CRISE DO COVID 19 E A INCAPACIDADE DAS SOCIEDADES NEOLIBERAIS EM LHE DAREM RESPOSTA – XXII – O CUSTO DE NADA FAZER OU DE NÃO O FAZER BEM – uma carta de GIUSEPPE IMBALZANO

 

I COSTI DEL NON FARE O DEL NON FARE BENE, del dr Giuseppe Imbalzano

L’Italia e il Mondo, 19 de Março de 2020

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

O Dr. Giuseppe Imbalzano leu o meu artigo sobre Os dois estilos estratégicos de gestão de epidemias em confronto [1] e enviou-me o texto abaixo como comentário  que publicamos,  agradecendo-lhe vivamente.

O que  escreve deve ser lido  com muita atenção, porque o Dr. Imbalzano tem a competência  e a experiência necessárias para saber muito bem do que fala e do que escreve: basta olhar para o seu curriculum  profissional.

Giuseppe Imbalzano, médico, especialista em Higiene e Medicina Preventiva. Diretor Médico da ASL Lombardia há 17 anos (Ussl Melegnano, Asl Milano 2, Asl Legnano, Asl Lodi, Asl Bergamo, Asl Milano 1). Director Científico de projetos da UE (Serviço ao Cliente, Informatização da Medicina Geral). Tem-se ocupado da  organização do  serviço de saúde, prevenção, informática médica, ética, humanização hospitalar e psicanálise._Roberto Buffagni

P.S.: Tratamo-lo assim,  porque somos da mesma idade, mas até agora não nos conhecíamos.

 

Carissimo Roberto,

Tem um estilo forte, um encadeamento e uma fluidez de raciocínio, uma harmonia na leitura que fascina pela simplicidade e decisão, que imediatamente nos salta  aos olhos e nos entra  no coração.

Mas  terá pensado que estava a ser duro, incisivo, decidido,  e, em vez disso, é bondoso, delicado, quase ternurento.

As suas pinceladas são surpreendentes pela consistência dos valores que  expressam, mas está bem abaixo da realidade.

No seu texto descobre  a coragem e as lacunas no mundo civilizado.

O que é necessário, o que deve ser, o que se deve  saber.

 

O custo infinito.

Para fazer a prevenção comunitária é necessário ter um sistema já operacional e pronto para a intervenção sempre e em qualquer caso. Um compromisso que poucos têm, uma rede sempre pronta.

A Alemanha, o Reino Unido e outros países não têm um sistema de prevenção sanitária que esteja sempre pronto, ativo e universal.

Um sistema que  se preocupe  com a saúde e bem-estar dos seus cidadãos, que trabalhe sempre, que  verifique e  remova os perigos e riscos que nós temos, riscos que aparecem de repente, laboratórios de saúde pública, serviços de segurança alimentar e nutrição, higiene ambiental, ambientes confinados, vacinas, controles de água e como é útil para toda a comunidade, bem como medicina no trabalho  para a segurança dos trabalhadores.

Custa e isso é verdade, mas é um sistema silencioso e precioso, é o nosso sistema de garantia.

Não é apenas o custo, felizmente não infinito, mas a vigilância constante, instrumento rigoroso e barreira de proteção  para o nosso bem-estar. E o tempo para gerir e formar pessoal, para criar médicos e especialistas apenas por segurança, não é nem rápido nem simples.

E se há uma infeção, deteta a situação, cuida dos casos, acompanha-os e protege-os e, dessa forma, protege-nos a todos.

Seleção das espécies

 

Com esta infeção descobrimos que existe um novo modelo de seleção humana, de comunidade, baseado na relação custo/utilidade, “habitue-se a perder os seus entes queridos”.

Não que isto não tenha acontecido  no passado, Sparta docet, mas  nunca o foi de forma  tão lúcida, clara e precisa, talvez nunca o tenhamos ouvido nos últimos 75 anos.

E no  berço da democracia, da Magna Charta, da Constituição, do direito moderno.

A seleção não pela raça, mas sim pela  utilidade.

“Fizeste tudo o que podias pelo  teu país, precisas de uma pensão. De apoio  médico, de  medicamentos, de cuidados de saúde, de meios de mobilidade, precisas também de ternura, bem, agora obrigado.”

Uma bela poupança para o Estado. Grandes poupanças para o Bem-estar Nacional.

Com olhos pungentes, brihantes, muito loiro e, como hoje é moda, despenteado.

Mas sem nenhum esforço, em particular, uma bela tesourada de sujeitos inúteis.

