CARTA DE BRAGA – “dos mais vulneráveis” por António Oliveira

Em 2007, os irmãos Cohen escreveram e realizaram ‘No Country for Old Men’ que por cá teve por título ‘Este país não é para velhos’.

Um filme multipremiado, só para aqui chamado pela circunstância de o ‘agora’, ser o mote de quase toda a nossa existência.

O ‘agora’ assume-se como o objectivo fixo e sem condescendências a qualquer outro, por muito pensado que seja, envolvendo até fundamentos históricos, societais, lógicos ou temporais, pois a obsessão pelo futuro na ponta do dedo e na tecla de um click, desmonta e anula tudo, despejando qualquer possível argumentação para um saco roto e sem fundo.

Mas os irmãos Cohen deviam escrever um novo argumento para um filme parecido, ou fazer uma nova versão do primeiro, deixando a sua ambiguidade, entre o western, a comédia negra e o filme de acção, para mostrar o ‘drama do agora’ com um titulo bem próximo ‘Estes não são tempos para velhos’.

Por acaso, ou talvez não, somos nós, os mais antigos, a preencher as parcelas maiores das tabelas das vítimas de cada país, se calhar aliviando os temores de muito cidadão pacífico, ainda longe de atingir aquela barreira quase mítica dos 60.

Não demos importância quando o ‘corona virus’ irrompeu dos ecrãs das televisões e das redes sociais, por não pensarmos na sua capacidade de contágio e ouvi muita gente dizer com ligeireza, ‘isso é problema dos chineses, estão lá muito longe!

Depois ele chegou cá e ‘vai afectar os mais vulneráveis’, discurso que só começou a ser entendido com a divulgação das idades dos que partiam.

Mas, mesmo assim, chegou o bom tempo e houve excursões para a praia, viram-se pessoas a correr em calção nas ruas das cidades e filas à porta dos restaurantes, por não serem ‘dos mais vulneráveis’.

Receio bem estarmos já nos tempos das heterocronias que, afirma Daniel Innerarity em ‘O futuro e os seus inimigos’, tornam possíveis os conflitos entre sujeitos e grupos, por ser ‘o tempo dos jovens e o tempo dos mais velhos, o desequilíbrio entre as gerações e as desigualdades em geral’.

Afinal Innerarity quer apenas salientar a falta de sincronia entre os avanços das tecnologias frente à lentidão do direito, do tempo mediático e do consumo, frente ao científico e ao dos recursos.

E alguém fica a perder nesta situação – os ‘mais vulneráveis’ – pois não se conseguem opor à criação quase inevitável de modelos optimizadores das sociedades que, por sua vez, se assumem quase sempre como excludentes.

Só falta acrescentar que os consideram como ‘matéria não reciclável’, prejudicial ao sistema por ocuparem espaço, tempo e recursos que poderiam ser aplicados noutros meios, mais úteis e ainda com préstimo, nesta sociedade das pressas e da velocidade.

Mas, até o notamos bem, é extremamente complicado que critérios morais e mesmo éticos, se consigam sobrepor aos critérios contabilísticos e ou administrativos!

Um tempo e um conjunto enorme de situações que permitiriam aos irmãos Cohen escrever e realizar uma nova versão do seu multipremiado filme, agora com um outro título mais incisivo, ‘Estes não são tempos para velhos’.

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

 

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