CRISE DO COVID 19 E A INCAPACIDADE DAS SOCIEDADES NEOLIBERAIS EM LHE DAREM RESPOSTA – XXIII – CORONAVIRUS, A ITÁLIA SUBEQUIPADA FACE À CRISE SANITÁRIA, por ANNE LE NIR

 

 

Coronavirus, l’Italie sous-équipée face à la crise sanitaire, por Anne Le Nir

La Croix, 9 de Março de 2020

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

 

A rápida disseminação do Covid-19 no norte do país saturou os hospitais da região. Nas unidades que recebem pacientes infetados, os médicos já estão a ser  chamados a dar prioridade àqueles que têm maior probabilidade de recuperação.

Um posto de controle médico na entrada do hospital em Brescia, Lombardia, no dia 3 de março. Aqui é onde os pacientes são “classificados”, aqueles potencialmente infetados com coronavírus e outros / Flavio Lo Scalzo/Reuters

.

Um documento publicado neste fim de semana pela Sociedade Italiana de Anestesia, Analgesia, Reanimação e Terapia Intensiva (Siaarti) reflete a situação catastrófica em que estão mergulhados os hospitais das regiões norte do país, que são os mais afetados pelo vírus Covid-19,e em que  o vírus  está a progredir  a um ritmo exponencial.

Embora o sistema de saúde pública da Lombardia, Emilia-Romagna e Piemonte seja considerado o mais eficiente da Itália, as unidades de terapia intensiva estão agora a ficarem saturadas.

Seleção dramática em unidades de cuidados intensivos

Neste documento intitulado “Recomendações éticas clínicas para a admissão de pacientes em unidades de terapia intensiva e para a sua suspensão em condições excecionais de desequilíbrio entre necessidades e recursos disponíveis”, afirma-se que a pressão sobre os hospitais é tal que, se a epidemia não abrandar, será necessário estabelecer critérios de seleção em todo o país.

“No Norte, onde mais de 500 pacientes estão em terapia intensiva, os nossos colegas que trabalham quase 24 horas por dia são obrigados a avaliar, no dia-a-dia, quais os casos com probabilidade de sobreviver e quais os que têm menos probabilidade de sobreviver. Isto aplica-se igualmente às pessoas com patologias que requerem cuidados intensivos e àquelas com uma forma grave de coronavírus”, explica Flavia Petrini, presidente da Siaarti.

Dado o aumento horário do fluxo de pacientes, o número limitado de leitos de terapia intensiva (menos de 6.000 em instalações públicas) e o facto de muitos médicos e enfermeiros estarem eles próprios infetados com o vírus e em quarentena, devemos dar prioridade aos jovens e àqueles que têm mais probabilidades de sobreviver”, acrescentou ela.»

Uma corrida contra o tempo

Um médico do hospital em Cremona, Lombardia, confirma o terrível dilema sob condição de anonimato. “Nos últimos dias tivemos que escolher quem intubar, entre um paciente de 40 e um paciente de 60 anos que estão ambos em risco de morrer”. É atroz e nós choramos, mas não temos equipamento de ventilação artificial suficiente.»

No domingo, pouco depois da assinatura do decreto de colocação em quarentena da Lombardia e de 14 províncias, localizadas entre Emilia-Romagna, Veneto e Marche, com 16 milhões de pessoas confinadas até 3 de abril, o chefe de governo Giuseppe Conte assegurou que “tudo será feito para suprir as deficiências”. Um decreto anterior, datado de 6 de Março, prevê o recrutamento de 20.000 médicos, enfermeiros e auxiliares de enfermagem, incluindo reformados e profissionais que trabalham no sector privado.

O novo decreto, que entrou em vigor a 8 de Março, diz que a Itália vai produzir rapidamente centenas de aparelhos para unidades de terapia intensiva e aumentar o número de camas de terapia intensiva em 50%.

Medidas insuficientes

“Isto é essencial, mas há prazos técnicos a cumprir”, diz a Dra. Flavia Petrini. “Não se podem colocar camas de terapia intensiva em qualquer lugar. O uso de blocos operatórios pode ser considerado como uma solução tampão, mas isso atrasará os procedimentos programados para outros pacientes. Além disso, teremos dificuldade em recrutar anestesistas. Já empregamos médicos que ainda não completaram os seus cursos de especialização.»

A situação é ainda mais alarmante porque, apesar do apelo à auto-responsabilidade feito pelo Presidente da República, Sergio Mattarella, e reiterado por Giuseppe Conte, o chefe da Defesa Civil, Angelo Borrelli, e as epidemiologias presentes na televisão, nem todos os italianos respeitam as regras do comportamento quotidiano que é exigido.

Pouco antes da assinatura do novo decreto que estipula que os cidadãos residentes nas zonas vermelhas devem “evitar qualquer movimento dentro ou fora do seu município, exceto em situações de emergência ou exigências profissionais que não podem ser adiadas”, centenas de milaneses do Mezzogiorno invadiram comboios  noturnos em direção ao sul de Roma até à ponta da Itália.

Sul de Itália ainda mais subequipado que Norte de Itália

Em Roma e na Lazio, há atualmente cerca de uma centena de pessoas contaminadas pela Covid-19, das quais cerca de dez se encontram em estado grave. Enquanto a situação ainda está sob controle, as ruas da Cidade Eterna ficaram  semidesertos no domingo. A Cidade do Vaticano não foi poupada, um caso foi detetado num dispensário.

Desde então, foram tomadas amplas medidas de precaução. Tanto que o Papa Francisco recitará a oração do Angelus da sua biblioteca particular, em fluxo contínuo, até novo aviso. No domingo de manhã, apenas uma centena de peregrinos se reuniram na Praça de São Pedro, onde tinham sido instalados ecrãs gigantes. No final do Angelus, no entanto, o Papa apareceu, de surpresa, para saudar e abençoar os fiéis.

Mas o que preocupa as autoridades são as sete regiões do Sul desfavorecido. Da Campânia até à Calábria, passando por  Puglia e Sicília. Nessas regiões, com uma população de 21 milhões de habitantes, o sistema de saúde está cronicamente desfavorecido face ao Norte, saturado. As estruturas hospitalares estão em estado de degradação, carecendo de médicos, enfermeiros, macas e camas. A Calábria, por exemplo, tem 1,5 cama  por 1.000 habitantes.

“Estas regiões ainda não estão muito afetadas pelo vírus, portanto as pessoas não estão conscientes do perigo real”, diz o professor Walter Ricciardi, assessor do ministro da Saúde Roberto Speranza. Devemos esperar que a epidemia se espalhe por toda a Itália: “Não podemos isolar  tudo militarmente como fizemos em Wuhan, a Itália é um país democrático”. Mas se o vírus se mover para sul muito rapidamente, a situação será incontrolável. »

 

Para ker no original clique em:

https://www.la-croix.com/Monde/Europe/Coronavirus-lItalie-sous-equipee-face-crise-sanitaire-2020-03-08-1201082772

Coronavirus, l’Italie sous-équipée face à la crise sanitaire

 

La Croix

1 Comment

Leave a Reply