Uma Flauta Mágica e muitos idosos atrás (não crianças, desta vez).

As infeções não afetam necessariamente os idosos,  mas este vírus  tem um  particular tropismo em relação à idade não infantil (talvez por causa do “excesso” de vacinação das crianças, como estamos a tentar compreender) e, como todas as doenças, tende a fazer enormes estragos em algumas categorias específicas  (doenças degenerativas crónicas e idosas no nosso caso).

A escolha biológica ideal (e depois dizem que não a fizeram  num laboratório na Inglaterra…)

Mas não se preocupem, isso afeta a todos, sem nenhuma preocupação com o cartão de identidade, ano e o século de nascimento.

Eles podem não morrer, mas eles  têm também necessidade  de cuidados de saúde.

E depois toda a família  do paciente, deixam-no em casa com os outros.

Mas o vírus criaram-no defeituoso!

Ai, ai, ai, a genética!

É letal numa certa idade, mas nem sempre é suave para  com as outras.

Para muitos, digamos 80%, passa rapidamente e nem  sentem nada ou quase nada, mas para 20% mais ou menos após uma semana, começam os problemas, o oxigénio, os cuidados intensivos, a reanimação ou com oxigenação de membrana extracorpórea, também conhecida como ECMO nas iniciais em inglês. E medicação. E cuidados hospitalares.

Mas onde vou encontrá-los se os doentes, os mal comportados aparecerem, numa ambulância, todos juntos?

E não apenas aqueles que passaram para lá da idade deles e  que só são bons apenas para pedir pensões, assistência e medicamentos.

Há motoristas, eletricistas, canalizadores, operários, guardas noturnos, bombeiros, polícias, socorristas, médicos e enfermeiros, todos juntos e nem sempre, agora mesmo, a salvar  a vida de outros.

Selecionemos, também aqui, antes de gastar dinheiro com aqueles que não vão sobreviver. Mas entre estes, quem tem mais direito? E depois também pedem para serem tratados  durante duas ou três semanas. E depois  disto, a situação  não está resolvida.

Ah, mas eles ficaram em casa?

Então, em 7 dias, temos de acomodar toda a família.

Mas nós não temos mais lugares.!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Então já não temos de decidir.

E mesmo os jovens perdem as suas vidas nesta roleta do Estado onde  só o zero sai sempre.

E já não é esperado apoio do  grupo  dos 1% que tanto beneficiaram com o Estado …

Mas, além do mais, eles não têm idade, nem  primeiro, nem último nome.

Será que estão 60% doentes?

Não, de forma alguma.

Eles não chegarão a tempo.

Nem mesmo a possibilidade de ficar doente com a ajuda deste novo e precioso kit viral.

Os nossos especialistas internacionais devem ter estudado num muito  conhecido livro de virologia, higiene e programação de saúde, de um quase ganhador do Prémio Nobel – O meu primo tem papeira.

O que é que aconteceu, que  não demos por nada?

Aqueles com maior risco nos locais onde habitam ou trabalham ficam doentes

Pessoal médico – pessoal móvel – motoristas – serviços 24 horas por dia com abertura de turnos e suspensão de serviços

Hospitais – transportes – serviços essenciais (eletricidade, gás, água, combustível,  supermercados, entregas ao domicílio, bancos, seguros, pensões, computadores, semáforos e comboios, produtos de segurança, farmácias, oxigénio, lixo e tudo o que é socialmente útil, polícia, exército, bombeiros e tudo o que se possa pensar, o sistema de segurança, o sistema social, os telefones e telemóveis, o computador de onde se está a ler e por isso mais simples).

E assim seja.

E cadáveres por todo o lado, na pior representação de uma praga induzida e  deixada à solta.

E é  apenas um pouco mais que uma gripe, como muitos têm estado ocupados a dizer a partir das poltronas e nos seus lugares de administradores.

Todo o sistema social está suspenso e toda a nação está paralisada…

Mas isso é assim, muito, muito, muito antes de 60% da população ser infetada.

Malta, podemos ajudar, e até certo ponto…

A Grã-Bretanha  não.

A ponte sob o Canal da Mancha está bloqueada e o país inteiro está isolado.

Os ferries não têm combustível nem eletricidade para os serviços.

Os faróis vão estar apagados.

Então há  ninguém para ir buscar o pneu se quisermos atracar.

E a rede 5G estará disponível para as futuras gerações de polacos que virão para a ilha.

Não é ficção científica, é a fantasia de alguém que imagina que tudo está a andar  e que acompanha  de forma ordenado a película, o filme, a narrativa que foi criada e que nos é contada.

