do Tesouro.

As observações de Mnuchin  tiveram eco no  consultor económico da Casa Branca, Larry Kudlow, que incentivou os investidores a capitalizar no mercado bolsista vacilante, receosos de uma crise com o  coronavírus. “Os investidores de longo prazo devem pensar seriamente em comprar aproveitando estas descidas porque o mercado vai melhorar “, e descrevendo o estado da economia dos EUA como “sólido”.  Kudlow realmente repetiu o que disse apenas duas semanas antes do crash financeiro global de setembro de 2008: “para aqueles de nós que preferem olhar em frente, através do pára-brisas, as perspetivas para as ações estão a melhorar cada vez melhor.”

O crash de 1987 foi culpado pelo aumento das hostilidades no Golfo Pérsico, levando a um aumento nos preços do petróleo, medo de taxas de juros mais altas, um mercado sempre em alta durante  cinco anos sem uma correção significativa, e a introdução das transações computorizadas .  Como a economia era fundamentalmente “saudável”, esta não durou muito.  De facto, a rentabilidade do capital nas principais economias estava a aumentar e só atingiu o seu máximo no final dos anos 90 (embora tenha havido uma quebra em 1991).  Assim, 1987 foi o que Marx chamou de um puro “crash financeiro” devido à instabilidade inerente aos mercados de capitais especulativos.

Mas não é esse o caso em 2020.  Desta vez o colapso do mercado de ações será seguido de uma recessão económica, como em 2008.  Isso porque, como argumentei em textos anteriores, agora a rentabilidade do capital é baixa e os lucros globais são, na melhor das hipóteses, estáveis , mesmo antes da COVID-19 entrar em erupção.  O comércio e os investimentos globais têm vindo a cair, não a subir.  Os preços do petróleo entraram em colapso, não subiram.  E o impacto económico da COVID-19 é encontrado primeiro na cadeia de abastecimento, não em mercados financeiros instáveis.

Qual será a magnitude da queda que está para  vir?  Há um excelente trabalho de Pierre-Olivier Gourinchas que modeliza o impacto provável.  Ele mostra o habitual diagrama de saúde pandémico fazendo o seu trajeto teórico. Sem qualquer ação, a pandemia toma a forma da curva da linha vermelha, levando a um grande número de casos e mortes.  Estabelecendo o confinamento e o isolamento social, o pico da curva (azul) pode ser retardado  e moderado, mesmo que a pandemia se espalhe por mais tempo.  Isto supostamente reduz o ritmo da infeção e o número de mortes.

A política de saúde pública deve visar “nivelar a curva”, impondo medidas drásticas de distanciamento social e promovendo práticas de saúde para reduzir a taxa de transmissão. Atualmente, a Itália está a seguir  a abordagem chinesa de isolamento total, mesmo que possa estar a fechar as  portas  do estábulo   depois do virus ter entrado.  O Reino Unido está a tentar  uma abordagem muito arriscada de auto-isolamento para os vulneráveis e permitir que os jovens e saudáveis sejam infetados, a fim de construir a chamada “imunidade do rebanho” e evitar que o sistema de saúde seja sobrecarregado.  O que esta abordagem significa é basicamente eliminar os velhos e vulneráveis porque eles vão morrer de qualquer forma se forem infetados e evitar um bloqueio total que prejudicaria a economia (e os lucros).  A abordagem dos EUA é basicamente não fazer nada: sem testes em massa, sem autoisolamento, sem encerramento de eventos públicos; basta esperar até as pessoas ficarem doentes e depois lidar com os casos graves.

Poderíamos chamar a esta última abordagem a resposta malthusiana. O mais reacionário dos economistas clássicos do início do século XIX foi o Reverendo Thomas Malthus, que argumentou que havia demasiadas pessoas pobres “improdutivas” no mundo, pelo que as pragas e doenças regulares eram necessárias e inevitáveis para tornar as economias mais produtivas.

O jornalista conservador britânico Jeremy Warner defendeu este ponto de vista a favor da pandemia de Covid-19, que “mata principalmente os idosos”. “Para não insistir demasiado, de uma perspetiva económica totalmente desinteressada, a COVID-19 pode até mesmo  mostrar -se ligeiramente benéfica a longo prazo, ao eliminar  desproporcionalmente os dependentes idosos”. Em resposta  às críticas ‘ é óbvio , para aqueles que estão atingidos   é uma tragédia humana qualquer que seja a idade, mas este é um  texto sobre economia, não é a soma da miséria humana”. De facto, é por isso que Marx chamou à  economia no início do século 19 – a filosofia da miséria.