Que talvez Alain Deneault esteja certo ao afirmar  que somos governados por uma mediocracia?

“Não houve nenhuma tomada  da Bastilha, nada comparável ao incêndio do Reichstag, e o cruzador Aurora ainda não disparou um único canhão. Mas, na verdade, o assalto ocorreu, e foi coroado de sucesso: a mediocridade  tomou o poder”.

E é uma traição ao pacto democrático, eu o elejo e você vai-me proteger e irá fazer com que eu passe a viver melhor, pacificamente e por muito tempo.

Um pacto fundamental da nossa comunidade. Da democracia.

Por outro lado, quem tiver feito uma intervenção para prevenir o desenvolvimento infecioso e erradicar a infeção (como indicado pela OMS), terá preservado a sua própria população em risco e o seu sistema social de apoio à gestão da comunidade.

Um verdadeiro projeto criminoso, o outro.

E sem atingir 60% porque não haverá mais população viva após alguns dias.

A água não chegará às torneiras,  a comida não estará disponível, a polícia não estará ativa e todos os acidentes não serão tratados.

As projeções de Johnson ou  de outros são feitas por aqueles que não sabem onde e porque é que vivem bem.

Os mortos não serão 100.000

E aqueles que irão à Grâ-Bretanha para ajudar terão de ser bem protegidos, porque os cadáveres serão em número quase infinito.

E as ratazanas, vivas, contar-se-ão aos  milhões.

Se elas não conseguirem mais comida nos esgotos, todos elas vão sair. E elas estão livres de infeção.

Os outros animais, os que precisam de cuidados e assistência, desaparecerão.

Chernobyl no seu sarcófago de cimento  será um exuberante cartão de Primavera.

As centrais nucleares deixarão de serem controladas  e as armas, aviões, mísseis e bombas atómicas serão apanhadas por quem chegar primeiro.

O efeito Dunning-Kruger é uma distorção cognitiva devido à qual indivíduos com pouca experiência em dado campo tendem a superestimar as suas próprias capacidades, autoavaliando-se erradamente como especialistas nesse campo, enquanto que, por outro lado, pessoas verdadeiramente competentes tendem a depreciar ou subestimar as suas reais  competências. Como corolário desta teoria, os incompetentes muitas vezes provam ser extremamente opinativos (da Wikipédia).

E eles aí estão, por todo o lado.

Talvez os custos de nada fazer ultrapassem os benefícios de fazer.

Fonte: DR GIUSEPPE IMBALZANO,  I COSTI DEL NON FARE O DEL NON FARE BENE . Texto disponível em:

http://italiaeilmondo.com/2020/03/19/i-costi-del-non-fare-o-del-non-fare-bene-del-dr-giuseppe-imbalzano/

__________

[1]  Pode ler  a tradução do artigo de Roberto Buffagni, publicada ontem, 12 de Março de 2020, clicando em:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/04/12/crise-do-covid-19-e-a-incapacidade-das-sociedades-neoliberais-em-lhe-darem-resposta-xxi-epidemia-coronavirus-duas-abordagens-estrategicas-em-confronto-por-roberto-buffagni/

 

About joaompmachado

Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

2 comments

  1. *“OS VERDE-AMARELO”: INIMIGOS MORTAIS DO BRASIL* – por Malu Aires
    > https://gustavohorta.wordpress.com/2020/04/13/os-verde-amarelo-inimigos-mortais-do-brasil-por-malu-aires/

    “Nem Inglaterra, nem Estados Unidos, nem Alemanha, nem Itália acreditam mais na cura do Brasil. Pediram que seus cidadãos voltem imediatamente aos seus países.
    O Brasil precisa de ajuda, contra um inimigo mortal – os verde-amarelo.
    Não há mais como tolerar os verde-amarelo destruindo nosso país e colocando em risco a vida de milhões de brasileiros e estrangeiros que vivem aqui.
    São os verde-amarelo que organizaram desfiles pelo fim da nossa democracia, pelo fim da nossa soberania, entrega do nosso patrimônio, pela nossa ruína econômica e pela nossa crise social. …”

  2. Pingback: CRISE DO COVID 19 E A INCAPACIDADE DAS SOCIEDADES NEOLIBERAIS EM LHE DAREM RESPOSTA – XXII – O CUSTO DE NADA FAZER OU DE NÃO O FAZER BEM – uma carta de GIUSEPPE IMBALZANO — A Viagem dos Argonautas | Gustavo Horta

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