A razão pela qual os governos americano e britânico não vão impor (ainda) medidas draconianas, como na China eventualmente e agora na Itália (tardiamente) e em outros lugares, é porque isso irá inevitavelmente acentuar a curva de recessão macroeconómica. Considere a China ou a Itália: o aumento das distâncias sociais exigiu o encerramento de escolas, universidades, a maioria das empresas não essenciais e o pedido para que a maioria da população em idade de trabalhar ficasse em casa. Embora algumas pessoas possam trabalhar a partir de casa, esta continua a ser uma pequena fração da população ativa em geral. Mesmo que trabalhar a partir de casa seja uma opção, a interrupção a curto prazo das rotinas laborais e familiares é importante e pode afetar a produtividade. Em suma, a melhor política de saúde pública mergulha a economia numa paragem súbita.  O choque da oferta

O prejuízo económico seria considerável. Gourinchas tenta modelizar o seu impacto. Ele assume que, em relação a uma linha de base, as medidas de contenção reduzem a atividade económica em 50% por um mês e 25% no mês seguinte, após o que a economia retorna à linha de base. “Esse cenário ainda provocaria um enorme golpe nos números do PIB, com um declínio no crescimento anual da produção da ordem de 6,5% em relação ao ano anterior. Prolongar a redução  de 25% por apenas mais um mês e o declínio no crescimento anual da produção (em relação ao ano anterior) atinge quase 10%”!  Como ponto de comparação, o declínio no crescimento da produção nos EUA durante a ‘Grande Recessão’ de 2008-09 foi de cerca de 4,5%. Gourinchas conclui que “estamos prestes a testemunhar uma queda que poderá tornar a Grande Recessão anã”.

No auge da Grande Recessão, a economia americana estava a perder empregos à taxa de 800.000 trabalhadores por mês, mas a grande maioria das pessoas ainda estava empregada e a trabalhar. A taxa de desemprego atingiu um pico de ‘apenas’ 10%. Em contraste, o coronavírus está a criar  uma situação em que – por um breve período de tempo – 50% ou mais das pessoas podem não ser capazes de trabalhar. O impacto na actividade económica é comparativamente muito maior.

O resultado é que a economia, tal como o sistema de saúde, enfrenta um problema de “achatamento da curva”. A curva a vermelho expressa a perda de  produção durante uma forte desaceleração, amplificada pelas decisões económicas de milhões de agentes económicos que se tentam  proteger, cortando gastos, retardando  investimentos, reduzindo o crédito e, em geral, aumentando todos estes efeitos negativos.

O que fazer para aplanar a curva?  Bem, os bancos centrais podem e estão a fornecer liquidez de emergência para o setor financeiro. Os governos podem implantar medidas orçamentais  discricionárias direcionadas ou programas mais amplos para apoiar a atividade económica. Essas medidas poderiam ajudar a ‘nivelar a curva económica’, ou seja, a limitar a perda económica, como na curva a azul, mantendo os trabalhadores pagos e empregados para que possam pagar as contas ou ter as contas atrasadas ou amortizadas por um período.  As pequenas empresas poderiam ser financiadas para sair da tempestade e os bancos poderiam ser salvos, como na Grande Recessão.

Mas uma crise financeira ainda é um risco elevado.  Nos EUA, a dívida empresarial  aumentou e está concentrada em títulos emitidos pelas empresas mais fracas (BBB ou inferiores).

E o sector energético está a ser atingido com um duplo golpe, uma vez que os preços do petróleo baixaram. Os prémios de risco das obrigações (o custo do empréstimo) dispararam nos sectores da energia e dos transportes.

A flexibilização monetária certamente não será suficiente para achatar a curva.  As taxas de juros do banco central já estão próximas, em ou abaixo de zero.  E as enormes injeções de crédito ou dinheiro no sistema bancário serão como “puxar por uma linha ” no seu efeito sobre a produção e o investimento. O financiamento barato não vai acelerar a cadeia de abastecimento nem fazer com que as pessoas queiram viajar novamente. Nem ajudará os lucros empresariais  se os clientes não estiverem a fazer despesa.

A principal mitigação económica terá de vir da política  orçamental. As agências internacionais, como o FMI e o Banco Mundial, ofereceram 50 mil milhões de dólares. Os governos nacionais estão agora a lançar vários programas de estímulo fiscal.  O governo do Reino Unido anunciou um grande aumento da despesa no seu último orçamento e o Congresso dos EUA concordou com uma despesa  de emergência.

Mas será isso suficiente para aplanar a curva se dois meses de bloqueio fizerem recuar a maioria das economias para uma espantosa queda em 10%?  Nenhum dos pacotes fiscais atuais se aproxima dos 10% do PIB.  Na verdade, na Grande Recessão, apenas a China assumiu  tal quantia.  As propostas do governo do Reino Unido ascendem a apenas 1,5% do PIB no máximo, enquanto a da Itália é de 1,4% e a dos EUA é inferior a 1%.

Há uma possibilidade de que até ao final de abril tenhamos  visto o número total global de casos atingir o auge e começar a diminuir.  É isso que os governos estão a esperar  e a  planear.   Se esse cenário otimista acontecer, o coronavírus não vai desaparecer.  Ele  tornar-se-á  mais um patógeno parecido com a gripe (do qual pouco sabemos) que nos atingirá anos após ano,  como os seus predecessores.  Mas mesmo dois meses de bloqueio causarão enormes prejuízos económicos. E os pacotes de estímulo monetário e fiscal planeados não vão evitar um colapso profundo, mesmo que reduzam a “curva” até certo ponto.  O pior ainda está para vir.

Leia este artigo no original clicando em:

https://braveneweurope.com/michael-roberts-it-was-the-virus-that-did-it

https://thenextrecession.wordpress.com/2020/03/15/it-was-the-virus-that-did-it/

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